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CONSTRUINDO SEU CAMINHO A definição do curso não deve ser uma decisão isolada, mas sim fazer parte do seu projeto de vida
Cecília Meireles já dizia no poema Ou Isto ou Aquilo ao se referir sobre a angústia da escolha: “Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares”. Na hora de bater o martelo entre as mais de 200 opções de cursos oferecidos pelas quase 2 mil instituições de ensino superior do país, nada mais comum que a dúvida e a incerteza. “A partir da oitava série do ensino fundamental, comecei a pensar em qual profissão seguiria. Cada dia era um curso diferente que conhecia e escolhia. Já pensei em Nutrição, Direito, Administração e até em não fazer nada”, conta Mariana Dias Fontes, 17 anos, de Belo Horizonte (MG), estudante do terceiro ano do ensino médio. 

Desde 2007, porém, ela vê com muita simpatia a possibilidade de ser fisioterapeuta e pensa, no futuro, em abrir uma clínica e trabalhar com deficientes físicos e reabilitação. “Não foi nada fácil tomar essa decisão. Primeiro, eu escolhi uma matéria de que gostava e sentia facilidade para aprender: biologia. Depois, dentro da área de biológicas, optei por um curso que tinha mais a ver comigo.” Durante um tratamento para problema nos joelhos decorrente da prática de balé, Mariana conheceu de perto o trabalho de um fisioterapeuta e achou que poderia ser interessante fazer isso. Apesar de se considerar decidida pela Fisioterapia, a estudante não exclui a hipótese de prestar Medicina e se especializar em ortopedia. 

Tanta dificuldade é compreensível. Após trilhar o caminho dos ensinos fundamental e médio sem grandes resoluções a fazer, chegou a hora de você começar a construir o seu projeto de vida – e isso não acontece na forma de uma decisão isolada, muito menos de uma “descoberta”. “A pessoa deve avaliar a inserção em uma carreira como algo a longo prazo, composta por uma série de escolhas. Ela precisa pensar em uma profissão que possibilite determinado estilo de vida, considerando, por exemplo, onde vai morar, o casamento, se for o caso, e outras atividades importantes para ela”, afirma o psicólogo Fabiano Fonseca da Silva, do Serviço de Orientação Profissional (SOP) da Universidade de São Paulo (USP). 

Os especialistas em orientação vocacional sugerem que o aluno faça um exercício de pensar o futuro para a construção desse projeto a partir dos desejos e possibilidades atuais. Uma idéia é tentar se imaginar em 2018, por exemplo. Será que daqui a dez anos você terá os mesmos interesses? Em que tipo de local gostaria de trabalhar? Como seria a sua rotina em um dia comum? Quem seriam seus  amigos e quais as suas atividades de lazer? Onde e com quem gostaria de morar? 

A definição do curso não será a única nem a última escolha que você terá pela frente ao longo de sua vida profissional. Outras surgirão, como fazer ou não estágio, especialização, mestrado, doutorado, onde trabalhar e por aí vai. Apesar de não ter a mesma importância de dez ou vinte anos atrás, no
entanto, a decisão sobre o que cursar está longe de ser irrelevante, pois representa um passo significativo do projeto de vida de cada um. 

PERCEPÇÃO DOS DESEJOS
Prestar atenção em si próprio é o primeiro passo na decisão de que rumo tomar, segundo os especialistas. Tente perceber o que gosta de fazer, quais são as suas habilidades, limitações e motivações. Para a psicóloga e psicanalista Cláudia Prioste, professora do Centro Universitário
das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), em São Paulo (SP), e da Universidade Gama Filho (UGF), no Rio de Janeiro (RJ), um dos maiores desafios não apenas dos jovens, mas de todos, é reconhecer a direção de nossos desejos e sustentá-la. “Querer fazer algo é diferente de desejar, que é diferente de poder fazer. O querer é da ordem do consciente, enquanto o desejo é inconsciente e nem sempre fácil de ser acessado e desvendado”, diz. “Ao se defrontar com a necessidade de escolher  uma carreira, o jovem precisa identificar seu desejo, considerar a realidade na qual está inserido e pensar em como se responsabilizar por sua escolha.” 

Outro passo importantíssimo na decisão é a busca por informações sobre os cursos, as profissões e o mercado de trabalho. Nesse sentido, vale conversar com professores, profissionais e alunos dos cursos de seu interesse, consultar publicações especializadas, pesquisar na internet e freqüentar  feiras de universidades e profissões. Munido com suficiente conhecimento de si e com muita informação sobre as diversas profissões, fica mais fácil evitar modismos e não sucumbir a uma eventual pressão familiar para exercer uma atividade que esteja fora de seu perfil. 
 
