Nelson Lacava alugou uma sala, juntou telefone, duas cadeiras e uma mesa velha e fez um cartão com o título "advogado". No primeiro mês, tinha um cliente. Dois anos depois, já contava 32, que lhe garantiam uma renda confortável e o estilo de vida que sempre quis: livre para trabalhar apenas com o que gosta. Os amigos de Verônica Santarosa brincam que ela será presidente do Banco Mundial. Fez direito e economia, dois mestrados no exterior e umdoutorado nos Estados Unidos. Walmir Cruz cursou quatro períodos de administração, mas achou a carreira vazia. Queria fazer algo social. Trocou os livros de finanças pela Constituição, e assumiu uma vaga de juiz substituto no interior de São Paulo. Renato Jabur vem de uma família de advogados e não foi surpresa que seguisse a profissão. Mas, em algum lugar, havia uma ponta de dúvida: ele também adorava negócios. Na faculdade, descobriu que podia unir as duas profissões e tornou-se especialista em direito bancário. Quando Melissa Ita chegou à Alvorada do Norte, no nordeste de Goiás, prendeu a respiração. A cidade, no apelidado "corredor da pobreza", parecia o fim do mundo.Mas algum tempodepois,como promotora, passou a cuidar de 5 mil processos e a atender cerca de130 pessoas por mês, para resolver de brigas entre vizinhos a fraudes eleitorais.
Esses cinco jovens são um pequeno retrato dos caminhos que o direito oferece. Todos eles, na casa dos 20 anos, ainda que na época do vestibular não sonhassem com o trabalho que têm hoje, amam o que fazem. "A concorrência é feroz. É preciso estudar muito e a pressão é enorme, porque o destino das pessoas depende de sua competência. Mas as recompensas são maravilhosas", diz Nelson Lacava. Ele não está falando apenas dos honorários embora, claro, o dinheiro conte para trazer segurança e realizar sonhos pessoais. "O apaixonante do direito é fazer parte. Defendo os interesses da comunidade, enfrento brigas que ninguém quer comprar e ajudo a fazer acordos que melhoram a vida de muita gente", conta Melissa, a jovem promotora de Goiás.
Dificuldade é o que não falta. O sistema judiciário no Brasil é lento e burocrático. Milhares de novos profissionais entram no mercado a cada ano para disputar as mesmas vagas. Por mais que se especialize, é preciso saber um pouco de tudo e manter-se atualizado sobre as mudanças freqüentes na legislação. Os concursos públicos e as bolsas de estudo são concorridíssimos e mais difíceis do que qualquer vestibular. Mesmo assim, a cada ano 120 mil estudantes entramem faculdades de Direito. Muitos vão pelas oportunidades de trabalho que a carreira oferece. Outros, na dúvida ou por influência dos pais, ficam com a tradição do curso. E há até quem seja idealista como o juiz Walmir Cruz: "Eu acredito na justiça e quero fazer a diferença."
EDUCAÇÃO HUMANA
Seja qual for a motivação, o curso de Direito oferece uma educação humana, que forma, antes de advogados, cidadãos conscientes. O currículo mínimo, definido pelo Ministério da Educação, é dividido em quatro grupos de disciplinas. As básicas, como filosofia, economia e política, introduzem conceitos e debates das ciências humanas. Ao lado das matérias de formação geral, como sociologia jurídica e teoria do direito, elas compõem a grade de aulas do primeiro ano da faculdade. As disciplinas de formação profissional, como direito civil, penal e comercial, aparecem no segundo ano. A partir dessa fase, já é possível cursar matérias optativas diferentes em cada universidade , como direito internacional e ambiental, que encaminham para a carreira. Nos dois últimos anos, a carga horária diminui para dar espaço ao estágio obrigatório e à monografia. É também o momento de escolher a área final de formação, como direito administrativo ou trabalhista.
VALE SER VOLUNTÁRIO
Além das disciplinas teóricas, os bons cursos oferecem maneiras de se aproximar da realidade da profissão e aprofundar os conceitos vistos na sala de aula. São grupos de estudo, bolsas de monitoria, pesquisa ou auxílio ao professor, atividades políticas no grêmio estudantil, estágio no departamento jurídico ou na empresa júnior. Muitas vezes, o trabalho é voluntário. Mesmo assim, quem investe o tempo nas atividades extracurriculares garante que vale a pena.
Os jovens bem-sucedidos apresentados no início desta reportagem são defensores fervorosos do aprendizado prático. Nelson Lacava entrou na faculdade com a idéia fixa de fazer concurso. Os dois anos de estágio no departamento jurídico, que atende gratuitamente a população, transformaram seus valores. "Conheci uma realidade social completamente diferente da minha. Pegava os casos criminais que ninguém queria. Aprendi que todos merecem uma segunda chance", conta. Mudou de idéia sobre o concurso e se tornou advogado penal. Para Verônica Santarosa, participar das atividades acadêmicas estreitou os laços com colegas e professores, que ajudaram a abrir portas no futuro. "Fazia parte dos grupos de estudo e trabalhava como assistente de pesquisa. Por mais curtas que fossem essas experiências, elas me indicaram o caminho profissional a seguir e renderam conselhos valiosos sobre bolsas de estudo, por exemplo." Aproveitar a faculdade antes de se lançar no mercado garante uma formação mais sólida.
