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Dia Mundial da Alfabetização: a situação do Brasil e desafios na pandemia

No Brasil, a data vem acompanhada de muita preocupação: país ainda tem 11 milhões de analfabetos

Hoje, 8 de setembro, comemora-se o Dia Mundial da Alfabetização. A data foi instituída em 1967 pela Organização das Nações Unidas (ONU), por meio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), com o objetivo ressaltar a importância da alfabetização para o desenvolvimento social e econômico mundial.

No Brasil, a data vem acompanhada de muita preocupação. O país ainda tem 11 milhões de analfabetos, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) Contínua Educação 2019, divulgada pelo IBGE. Com o ano atípico, de pandemia e ensino remoto forçado, o desafio para alfabetizar se tornou ainda maior.

Pesquisadores de 29 universidades brasileiras estão investigando como a nova política de alfabetização do governo federal, lançada no ano passado, tem chegado aos professores, e quais são os principais desafios com o isolamento e as aulas a distância.

Cada instituição analisará os dados do próprio estado. “No final, relacionaremos os dados nacionais para encontrar pontos comuns e divergentes e tentar entender o porquê de cada um deles. As melhores práticas serão socializadas para todo o Brasil. Queremos também entender como o professor transitou nesta mudança do presencial para o digital”, explica Evangelina Faria, pesquisadora da UFPB e uma das coordenadoras do estudo na Paraíba, em entrevista concedida ao próprio site da universidade.  

Professores da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental ainda podem colaborar na primeira etapa da pesquisa, que tem caráter quantitativo, por meio de formulário eletrônico, até o dia 15 de setembro. 

A segunda etapa da pesquisa interinstitucional, sobre o ensino remoto, durante a pandemia, será feita com entrevistas de professores de cada região.

Posicionamento da ABAlf

A Associação Brasileira de Alfabetização (ABAf) apontou, em nota, grandes preocupações sobre a alfabetização durante a quarentena. A organização, fundada em 2012, tem objetivo de articular, acompanhar e fomentar pesquisas e políticas públicas no campo da alfabetização.

Segunda a associação, as orientações que envolvem o ensino a distância nesse período, como a Medida Provisória editada pelo governo federal em 1º de abril deste ano, que permite que escolas e redes de ensino não cumpram o mínimo legal de 200 dias letivos de aulas presenciais, mas mantenham a carga horária de 800 horas, “deslocam para professores e famílias responsabilidade que é da administração dos sistemas educacionais, sejam eles públicos ou privados”.

Outro ponto levantado por eles é a necessidade de os professores dominarem ferramentas de comunicação virtual e digital, de mídias específicas e suas linguagens, que não se resolvem meramente do ponto de vista técnico. “O uso delas aplicado à Educação requer formação específica e aprofundada, sob risco de ampliar e agravar as disparidades já existentes no sistema Educacional do país”. E do outro lado, muitos estudantes não têm acesso à internet também.

No documento, a ABAlf coloca em tópicos as questões mais preocupantes sobre o tema:

1) Como o docente irá planejar um ensino de emergência/remoto para as mais diversas realidades sociais de crianças, jovens, adultos e idosos, sobretudo àqueles cujo acesso à tecnologia inexiste ou é precário?

2) Como planejar e ressignificar as estratégias próprias de aulas presenciais, garantindo o acesso e a aprendizagem de todos? Alfabetizar exige afetividade, interação entre pares, jogos, brincadeiras, leituras, conversas, dramatizações, registros diversos, livros e outros materiais, portanto, como garantir que essas atividades ocorram a distância?

3) Muitas dessas atividades, associadas às interações entre as crianças e entre as crianças e os professores, requerem observação, participação complementação e intervenção dos professores, para garantir e ampliar o processo de ensino e aprendizagem. Nesse sentido, a aula remota é um padrão que não permite este gerenciamento pedagógico e essa observação fundamental para avançar no processo.

Nova política de alfabetização

Em 2019, o Ministério da Educação lançou o caderno com orientações sobre a nova política de alfabetização do governo Jair Bolsonaro. A PNA (Política Nacional de Alfabetização), que recebeu o título de “Alfabetização Acima de Tudo”, quer que o ensino infantil reforce as atividades de pré-alfabetização para que o ensino da leitura já seja concluído no primeiro ano do ensino fundamental.

Ela também prevê que a meta 5 do Plano Nacional de Educação (PNE) seja cumprida. Assim, todas as crianças devem ser alfabetizadas até no máximo o final do 3º ano do fundamental, aos 8 anos de idade.

Além disso, o documento defende e prioriza o método de ensino fônico, que tem o foco na relação entre letras e sons. Esse foi um dos pontos mais criticados por educadores. Segundo especialistas ouvidos pelo G1, “a criação de uma política nacional de alfabetização é positiva, mas a priorização de um único método pode levar à padronização do ensino, e o risco disso é limitar tanto as possibilidades de os professores ensinarem, quanto as possibilidades de os alunos aprenderem”.

Meta de alfabetização

O país já reduziu, sim, a analfabetização, mas de forma lenta e atrasada. O Brasil está próximo de cumprir uma meta de alfabetização estabelecida pelo PNE (Plano Nacional de Educação) de baixar o índice para 6,5%. Em 2019, a taxa de brasileiros com 15 anos ou mais que não sabia ler ou escrever um bilhete simples ficou em 6,6%, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) Contínua Educação 2019. Esse percentual, entretanto, deveria ter sido cumprido há quatro anos, em 2015. 

O próximo – e mais difícil – desafio é a erradicação do analfabetismo, prevista para acontecer até 2024. Separamos algumas reportagens para você entender melhor os desafios que o país vai enfrentar para cumprir essa  meta, ainda mais agora, com os desafios impostos pela pandemia.