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Turquia: 5 pontos para entender a tentativa de golpe militar

Por Fabio Sasaki Atualizado em 24 fev 2017, 15h06 - Publicado em 21 jul 2016, 12h46
Partidários do presidente Erdogan comemoram o fracasso do golpe militar na Turquia, em 16 de julho (imagem: iStock)

Partidários do presidente Erdogan comemoram o fracasso do golpe militar na Turquia, em 16 de julho (imagem: iStock)

No dia 15 de julho, a Turquia foi alvo de uma tentativa de golpe de Estado por parte das Forças Armadas. A situação foi revertida por militares leais ao presidente Recep Tayyp Erdogan, que frustraram a investida dos dissidentes de tomar o poder. Quase 300 pessoas morreram, entre civis que saíram às ruas em defesa de Erdogan e militares golpistas.

Localizada estrategicamente entre a Europa e o Oriente Médio, a Turquia sempre teve papel histórico relevante e é considerado um ator fundamental nas mais importantes questões geopolíticas mundiais. O país está envolvido na coalizão ocidental que combate o grupo terrorista Estado Islâmico e, inclusive, tem sido alvo de atentados terroristas. A Turquia também desempenha papel-chave na crise dos refugiados e assinou recentemente um acordo com a União Europeia para receber parte dos migrantes que saem do Oriente Médio em direção às nações mais ricas do continente.

Vale ressaltar também que a Turquia é membro da Otan, a poderosa aliança militar comandada pelos Estados Unidos e pelas potências europeias. O país abriga, inclusive, ogivas nucleares norte-americanas e serve de plataforma militar para as operações no Oriente Médio.

Por tudo isso, o mundo acompanha atentamente os desdobramentos do frustrado golpe na Turquia. Entenda em 5 passos a atual crise política no país e o que está por trás da tentativa de derrubar Erdogan.

1. O Estado secular

A região onde se localiza atualmente a Turquia foi o centro irradiador de poder dos impérios Bizantino (330-1453) e Otomano (1453-1918). As bases da Turquia moderna começaram a ser estabelecidas com a dissolução do Império Otomano após a derrota na I Guerra Mundial, em 1918. O general Mustafa Kemal, conhecido como Ataturk (pai dos turcos), liderou um movimento nacionalista que aboliu o califado (espécie de monarquia islâmica comandada por um sultão) e proclamou a república em 1923.

Com um programa radical de ocidentalização, Ataturk rompeu com o histórico atrelamento entre o Estado e religião islâmica ao fazer da Turquia um país secular. As novas forças políticas acompanharam a polarização na sociedade e se dividiram entre aqueles que defendiam os valores seculares de Ataturk e os favoráveis a um papel maior do islã na vida pública. Essa polarização gerou grande instabilidade política nos anos seguintes.

Veja também: Turquia, o país dividido entre dois mundos

2. A ascensão de Erdogan

Erdogan é líder do AKP, o partido islâmico que venceu as eleições parlamentares em 2002. No ano seguinte, Erdogan assumiu como primeiro-ministro e, em menos de uma década, tornou-se o político mais influente da Turquia desde Ataturk. Esta popularidade foi sustentada pelo bom desempenho da economia e a consequente elevação do status internacional da Turquia, que passou a ser um ator diplomático essencial na região do Oriente Médio.

No entanto, o poder seduziu Erdogan a ponto de ele gradualmente impor uma agenda mais autoritária. O primeiro-ministro é acusado de tentar neutralizar instituições que servem de contrapeso ao seu poder. Além de minar a influência dos militares, Erdogan se voltou contra o Judiciário, ao concentrar no Executivo a escolha de juízes, e contra a mídia, ao perseguir e prender jornalistas críticos ao seu governo. Essas medidas abalaram o equilíbrio de poderes e a liberdade de imprensa no país, dois alicerces fundamentais dos sistemas democráticos.

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Erdogan também passou a adotar uma agenda mais islâmica, como a liberação do uso do lenço islâmico em escolas e repartições públicas e a proibição da venda de bebidas alcóolicas à noite, o que abalou a confiança dos secularistas em seu governo. A tensão entre seculares e islâmicos voltou a se acirrar.