O estágio é obrigatório, traz a prática para quem vive de teoria e insere o aluno no mercado. Mas também pode ser uma exploração que atrapalha o acompanhamento das aulas e pode fazer que o estudante realize um trabalho desqualificado e sem supervisão. Afinal, qual é a do estágio? Com sorte, será uma boa experiência da vida real, já que as faculdades no Brasil não aliam a prática à teoria. Mas também pode ser apenas um abuso da mão-de-obra barata. O mais comum é que, de aprendiz, o aluno se torne um office-boy de luxo. Na corrida por um emprego, muitos estudantes buscam trabalho já no segundo ano de faculdade. O valor da experiência vai depender, é claro, da credibilidade da empresa ou da instituição.
Bem formatado, o estágio pode ser a chance de se familiarizar com o cotidiano do direito, experimentar áreas novas e conhecer profissionais que, mais adiante, poderão ser chefes ou colegas de trabalho. "O mercado tem medo de contratar recém-formados sem experiência. O estágio é a maneira de o estudante conhecer o mundo real e se inserir nele. Enquanto isso, a empresa seleciona e treina os profissionais de amanhã", diz o advogado Paulo Rocha. "A maioria dos sócios de hoje foi estagiário. É aquela história: antes de tocar o piano, é preciso carregá-lo."
O jovem advogado Renato Jabur defende a tese de que o planejamento da carreira começa no momento de escolher os estágios. No caso dele, em vez de aceitar a primeira chance, preferiu ser seletivo e, a médio prazo, garantiu o bom emprego que tem. "Sempre quis trabalhar em um grande escritório. Sabia que precisaria me dedicar muito e, por isso, na primeira metade da faculdade só estudei", conta. Começou a estagiar como voluntário da procuradoria estadual. "Fiquei na área de processos. Não era a minha preferida, mas precisava dessa experiência. Só então fui para um escritório, trabalhar no setor de que mais gostava." Ao se formar, foi contratado.
O COMEÇO DO COMEÇO
Entrar no mercado de trabalho sem a ponte do estágio não é tarefa fácil. Há quem peite a concorrência de gigantes, abrindo um escritório sozinho ou com amigos, como fez Nelson Lacava. "Queria ter independência. Dispensei convites de outros escritórios para ficar por conta própria. Não é fácil: tenho de ser o administrador, a secretária, o contador, o síndico, o office-boy, garimpar clientes e cuidar dos casos. Mas faço o que quero e trabalho só pelo meu nome", diz.
Quem quer a segurança de um salário fixo pode procurar os concursos. Mas, mesmo nas carreiras públicas, é preciso levar em conta a vocação. Quando Melissa Ita chegou à faculdade, queria ser advogada e professora. Fez estágios em várias áreas perseguindo o sonho. No fim do curso, entrou em crise. "Estava decepcionada e frustrada com o dia-a-dia da profissão. Não era como eu havia imaginado. Na advocacia, defendem-se interesses privados. Vi na promotoria a chance de defender a sociedade e interesses de primeira grandeza, como o meio ambiente. Reencontrei a magia do direito." Fez um ano de cursinho preparatório e, quando passou em um concurso de Goiás, deixou a família, os amigos e o namorado para trás. "Um único promotor em uma região isolada faz uma diferença enorme para a comunidade", conta.
O CAMINHO DA ESPECIALIZAÇÃO
Para quem fica na iniciativa privada, a primeira providência é se especializar. "O direito está cada vez mais segmentado, e isso se reflete dentro dos escritórios e das empresas. Ganha quem souber muito sobre uma área e um pouco sobre todas as outras. Se o profissional não se especializa por conta própria, o mercado o empurra naturalmente para algum lugar. Melhor você escolher", diz Paulo da Rocha. Há opções de cursos rápidos, especializações e mestrado em todos os campos.
Algumas áreas estão mais quentes do que outras, como direito eletrônico, do entretenimento, desportivo, administrativo, de petróleo e energia, de telecomunicações e comércio internacional - mas os rankings são volúveis. Até você se formar, essas especialidades podem ter saído de moda. As tradicionais, como penal e da família, embora mais concorridas, sempre oferecerão oportunidades. Se o cotidiano de um escritório não interessa, é possível trabalhar no departamento jurídico de empresas, associações e organizações não-governamentais ou como consultor, sem vínculo com nenhuma instituição tendência em um mercado cada vez mais saturado.
O advogado pode ainda seguir carreira política, através da diplomacia ou assessoria legislativa (e, quem sabe, mais além: seis presidentes do Brasil eram bacharéis em Direito). Nos últimos anos, com a explosão das faculdades particulares, a carreira acadêmica voltou a ser uma atração. Nesse caso, é recomendado emendar um mestrado quanto maior a qualificação, melhores os salários.
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