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Política e futebol: 5 momentos em que os temas se cruzaram

Na época da ditadura militar no Brasil, por exemplo, muitos jogadores foram publicamente contra o regime

 (Politize!/Politize!)

Além de 2018 ser ano de eleições, é também ano de Copa de Mundo. Você pode nunca ter parado para pensar, mas esses dois eventos já se interligaram muitas vezes ao longo da história, seja por conta de jogos importantes que aconteceram em momentos políticos críticos ou por atletas que usaram do espaço que tinham na mídia para se tornarem formadores de opinião. Futebol e política não apenas se discutem, como também se cruzam.

O SANTOS DE PELÉ JÁ PAROU UMA GUERRA?

Nos anos 1960, o Santos Futebol Clube se destacava mundialmente – em especial por ter no seu time o melhor jogador do mundo da época, Pelé.

Para conseguir uma renda maior, o clube se aproveitava da sua fama e realizava excursões pelo mundo, chegando a jogar no continente africano em 1969. Entretanto, nem os dirigentes do time nem seus jogadores poderiam imaginar o episódio que surgiria dessa viagem.

O time liderado por Pelé desembarcou na Nigéria no mês de janeiro de 1969 em meio a uma guerra civil. O conflito, também conhecido como Guerra de Biafra, foi iniciado em 1967 e tinha como objetivo a separação da porção sudeste do território nigeriano para a fundação da República de Biafra.

Esse país, a República de Biafra, chegou a existir por 31 meses, mas em 1970 acabou sendo derrotado de vez e anexado novamente à Nigéria.

Mas como futebol e política se misturaram nesse episódio?

Apesar de a história ser sustentada pelo Santos, e até mesmo comemorada pelo clube, há quem diga que isso não aconteceu. De qualquer forma, reza a lenda que o violento conflito foi suspenso momentaneamente para que o time de Pelé jogasse na cidade de Benin, fortemente afetada pela guerra civil.

A chegada do time santista teria sido tão importante que o governador da região – o tenente coronel Samuel Ogbemudia – até decretara feriado no período da tarde, além de autorizar a liberação da ponte que ligava as cidades de Benin e Sapele – ambas muito afetadas pelo conflito – para que todos pudessem assistir ao jogo.

COMO A GEOPOLÍTICA FOI UMA PEDRA NO CAMINHO DA SELEÇÃO ARGENTINA ATÉ A COPA

Antes de a Copa do Mundo de 2018 começar, diversas seleções realizaram partidas amistosas com o objetivo de preparar seus atletas e fazer últimos ajustes nos times; e com a seleção de Messi não foi diferente. Entretanto, o último amistoso que antecederia a estreia da Argentina no campeonato mundial teve que ser cancelado.

Os argentinos jogariam contra a seleção de Israel – a qual não se classificou para a Copa –, mas o jogo que inicialmente aconteceria em Haifa,cidade ao norte de Israel, foi transferido para Jerusalém. E, então, futebol e política se encontraram mais uma vez.

A decisão de mudar o local do jogo desencadeou protestos e críticas no mundo todo porque Jerusalém, a cidade que receberia o jogo, é alvo de disputas intensas no Oriente Médio – Israel e Palestina a reivindicam como capital há décadas.

Contra a realização do jogo. Para quem era contra a realização do amistoso, a situação já estava complicada e seria agravada caso a Argentina enfrentasse Israel em Jerusalém.

Essa seria uma forma simbólica de apoiar politicamente o Estado israelense – que celebra 70 anos de fundação em 2018 –, o qual estaria atuando de forma violenta e repressiva contra os palestinos. Tais críticos defendem que a Comunidade Internacional deveria impor sanções (como um boicote econômico) a Israel, e não permitir que um evento de visibilidade internacional aconteça.

Vale a pena ressaltar que as tensões em relação a Jerusalém já tinham esquentado em dezembro de 2017, quando o presidente Trump reconheceu a cidade como capital de Israel e transferiu a embaixada estadunidense para lá.

Os palestinos, que protestaram contra a ação de Trump na época e foram violentamente repreendidos, não ficaram calados em relação ao polêmico amistoso. Manifestações foram realizadas em frente ao Centro de Treinamento do Barcelona, onde a seleção argentina estava concentrada.

O presidente da Federação Palestina de Futebol, Jibril Rayub, também divulgou uma carta pedindo que o amistoso não fosse realizado. Nela, Rayub dizia que “o governo israelense transformou o jogo de futebol em uma arma política”.

Ao cancelar o amistoso, a Associação do Futebol Argentino (AFA) disse que a seleção estava “completamente” alheia às disputas políticas entre Israel e Palestina que era um “disparate” achar que o amistoso seria uma forma de apoiar os israelenses.

1970: A DITADURA PEGA CARONA NA EUFORIA DA COPA

Se você gosta de futebol e Copa do Mundo, provavelmente já ouviu falar do jingle que marcou a conquista do tricampeonato da seleção brasileira, em 1970.

