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A falta de vivência musical anterior pode prejudicar minha carreira de professor de Música?

(Imagem: Thinkstock)

A dúvida de hoje foi enviada pelo leitor Douglas Trofino, que estuda licenciatura em Música há dois anos e teme que sua falta de vivência musical anterior possa atrapalhá-lo na carreira.

“Estudo Licenciatura em Música em uma universidade particular, mas não tenho vivência musical anterior. Já estou aqui há dois anos e cada vez mais percebo que minhas limitações são muitas. Tomei essa decisão por gostar de música, mas consciente de que não seria fácil. Agora penso que seria melhor parar e procurar alguma área em que eu realmente possa fazer algo bem feito. Como futuro professor de música, não ter um bom domínio na área pode prejudicar não só a mim, mas aos outros profissionais e, mais importante, aos alunos. Seria melhor procurar outra área?”

Quando pensamos sobre o ensino de Música, aulas de técnicas musicais e de como tocar instrumentos são conceitos comuns que geralmente nos vêm à cabeça. De fato, boa parte das faculdades de Música dá bastante ênfase à técnica em sua grade curricular, porém, o universo musical é muito abrangente e abarca outras noções que não estão ligadas somente ao aprendizado de notas e partituras. Os contextos histórico, social e cultural, por exemplo, são essenciais para entender o alcance de uma peça e com quais momentos e vertentes de pensamento ela dialoga.

Ao ler a dúvida do Douglas, logo pensei em uma situação que me ocorreu. Estudo na Universidade de São Paulo e estou fazendo uma disciplina de Música para não-músicos na faculdade. Eu, jornalista, que não entendo nadinha de música, estou aprendendo sobre peças de compositores como Beethoven, Chopin, Villa Lobos, Bach e Mozart e também sobre como elas se correlacionam com diversos poemas, ideologias e correntes artísticas da época.

Por isso, para responder a essa questão, conversei com o compositor Eduardo Seicnman, que ministra a disciplina ‘Música: Comunicação e Experiência Estética’ na Escola de Comunicações de Artes da Universidade de São Paulo (ECA USP), da qual sou aluna. Ele explica que o ensino de Música em muitas universidades tem sido profissionalizante e voltado somente para a linguagem musical, o que prejudica estudantes que não têm intenção de tornarem-se, necessariamente, músicos ou que, como o Douglas, não tiveram vivência musical anterior. O professor lembra, entretanto, que é importante identificar as áreas que você tem afinidade e pretende seguir, já que tanto a carreira de licenciatura quanto o bacharelado oferecem diversas possibilidades de atuação profissional, inclusive relacionadas ao contexto e ao universo no qual as composições musicais estão inseridas. “A questão é descobrir no que você é bom e o que te agrada, para saber onde você pode caminhar”, ressalta.

Confira seu depoimento!

Eduardo Seincman, compositor e professor de Música da Escola de Comunicações e Artes da USP:

“Oi, Douglas! Ao se ensinar música em uma faculdade, estamos tratando de um universo e de um contexto amplo que não pode se ater somente às questões musicais, mas deve relacionar técnica e pensamento. Em geral, infelizmente, não é bem isso que ocorre. Muitas escolas de música ainda pensam que só a técnica resolve. Então, um aluno como você fica muito perdido porque pode estar inserido em um ensino profissionalizante, que só olha para a música dentro da técnica, não estabelecendo, assim, a possibilidade da correlação do mundo da música com outros universos. Você pode ter um perfil que não se adapta à carreira musical, mas nós podemos também dizer que, talvez, a maneira pela qual está se ensinando música não se adapta a um certo tipo de aluno.

Você comentou que quer ser professor de música. Pois bem, a aula de música não precisa ser de técnica musical. Há outras opções dentro da carreira, assim como uma das que segui, que é dar aulas correlacionando as peças musicais com seu contexto. É aula de música para não-músicos. Eu contextualizo a música e vejo o que ela tem de relação com o mundo. Em vez de partir da técnica para tentar chegar a uma interpretação, a gente está partindo de um universo e pode, inclusive, chegar à técnica. Saindo dessa aula e indo para uma disciplina específica de Harmonia ou Composição ou Contraponto, aí, sim, eu posso pegar a mesma partitura e ver o que o compositor fez e como ele conseguiu esse resultado com as pessoas. 

Estudar música não é ouvir uma peça só em termos técnicos, mas também em termos humanos, do sentido que aquele tipo de música faz para o mundo e com que mundo o compositor e a sua época estão conversando. Se eu faço isso, eu atinjo tanto o aluno de Música, que está tendo a oportunidade de olhar para uma obra de uma maneira não técnica, e, sim, no nível do discurso e da linguagem, quanto o estudante de outro curso. Assim, o músico não fica só identificando acordes e instrumentos utilizados, mas observa também como o compositor se comunicou através dessa peça. Aí entram questões de ordem estética, humana, filosófica e histórica. Em O Trenzinho do Caipira, de Villa Lobos, por exemplo, entram não só os acordes, mas também as questões da modernidade, da Semana de Arte Moderna de 1922, do Romantismo, dos outros compositores com quem ele está dialogando… Então, um aluno que poderia se sentir isolado de uma turma que só vê a questão da técnica talvez se sentisse confortável ao se dedicar a esse tipo de estudo.

Com relação a sua pouca vivência musical anterior, não há aluno menos ou aluno mais capaz. Se você entrou na universidade é porque tem capacidade. Se não tem o mesmo embasamento musical que os outros estudantes tiveram, procure uma orientação de seus professores para ir atrás dessa outra formação. Formação técnica é algo que se adquire, é algo que você descobre a partir do seu ponto de vista e da sua visão de mundo. Você vai descobrir a melhor forma de comunicar aquilo que quer dizer, e não ser somente um repetidor de coisas que te ensinaram.

De repente, seus planos não são de ser um pianista ou um trompetista, mas de fazer algo com a música, ainda que não exerça, necessariamente, a profissão de músico. É possível tocar um instrumento e não ser um virtuoso. A palavra instrumento já diz que ele está serviço de algo e ele pode ser usado de várias maneiras. Você pode ser um Nelson Freire, que dá concertos, mas você pode ser um pianista acompanhador de cantores de ópera. Alguma coisa tem menos ou mais importância que a outra? Não. Um compositor que compõe para orquestra não tem que aprender a tocar todos os instrumentos. Ele precisa saber como esses instrumentos se misturam com os outros, a tessitura, o que ele pode usar e o que não pode, que saltos pode fazer com a melodia… ele não tem que ser um trompista, um tubista, um contrabaixista, um violoncelista e um violinista para escrever uma peça da orquestra.

O ensino de música tem vários mitos, ainda hoje, que precisam ser quebrados. Existem músicos e professores de música que ainda valorizam, reproduzem e incutem essas falsas ideias na cabeça dos alunos. Com isso, o estudante se concentra no pensamento de que nunca será um Beethoven, um Chopin, um Mozart, quando, na verdade, ele precisa descobrir quem é ele. Eu sou Douglas Trofino e é como Douglas Trofino que eu vou me afirmar no mundo. A questão é descobrir no que você é bom e o que te agrada, para saber onde você pode caminhar e traçar essa trajetória da melhor forma possível.”

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