Impedido pela Constituição de concorrer a um novo mandato como primeiro-ministro em 2014, Erdogan acabou sendo eleito presidente – um cargo mais cerimonial em um país parlamentarista como a Turquia. No entanto, ele vem acumulando cada vez mais funções e tenta alterar a Constituição para que o país adote o sistema presidencialista.

3. As Forças Armadas

Considerados guardiões do Estado secular, os militares aplicaram diversos golpes desde a criação da Turquia. Na maioria das vezes, as Forças Armadas derrubaram governantes com um perfil mais religioso, que poderiam ameaçar a laicidade do país. Quando Erdogan assumiu o poder com o respaldo de uma grande base de eleitores, houve uma certa acomodação entre o AKP e os militares, a partir do compromisso de Erdogan de promover reformas pró-Ocidente e manter os fundamentos do Estado secular.

No entanto, gradualmente, Erdogan foi minando a influência das Forças Armadas na política do país. Em 2007, o governo anunciou a descoberta de um grupo ligado à cúpula militar que pretendia derrubar Erdogan. As investigações relacionadas a este suposto plano de golpe de Estado levaram à condenação de mais de duzentos militares em 2013. As prisões contribuíram para reafirmar o poder de Erdogan, mas também provocou insatisfação entre setores das Forças Armadas – o que pode estar na origem da recente tentativa de golpe.

4. O suposto arquiteto do golpe

O governo turco acusa o clérigo islâmico Fethullah Gulen de ter orquestrado a tentativa de golpe. Antigo aliado de Erdogan, Gulen é líder do movimento islâmico Hizmet, que controla uma rede de escolas, universidades, instituições de caridade e órgãos de mídia. Por conta desta abrangência, o líder religioso sustenta uma grande influência em diversos setores da sociedade turca.

Em 2013, uma operação anticorrupção atingiu o círculo de poder de Erdogan, com a prisão de vários de seus aliados. Erdogan afirmou tratar-se de um complô arquitetado por Gulen para derrubar o governo. Desde então, teve início uma perseguição a policiais, juízes e promotores suspeitos de qualquer ligação com o Gulen. Milhares de escolas administradas pelo Hizmet foram fechadas. Desde então, Erdogan rompeu com Gulen, que vive exilado nos Estados Unidos (EUA) e negou qualquer participação na tentativa de golpe.

5. A resposta de Erdogan

Logo após o fracasso da tentativa de golpe, Erdogan declarou que o golpe foi “um presente de Deus para limpar o Exército”. Nos dias seguintes, uma onda de repressão contra suspeitos de participar da conspiração tomou conta do país, principalmente aqueles que possuem alguma ligação com o movimento Hizmet. Uma semana depois do golpe frustrado pelo menos 7 mil soldados e mais de 2 mil juízes e magistrados foram detidos. Neste período, o expurgo havia alcançado mais de 50 mil pessoas, entre policiais, militares, servidores públicos e professores que foram suspensos.

Erdogan também pediu que o governo dos EUA extraditassem Gulen, a quem acusa de arquitetar o golpe e montar um “Estado paralelo” na Turquia. O presidente turco declarou no dia 20 estado de emergência de três meses, o que abre uma brecha para que Erdogan possa aprovar leis sem a autorização do Parlamento e suspenda os direitos individuais da população. Além disso, Erdogan declarou que pode reinstaurar a pena de morte no país, o que repercutiu negativamente na comunidade internacional.

Como as circunstâncias do golpe frustrado ainda não estão completamente esclarecidas, muitos acusam o próprio Erdogan de ter planejado um “autogolpe”, na tentativa de promover o atual expurgo nas Forças Armadas e fortalecer ainda mais a sua posição no poder. De todo modo, a crise na Turquia agrava as divisões entre o secularismo e o islamismo na sociedade e evidencia uma disputa de poder que tem elevado o caráter repressivo do atual governo.

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