Estamos falando da música “Pra frente Brasil”, composta por Miguel Gustavo para uma cervejaria. Entretanto, o jingle fez tanto sucesso que acabou atraindo atenção do general e presidente Emilio Médici, que comandava o país no auge da ditadura militar (1964-1985).

Noventa milhões em ação
Pra frente, Brasil
Do meu coração

Todos juntos vamos
Pra frente, Brasil
Salve a Seleção!

De repente é aquela corrente pra frente
Parece que todo o Brasil deu a mão
Todos ligados na mesma emoção
Tudo é um só coração!

[…]

A música em questão, tinha um tom “ufanista” – que se orgulha exageradamente de algo – que agradou o ditador e acabou virando a música de propaganda do regime militar.

Na época, Médici se aproveitou do clima de euforia nacional para investir pesadamente em campanhas publicitárias patrióticas, usando tanto de músicas, quanto de filmes e slogans que remetiam ao mesmo tempo a futebol e política.

Após a vitória da seleção canarinha em 1970, frases de caráter nacionalista e xenófobo inundaram as mídias brasileiras, como “ninguém mais segura este país” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Foi assim que, juntamente à tortura e à repressão, o governo Médici fez uso da propaganda como arma política.

A QUESTÃO CATALÃ INVADE “EL CLÁSICO”

 (GE/Guia do Estudante)

Você já parou para pensar como o futebol da Espanha seria afetado caso a Catalunha conseguisse sua independência? Pois a resposta é: muito. A capital catalã é a cidade de Barcelona, e você sabe o que tem lá? Exatamente, o Barcelona Futebol Clube, um dos maiores e mais caros times do mundo.

Estima-se que na temporada 2014/15, o Barça teria movimentado 560,8 milhões de euros, perdendo apenas para o Real Madrid, que faturou 577 milhões.

Você acha que é só a questão financeira que é afetada com esse encontro de futebol e política? Pois o buraco é muito mais embaixo!

Uma seleção catalã?

Se você achou que a seleção da Espanha não seria afetada com uma eventual separação da Catalunha, achou errado. Isso porque jogadores importantes da Espanha na verdade são catalães, como Gerard Piqué, Jordi Alba e Sergio Busquets.

Aliás, Piqué e o ex-treinador da Seleção Espanhola, Pep Guardiola, são defensores da separação da Catalunha, região que até já tem uma seleção própria. Apesar de não disputar torneios oficiais, o time já conta com o ídolo do Espanyol – Segio García – como seu artilheiro.

Um Campeonato Catalão?

Caso a separação da Catalunha se torne realidade, é provável que o Barcelona continue jogando o Campeonato Espanhol até a FIFA reconhecer a legitimidade da Federação Catalã, um processo que pode demorar 6 anos.

E não é só o reconhecimento da FIFA que o Barcelona teria que receber, mas também da UEFA, organizadora dos campeonatos europeus e da Liga dos Campeões. Apesar da existência desses obstáculos, caso o movimento separatista ganhe a disputa, a fama do Barça pode ajudar a tornar o processo mais fácil.

Entretanto, um problema que poderia surgir com a criação de um Campeonato Catalão é o Barcelona perder sua força competitiva, pois os outros times da região da Catalunha estão longe do alto nível de futebol da La Liga – como é conhecido o Campeonato Espanhol.

Colocar o Barça para jogar contra times mais fracos poderia levar à uma queda dos altos investimentos que o clube recebe. Isso diminuiria não apenas o lucro do clube, mas também da UEFA, que perderia um importante competidor em seus torneios. Afinal, você consegue imaginar uma Liga dos Campeões sem a participação do Barcelona? Pois é, é muito difícil!

Barcelona: mais que um clube

Após uma guerra civil, a Espanha mergulhou em uma ditadura, sendo controlada pelo militar Francisco Franco entre 1936 e 1939. Essa foi uma época conturbada da história espanhola e, principalmente, da Catalunha – já que a região perdeu grande parte da sua autonomia, fato que reanimou os nacionalistas locais.

Foi nessa época que o FC Barcelona tornou-se um símbolo da resistência catalã. É justamente por toda a importância política do clube que seu lema é “mes que un club” (mais que um clube).

A relação do clube com a questão nacionalista da Catalunha ficou mais uma vez em evidência quando o Barcelona fechou os portões de seu estádio, o Camp Nou, em outubro de 2017. A ação foi um protesto contra a violência e a impossibilidade de mudar a data do jogo que aconteceria no mesmo dia de um referendo sobre a separação da Catalunha.

Se você ainda não está convencida/o de que o Barcelona é um bom exemplo de elo entre futebol e política, preste atenção na torcida do Barça no minuto 17:14 dos jogos.

