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Cancelamento do Enem gera dúvida, incerteza e descrédito entre estudantes

Alunos temem confusão no calendário dos vestibulares e até novas fraudes


Fernanda, feliz ao ser premiada com o 1º lugar no Simuladão Enem do GE. "Dedicação não foi à toa", acredita


por Felipe van Deursen


“Fiquei sabendo do adiamento do Enem pelas minhas amigas, assim que cheguei na escola. Não acreditei, era impossível, como a prova mais importante do Brasil tinha sido roubada?”. Incrédula, Karolina Magalhães ligou para a mãe, a fim de comprovar a história.

-Baixe a prova do Enem que foi cancelada

Aos 16 anos, a garota, de Taboão da Serra (SP), é mais uma na massa de mais de 4 milhões de estudantes que tiveram que lidar na manhã de hoje com uma mudança brusca e inesperada no calendário de um dos anos mais importantes de suas vidas. “Não sei como será” foi a expressão que eles mais usaram quando perguntados sobre o problema.

O Enem foi cancelado a dois dias da prova, devido ao vazamento do exame. A nova data para o exame ainda não foi anunciada, mas Fernando Haddad, ministro da Educação, adiantou que ela acontecerá em no mínimo 45 dias, ou seja, no fim do ano, época mais intensa de vestibulares.

“Na escola, o diretor conversou com os alunos. Mas não tem muito o que falar. É um absurdo. Ele só tentou nos deixar calmos. Ficou dizendo que estávamos bem preparados e que em 45 dias a prova ia sair, que não era para a gente se preocupar”, diz Karolina.

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DESACREDITADOS
“A única vantagem é que domingo é meu aniversário, não vou mais comemorar fazendo o exame”, brinca Nicole Camargo Sega, que fará 18 anos quando deveria estar realizando as provas de Linguagens, Matemática e Redação. “Agora não sei mais, vai que cai no mesmo dia de um vestibular?”, diz a estudante de Santo André (SP), que quer fazer Medicina. “E se as faculdades voltarem atrás, não aceitarem mais a nota do Enem como disseram que iam aceitar esse ano?”

Fernanda Maria Carvalho, 19 anos, ficou decepcionada com a notícia. “O pior não é nem cancelarem. Uma fraude no meio do processo, a dois dias da prova, dá muita insegurança”, diz. “A sensação é de que foi todo um esforço em vão. Tudo bem, vão adiar, mas quem garante que não vai ter fraude de novo, que dessa vez ninguém vai descobrir, que eles vão vender a um aluno com condições de pagar?”, desabafa a estudante, quarto ano consecutivo prestando vestibular na luta por uma vaga de Medicina na USP, Unicamp ou Unifesp.

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A mãe de Fernanda, Cristina Portela, reverbera a insatisfação da filha. “Ela está muito aborrecida. O MEC, o Enem, o Inep, todos perdem credibilidade. Se alguém é capaz de vender a prova por R$ 500 mil, por que não venderiam de novo na próxima vez?”, questiona.

A estudante Bruna Serrano Silva, 16 anos, acredita que o vazamento da prova vai repercutir mal para o Brasil. Ela é aluna do segundo ano do Ensino Médio e quer fazer Moda ou Psicologia. “Pelos simulados que vinha fazendo na escola, achei o novo Enem até mais fácil que o antigo, apesar de ter mais questões e mais conteúdo. Mas agora, vá saber? O próximo exame pode ser mais difícil, não dá para saber mais nada”.

Daniel Vasconcelos, 19 anos, de Taboão da Serra (SP), está menos preocupado. “Não vai mudar minha preparação para a prova. Só o fato de me dedicar à Fuvest me deixa pronto para o Enem também”, acredita. Ele tampouco se intimida com as mudanças da prova. “É para todo mundo, o que pode me atrapalhar deve atrapalhar os outros também.”

PROBLEMAS COM LOCAIS DA PROVA
Antes do vazamento do Enem, o maior problema eram os locais da prova. Muita gente mora a quilômetros de distância do lugar em que faria a prova. “Eu moro na Lapa, faria a prova em Santo Amaro”, diz Fernanda Carvalho, citando os 20 quilômetros que separam os dois bairros paulistanos.

“Tudo bem que tenho como ir de carro, mas e quem tivesse que ir de ônibus? E, nos casos mais extremos, em outras cidades, que teve gente que precisou até de hotel para ficar na véspera?”  Bruna Silva não teve esse problema, mas lembra uma amiga que sairia de Cotia para fazer a prova em Cubatão, ambas no estado de São Paulo e distantes 88 quilômetros. Todos os alunos entrevistados conhecem pelo menos uma pessoa que enfrentaria o problema da distância no fim de semana.

Em ano de gripe suína – que mudou o calendário escolar em diversos estados – novo Enem e novas propostas do MEC, muitos estudantes se sentem desnorteados. “O ministério não ajuda a gente. É muita confusão para um ano só”, completa Fernanda.

(colaboraram Mariana Nadai e Cláudia Fusco)

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