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Análise da redação para a proposta sobre felicidade

Com base na proposta de redação extraída do vestibular 2014 da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Puc-Rio), o estudante deveria escrever um texto dissertativo/argumentativo sobre felicidade.

felicidade

Leia o texto escolhido:

Felicidade Interior

Geralmente, felicidade é definida como algo inalcançável, surreal, ou até mesmo como um estado de espírito. Cada pessoa elege seu ponto clímax na vida, sendo este a realização plena e contínua e seja ele no relacionamento, no sucesso profissional, na formação de uma família, ou até mesmo, em bens materiais. Em vista disto, a importância do bem-estar cotidiano, promovido muitas vezes pela autoestima, fica em segundo plano.

Felicidade é aquilo que cada pessoa julga como o “clímax” de sua própria vida, entretanto, de longa duração, ou seja, se estabelece um período de tempo e um limite, em que é preciso ter alcançado a felicidade, associando-a, muitas vezes, à perfeição. Antes do limite – imposto pelos próprios indivíduos, procura-se pela realização dos sonhos e o famoso estado pleno de espírito, onde nada mais na vida possa dar errado, e também imagina-se que, quando atingido o ápice, a vida torna-se um mar de rosas interminável.

Há quem diga que felicidade é provida por dinheiro, bens materiais e artigos de luxo. Isso tudo é atribuição de valores para algo que não tem valor. Já outros, acreditam que ela se encontra no privilégio da saúde, na família reunida, nos amigos, etc. Ou seja, cada pessoa define felicidade baseando-se em suas próprias crenças, desejos e sonhos.

Cada pessoa tem seus objetivos e para cada uma há uma “felicidade” diferente. Ser feliz para  uma criança, com certeza não é o mesmo para um adulto. A vida muda constantemente, e o que era antes muito almejado, hoje já nem mesmo se cogita; por isso a ideia de que felicidade é inalcançável.

Engana-se quem pensa que nunca atingirá seu “clímax”, basta um impulso psicológico, e nem tudo é Não existe receita para a felicidade. É preciso querer viver sempre bem, procurar entender o lado bom das mudanças e o aprendizado que acompanha toda a dificuldade. Saber enxergar tudo que há de bom em cada “tempo ruim” possível, e principalmente ter uma pitada de senso de humor. Nada melhor do que aprender com as falhas. Felicidade não é inalcançável, tampouco definível, é muito mais interior do que exterior.

Leia agora a análise da professora de redação da Oficina do Estudante, Ednir Barboza:

A proposta feita pela PUC- RJ é bastante aberta, ou seja, o aluno poderia discorrer sobre o tema como quisesse. Poderia dizer que a felicidade não existe; ou que existe, mas é inalcançável; que existe e está ao alcance de todos; que só os ricos são felizes; que só os pobres conhecem a verdadeira felicidade… Não havia nenhuma instrução que direcionasse a discussão sobre o tema. Porém, havia um limitador: o texto deveria ser dissertativo-argumentativo, entre 25 e 30 linhas.

Portanto, qualquer que fosse a abordagem do aluno sobre o tema, este deveria estar contido numa forma, que é a dissertação. E a dissertação pressupõe: introdução (em que se aborda o assunto e se expõe a tese/ponto de vista que será defendido pelo autor do texto); desenvolvimento (em que se argumenta para defender o ponto de vista escolhido); e a conclusão (em que se retoma a tese inicial e a reforça apoiada nos argumentos apresentados). Isso mostra que a liberdade de explorar o texto termina na forma de apresentá-lo.
Pois bem, vamos à análise do texto.

Ela começa corretamente seu texto, apresentando uma definição particular do que é felicidade. Inicia o parágrafo com a palavra geralmente; teria sido mais elegante dizer: Costuma-se definir felicidade como… ou  É comum definir-se felicidade como… Porém, nessa apresentação, ela usa dois termos ambíguos, que mereceriam uma melhor definição: “surreal” e “ponto clímax”. Sem a explicação, fica complicado para o leitor apreender, exatamente,  o que quis dizer. Ainda na sequência, ela termina o parágrafo de forma incoerente com o que vinha dizendo. Por que a realização plena e contínua não leva à alta autoestima e ao bem-estar cotidiano? Portanto, nesse parágrafo, há indefinição do propósito com que ela vai discutir o tema. Ou seja, a tese não foi claramente enunciada.

Ao iniciar o segundo parágrafo, não faz a ligação com o primeiro. Ela continua explicando o que é felicidade para as pessoas; deveria, então, ter começado com uma palavra de coesão: por isso, além disso, ademais… O que se vê nesse parágrafo é uma repetição do já foi dito no anterior, embora com alguma progressão de ideias. Não deveria ter repetido a palavra clímax, cujo significado continua vago.  Neste parágrafo, aparece outra expressão que carece de maior explicação: o famoso estado pleno de espírito; é preciso esclarecer ao leitor que estado é esse e por que é famoso.

O mesmo procedimento acontece na passagem do 2º para o 3º parágrafo: ela não faz a coesão. Poderia escrever: Há quem diga, também, que… Essas palavras de coesão indicam ao leitor que caminho vai seguir a argumentação. Ainda neste parágrafo, aparecem definições de felicidade, tema da redação, mas a autora não conclui, nem as analisa, com argumentos, ou exemplos, valorizando-os ou reprovando-os. Fica faltando, portanto, a argumentação.

O mesmo sucede no 4º parágrafo. Fala sobre conceitos variados de felicidade, mas não se convence ou não procura convencer o leitor do que se trata esse sentimento. Portanto, ela fez uma dissertação expositiva e não argumentativa.

No último parágrafo, onde ela deveria condensar todas as suas argumentações comprovando sua tese, ela dá uma “receita” de felicidade que não cabe neste tipo de texto.

Concluindo: o texto não é ruim, mas não cumpre, adequadamente, a proposta que é dissertativo-argumentativa, uma vez que não defende um ponto de vista, simplesmente  expõe vários conceitos sem argumentar sobre eles.

É certo que ninguém, ou quase ninguém consegue definir ou dizer o que é felicidade, mas essa era a proposta e o texto deveria defender, pelo menos, que esse é um conceito sobre o qual muitos falam e poucos sabem o que é.

Nota 6,0  (de zero a 10)

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