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Estudantes explicam os motivos da desistência do Enem 2021

Enem registra o menor número de inscritos em 16 anos. Falta de internet e desemprego são duas das principais causas

Por Wender Starlles Atualizado em 12 ago 2021, 00h02 - Publicado em 11 ago 2021, 21h29

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2021 registrou apenas 3,1 milhões de inscrições confirmadas, menor número desde 2005. Essa baixa adesão ao principal vestibular do país reflete as dificuldades enfrentadas no acesso à educação durante a pandemia. Com o rendimento de aprendizagem reduzido, Euler Carvalho, 24 anos, desistiu de fazer a prova deste ano. “Não conseguia mais me esforçar, nem mesmo manter uma rotina de estudo”, disse. 

Antes da pandemia, o estudante se preparava para fazer o Enem do ano passado em um cursinho pré-vestibular presencial em Manaus, no Amazonas. Todas as tardes, por volta das 17h, deslocava-se do trabalho após o fim do expediente até o local onde assistia às aulas preparatórias. Porém, teve que mudar a sua rotina quando foram implementados os decretos estaduais que determinavam o fechamento de atividades não essenciais para conter o avanço da covid-19.  

Euler foi demitido do emprego e precisou abandonar o cursinho. Ele tentou buscar outros métodos de aprendizagem, como vídeoaulas gratuitas no YouTube. Porém, isso não deu certo. Sem ter momentos em que pudesse tirar dúvidas, sentiu dificuldade na compreensão dos conteúdos. “A presença do professor durante as aulas faz muita diferença”, relata.

Aos poucos, o jovem ficou desanimado e isso interferiu no seu desempenho no Enem 2020. “Tive uma média baixa levando em consideração as universidades que desejo entrar”, conta.

O sonho de Euler é cursar fisioterapia ou medicina em uma universidade pública. “Na atual situação do Brasil, as profissões relacionadas à área da saúde permitem mais estabilidade financeira. Além disso, possuo mais domínio nas disciplinas biológicas”, explica. 

Euler Carvalho sonha com a graduação em fisioterapia ou medicina.
Euler Carvalho sonha com a graduação em fisioterapia ou medicina. Arquivo pessoal/Reprodução

Desistir de fazer o Enem 2021 foi difícil. Euler precisou ponderar diversos fatores, mas optou por preservar a sua saúde mental. Durante a quarentena, ele apresentou sintomas de ansiedade e insônia constantes. “Nada mais fazia sentido. A vontade de me aprofundar nas matérias sumiu. Por isso decidi adiar o meu sonho por mais um ano”, desabafa. 

Outros fatores também contribuíram na decisão, como a dificuldade em acessar uma conexão com a internet de qualidade e a falta de uma infraestrutura adequada para os estudos. Na casa do estudante não há espaços silenciosos. Além disso, ele ainda divide o quarto com mais dois irmãos que têm rotinas muito diferentes. “Às vezes, eu precisava estudar, mas meus irmãos tinham que dormir. Ou seja, não era possível ficar com a luz acesa”, comenta. 

Para Euler, isso é apenas um dos muitos exemplos que mostram como o discurso da meritocracia deve ser combatido. A realidade socioeconômica interfere no seu desempenho nos estudos. “Costumam dizer que pessoas de qualquer classe social podem ter um bom desempenho no Enem, basta se esforçar. Isso é mentira”, afirma.

Apesar da ausência de apoio familiar durante a preparação para o vestibular, Euler comenta que aprendeu a lidar com essas situações e lamenta que os pais não o incentivem. “Se eu for pensar nisso, nunca vou conseguir ser aprovado. Sigo buscando forças dentro de mim”, relata. 

Mesmo com os problemas, Euler já faz planos para participar do Enem 2022. “Quero me reerguer novamente, encontrar forças e pessoas que me motivam a seguir em frente. Espero tirar uma boa nota na próxima edição da prova e conseguir uma vaga em uma universidade federal. Este será o meu troféu, o meu triunfo”, almeja.

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    As polêmicas do Enem 2021

    Durante o período de inscrição, estudantes relataram problemas com as regras exigidas pelo Ministério da Educação (MEC) na etapa de análise dos pedidos de isenção da taxa. Além da dificuldade em solicitar serviços dentro plataforma do Inep, como o tratamento pelo nome social.

    Esse é o caso do estudante Jupiter Araújo Magalhães, 22 anos. Ele comenta que desistiu de fazer o Enem desse ano quando viu a grande quantidade de documentos exigidos para efetuar o requerimento do nome social. “Isso me deixou mal, bastante desanimado! E enviar todos os itens nem era garantia que funcionasse”, desabafa.

    Outras pessoas também relataram nas redes sociais problemas com o pedido:

    Estudantes relataram problemas na solicitação do uso do nome social no Enem 2021.
    Estudantes comentam os requerimentos do uso do nome social no Enem 2021. Redes sociais/Divulgação
    Estudantes relataram problemas na solicitação do uso do nome social no Enem 2021.
    Estudantes comentam os requerimentos do uso do nome social no Enem 2021 Redes sociais/Reprodução
    Estudantes relataram problemas na solicitação do uso do nome social no Enem 2021.
    Estudantes comentam os requerimentos do uso do nome social no Enem 2021. Redes sociais/Reprodução

    Nesta semana, entidades estudantis com apoio de partidos políticos e da OAB protocolaram uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para solicitar a reabertura dos pedidos de isenção na taxa de inscrição do Enem para quem faltou na última edição e não apresentou uma justificativa válida de ausência. Mais de 230 mil pessoas tiveram o pedido de isenção da inscrição negado por conta do envio de documentos recusados pelo Inep.

    +Ação no STF busca isentar a inscrição de quem não fez o último Enem

     

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    O impacto da pandemia na vida dos estudantes

    As dificuldades enfrentadas pelos estudantes durante a pandemia, principalmente nos grupos mais pobres, acentuaram as desigualdades na educação. 

    Segundo pesquisa encomendada por fundações educacionais ao Datafolha, 40% dos alunos de 6 a 18 anos tiveram dificuldade em aprender os conteúdos e cogitaram abandonar os estudos. 

    Esses problemas foram acentuados nas classes sociais menos favorecidas, que sofrem com a ausência de equipamentos e infraestrutura adequada. Em domicílios com renda de até dois salários mínimos, por exemplo, apenas 18% têm acesso à internet por computador, de acordo com pesquisa Pnad Contínua de 2020.

    Um relatório publicado em novembro do ano passado pelo Unicef  também revela que aproximadamente 1,5 milhão de jovens de 15 a 17 anos não têm qualquer tipo de acesso à educação no país. 

    Além dos estudos, a pandemia impactou financeiramente na vida de jovens estudantes. O número de pessoas entre 15 e 19 anos que estavam desempregadas e sem estudar atingiu o índice de 29,3% — maior marca dos últimos oito anos, segundo dados da Pnad Contínua de 2020.

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