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Filme Aquarius pode ajudar na preparação para o vestibular

A partir da especulação imobiliária, o filme mostra o valor da memória afetiva

A trama central de Aquarius, filme do diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho, é definida logo nos primeiros minutos da obra. Clara, uma jornalista e crítica musical aposentada, recebe a visita de funcionários de uma construtora, interessados em comprar o apartamento em que vive.

A intenção da empreiteira é demolir o Edifício Aquarius, que fica em frente à praia de Boa Viagem, no Recife (PE), e erguer um prédio de alto padrão. Todos os outros proprietários já cederam às sedutoras ofertas financeiras da construtora e se mudaram dali. Clara é a última moradora, que reluta em deixar o imóvel.

Entramos, portanto, na seara da especulação imobiliária. O terreno ocupado pelo Edifício Aquarius é visto como uma mina de ouro para a construtora. Ao adquirir a propriedade total daquele prédio antiquado na valorizada orla recifense, a empresa poderia construir um moderno edifício, que atrairia o interesse de uma endinheirada classe média alta.

Mas o que a empreiteira vislumbra como um excelente investimento financeiro representa algo mais para Clara. Aquele apartamento é um repositório de memórias de gerações inteiras de sua família, coisa da qual ela não está disposta a abrir mão por dinheiro nenhum.

Estabelecidos os papéis de mocinha e bandidos nesta história, o filme chega a flertar com o maniqueísmo – o pedante e inconveniente funcionário da construtora contra a senhora que defende o seu direito de permanecer no lugar onde mora. Mas Kleber Mendonça Filho soube driblar essa armadilha estabelecendo interessantes subtramas a partir da teia de relações humanas de Clara.

Temos as relações familiares de Clara com seus três filhos. Um deles tenta convencer a mãe a aceitar a oferta da construtora. O contato com a empregada, por sua vez, reforça a hierarquia de classe. Por mais que Clara mostre ter uma genuína afeição pela empregada, as barreiras entre os dois mundos estão ali, sempre evidentes.

A protagonista também não se furta a desfrutar de certas vantagens, como os contatos privilegiados com um jornalista e um advogado para conseguir o que deseja.

Também é interessante a forma como o filme explora o envelhecimento. O papel de Clara, interpretado de forma excepcional por Sonia Braga, nos apresenta uma senhora que foge aos padrões concebidos de sua idade, desfrutando de uma ativa jovialidade e independência.

Por sua vez, é a partir da exposição de uma característica mais típica do envelhecimento que Clara dará sentido ao filme: o apego à memória afetiva. O avanço da idade torna as lembranças ainda mais preciosas. Uma música, uma foto ou um lugar recuperam memórias de um passado que está sempre sendo revisitado por Clara. E é justamente ao mergulhar nesse saudosismo da protagonista que Aquarius humaniza um tema tão, digamos, mercadológico como a especulação imobiliária.

Pela lógica do mercado, é o capital quem tem o poder. Se uma construtora precisa adquirir um apartamento para colocar seu projeto em ação, o dinheiro, em tese, resolveria tudo. Por isso, a resistência de Clara é algo incompreensível para os detentores do poder financeiro, da mesma forma que a memória afetiva da protagonista é imensurável em termos monetários – conflito que é habilmente explorado em Aquarius.

Aquarius
direção | Kleber Mendonça Filho
ano | 2016

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