Nesse instante, os torcedores geralmente cantam pela independência da região e erguem “la estelada”, a bandeira símbolo do movimento separatista. E por que no minuto 17:14? Porque em 1714 foi ano do “Cerco de Barcelona”, episódio ocorrido durante a Guerra de Sucessão Espanhola, responsável por derrotar de vez a oposição nacionalista catalã.

El Clásico: mais que uma partida de futebol

El Clásico, como é conhecida a partida entre Real Madrid e Barcelona, consiste em uma das maiores rivalidades do mundo do futebol. E se o Barça e seus torcedores representam o nacionalismo catalão, o Real é defensor da unidade espanhola.

No mesmo dia em que o clube de Messi fechou os portões do Camp Nou, o time espanhol que Cristiano Ronaldo defende lotou o estádio Santiago Bernabéu e viu seus torcedores carregarem as bandeiras da Espanha em apoio ao governo do Estado.

A rivalidade entre esses dois importantes clubes tem raízes profundas que podem ser traçadas de volta à Ditadura Franquista. Há quem defenda que o ditador se esforçou para transformar o Real Madrid em uma potência mundial, isso porque Franco não estava nada feliz com o fato de os dois maiores times da Espanha na época serem o Barcelona e o Atlético de Bilbao, ambos de regiões separatistas: Catalunha e País Basco, respectivamente.

O próprio nome do estádio do Real – Santiago Bernabéu – é homenagem ao soldado franquista que era o presidente do clube em 1947, quando foi iniciada a construção.

Atente-se para o fato de que o estádio foi erguido apenas dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a Espanha e o próprio Real Madrid estavam com suas finanças prejudicadas.

A crise pós-guerra, entretanto, não impediu que o Santiago Bernabéu ficasse pronto em apenas três anos – o que leva muita gente a acreditar que o governo de Franco teria ajudado de forma escondida.

O FUTEBOL CONTRA A DITADURA MILITAR NO BRASIL

Na época da ditadura, muitas figuras importantes do futebol foram publicamente contra o regime. Um nome que se destaca é o de João Saldanha, que muitos consideram o responsável por montar o time da Copa de 1970 – até hoje tida como a melhor seleção da história.

Saldanha ocupou o cargo de treinador da Seleção Brasileira entre 1969 e 1970, sendo demitido poucos meses antes do campeonato mundial que aconteceria no México.

Como a demissão aconteceu sem que fossem dadas muitas explicações do porquê, levantou-se a suspeita de que o então presidente Médici seria responsável.

Acredita-se nisso pois pouco antes de Saldanha deixar o cargo, o presidente Médici pediu que o treinador convocasse o atacante Dario para o time; o treinador, porém, respondeu de maneira que desagradou o ditador:

“O Brasil tem 80 ou 90 milhões de torcedores, gente que gosta de futebol. É um direito que todos têm. Aliás, eu e o presidente, ou o presidente e eu, temos muita coisa em comum… Somos gaúchos, somos gremistas e gostamos de futebol… e nem eu escalo ministério, nem o presidente escala time. Você está vendo que nos entendemos muito bem.”

Saldanha, além de treinador, era escritor, advogado, jornalista e um membro importante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e se manifestava abertamente contra a ditadura militar, fato que se intensificou após o assassinato de seu amigo Carlos Marighella, em 1969.

Anos depois, João “Sem Medo”, como foi apelidado, deu uma entrevista no programa Roda Viva sobre os acontecimentos de 1970. Durante a conversa, afirmou ter levado para o México uma série de documentos que comprovavam centenas de prisões, mortes e torturas realizadas pela ditadura militar brasileira.

Além de Saldanha, um jogador de futebol, ídolo do Corinthians, tornou-se também do país inteiro quando “Diretas Já!”. Trata-se de Sócrates, que em 1984 chamou atenção, principalmente por meio da participação em comícios, para o movimento que buscava as eleições diretas para a presidência, de forma a garantir o fim da ditadura militar.

Ao lado de Sócrates e Saldanha também está Reinaldo, que foi camisa 9 da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1978. No jogo contra a Suécia, Reinaldo marcou o gol de empate e, ao comemorar, ergueu o punho fechado em um gesto de afronta à ditadura. Reinaldo contou que foi inspirado pelos atletas olímpicos negros John Carlos e Tommie Smith, que protestaram contra o racismo nos jogos de 1968.

A situação repercutiu não apenas no Brasil, mas na América Latina em geral – já que praticamente toda a região era dominada por ditaduras –, e em especial na Argentina, país que sediava a competição.

Esperamos que este texto seja uma boa maneira de mostrar que a política está presente em muitos espaços, inclusive no mundo do futebol. Por isso, é importante buscar saber o que está acontecendo no Brasil e também no mundo, para que nós desempenhemos bem nossos papéis como cidadãos, sendo capazes de identificar questões políticas em vários cenários.

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Este artigo foi publicado originalmente no Portal Politize

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