RETORNO FINANCEIRO
O conflito básico, aponta Cláudia, gira em torno de fazer o que se gosta versus fazer o que se acredita que possibilitará autonomia financeira. “Nem sempre é fácil equacionar esses dois elementos,  sobretudo em uma sociedade cuja imagem de sucesso está essencialmente atrelada ao dinheiro”, afirma a psicóloga.

Pautar a decisão apenas com base na boa remuneração atual de uma profissão é por certo uma armadilha fácil – e pode acabar em frustração, desistência do curso ou abandono da carreira. Alémdas flutuações do mercado de trabalho, muitos profissionais acreditam que, ao fazer o que se gosta, o  retorno – inclusive o financeiro – é certeiro. Outro equívoco comum dos vestibulandos, de acordo com orientadores, é basear a escolha apenas no bom desempenho em uma disciplina no ensino médio ou fundamental. Muitas vezes, o curso superior ou a atividade profissional no cotidiano podem não lhe agradar tanto.

“Entre facilidade e preferência, conta mais a preferência”, considera a paulista Anna Ribeiro Camargo, e 18 anos, caloura de Artes Plásticas na USP. Ela sempre foi bem em exatas, mas gostava mais de umanas. Indecisa até o último momento, prestou vestibular também para Audiovisual (Imagem e Som), a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Carlos (SP), Ciências Biológicas (Biologia Marinha), na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São Vicente (SP), e Oceanografia, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Como não passei na prova de aptidão da USP no ano passado, achei que não tivesse jeito para Artes Plásticas e resolvi fazer outra coisa mais ‘pé no chão’, como Oceanografia”, conta. Mesmo assim, decidiu investir na inscrição em primeira opção para Artes Plásticas. 

Anna passou em todos os vestibulares que prestou em 2008, depois de um ano de cursinho, e optou ela faculdade que trazia no “pacote” um estilo de vida mais ligado ao meio cultural. “Tudo o que eu uiser – cinemas, museus, teatros –, encontro por aqui, em São Paulo; em Santa Catarina, eu iria ficar mais na praia”, justifica.

MUDANÇA DE RUMO
Uma possibilidade, antes de eleger a sua carreira de preferência, é eliminar aquelas que você não seguiria de maneira nenhuma. Depois, procure associar as profissões com suas habilidades e características. Pessoas mais introvertidas podem ter dificuldade para exercer atividades que exijam  contato com o público e os extrovertidos talvez não se satisfaçam com o isolamento de funções mais solitárias. É preciso, no entanto, ter cuidado para não se deixar levar por estereótipos e sempre pensar
que cada um vai construir o seu caminho profissional de modo único, do seu jeito. Traduzindo: não há um modelo fechado de personalidade para cada profissão e as diversas atividades profissionais podem ser exercidas das mais variadas formas. Calcula-se que metade dos estudantes que  ingressam na graduação todos os anos não se forma. Uma eventual mudança de curso, no entanto, deve ser feita somente após muita ponderação, já que implica perdas – entre elas, de tempo e dinheiro. Quando as aulas não lhe satisfazem de forma alguma ou após estagiar você descobre que não curte o cotidiano da profissão, a solução pode ser mesmo tomar um novo rumo. Sempre há tempo para um ajuste na direção, e as experiências de um curso anterior podem ser valiosas para a nova profissão.
 
 
UMA ESCOLHA, VÁRIOS CAMINHOS Decisão pelo curso não implica necessariamente a opção por uma profissão Diferentemente do que acontecia há alguns anos, a definição por um curso não significa selar o seu destino com uma determinada atividade profissional – atualmente, um mesmo curso permite inúmeras possibilidades de trabalho. “A escolha da carreira não deve ser vista como um casamento que nunca será desfeito”, diz o psicólogo Fabiano Fonseca da Silva, da USP.

Hoje, na maioria das profissões, conta Silva, a aderência à carreira é baixa. Ou seja, está cada vez mais raro a pessoa trabalhar na área em que se formou – com a exceção de alguns cursos da área de biológicas, como Medicina. Quando se pensa em uma carreira dentro de uma empresa, por exemplo, a graduação que você fez pode ser importante no ingresso, mas, ao chegar aos cargos de gestão, ela já não é tão determinante. “É bom o estudante saber que, o curso superior feito tende a ter menos importância quanto mais se ascende na estrutura da empresa”, diz Silva.

Engenheiros trabalhando no setor administrativo das corporações, administradores atuando em agências de marketing, psicólogos na área de comunicação são exemplos de “intercâmbios” vistos com freqüência no mercado profissional. Além disso, os cursos abrem portas para os caminhos mais díspares. No caso da estudante Anna Ribeiro Camargo, ela fechou questão no curso de Artes Plásticas, iniciado em 2008. Mas está aberta a opções de trabalho tão diversas quanto design, arquitetura, cinema, produção cultural e restauração. A temporada de escolhas apenas começou.
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