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Caderno de redações: ENEM 2015

DIREITOS DA MULHER EM POLÍTICAS PÚBLICAS

O tema da prova de redação do Enem 2015 não poderia ser mais atual: a violência como recorte de um tema maior, que são os direitos de gênero, aqui particularmente os femininos, e a adoção de políticas públicas, leis e estruturas de Estado para a sua defesa. Veja aqui a proposta e redações bem avaliadas na prova. As análises são do professor Davi Fazzolari

 

PROPOSTA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

TEXTO I

Nos 30 anos decorridos entre 1980 e 2010 foram assassinadas no país acima de 92 mil mulheres, 43,7 mil só na última década. O número de mortes nesse período passou de 1.353 para 4.465, que representa um aumento de 230%, mais que triplicando o quantitativo de mulheres vítimas de assassinato no país.

WALSELFISZ, J. J. Mapa da Violência 2012. Atualização: Homicídio de mulheres no Brasil. Disponível em: www. mapadaviolencia.org.br. Acesso em: 8 jun. 2015.

TEXTO II

texto2enem2015

BRASIL. Secretaria de Políticas para as Mulheres. Balanço 2014. Central de Atendimento à Mulher. Disque 180. Brasília, 2015. Disponível em: http://www.spm.gov.br. Acesso em 24 jun.2015 (adaptado).

TEXTO III

texto3enem2015
Disponível em http://www.compromissoeatitude.org.br. Acesso em: 24 jun. 2015. (Adaptado).

TEXTO IV

o impacto em numeros

Fontes: Conselho Nacional de Justiça, Departamento Penitenciário Nacional e Secretaria de Políticas para as Mulheres

INSTRUÇÕES:

• O rascunho da redação deve ser feito no espaço apropriado.

• A redação que apresentar cópia dos textos da Proposta de Redação ou do Caderno de Questões terá o número de linhas copiadas desconsiderado para efeito de correção.

Receberá nota zero, em qualquer das situações expressas a seguir, a redação que:

• tiver até 7 (sete) linhas escritas;

• fugir ao tema ou que não atender ao tipo dissertativo-argumentativo;

• apresentar proposta de intervenção que desrespeite os direitos humanos;

• apresentar parte do texto deliberadamente desconectada do tema proposto.

 

ANÁLISE DA PROPOSTA

 

números para uma reflexão contundente

O estudante atento aos principais debates nacionais e internacionais deve ter se sentido bastante à vontade para produzir uma dissertação baseada em fatos recentes e em referências históricas. O cinema, o teatro, as artes plásticas, a literatura, a publicidade e até as telenovelas têm oferecido provas de que a violência contra a mulher deixou de ser uma causa exclusiva dos movimentos feministas. O recorte temático apontava para uma reflexão contundente. Não se fazia qualquer pergunta explícita ao estudante, mas afirmava-se na palavra “persistência” uma incômoda situação de violência presente em nossa sociedade. Uma leitura atenta revelaria ao candidato, já nesse enunciado, o conflito e a problematização do tema.

Veja algumas abordagens argumentativas possíveis:

• Destacar a amplitude das seis diferentes formas de violência denunciadas, à parte o horror máximo dos homicídios, e a necessidade de aprofundar as medidas para combatê-las.

• Pôr em relevo, como significativos, os números de processos judiciais, julgamentos e prisões resultantes após a adoção da lei e a importância de leis assim como forma de intervenção social.

• Associar a violência de companheiros (citada por sete em cada dez vítimas) ao poder masculino na sociedade (patriarcalismo) enraizado na cultura e a necessidade de campanhas específicas de conscientização contra o machismo.

• Destacar que os dados do período de 30 anos (1980-2010) mostram que essa violência tem afetado sucessivas gerações de mulheres, por sucessivas gerações de homens, o que demonstra a persistência do problema.

• Utilizar a citação de autoridade de Simone de Beauvoir (“Não se nasce mulher, torna-se mulher”), do primeiro dia de prova, para contextualizar tanto gênero como a violência de gênero como construções sociais que podem ser mudadas.

• Citar lutas históricas vitoriosas e pioneiras das mulheres brasileiras, como o direito de voto consagrado em 1932, como exemplo da importância de lutas coletivas e de medidas legais.

 

REDAÇÃO 1

Equilíbrio aristotélico  ———————————————————————————>titulo caprichado

Ao longo do processo de formação do Estado brasileiro, do século XVI ao XXI, o pensamento machista consolidou-se e permaneceu forte. A mulher era vista, de maneira mais intensa na transição entre a Idade Moderna e a Contemporânea, como inferior ao homem, tendo seu direito ao voto conquistado apenas na década de 1930, com a chegada daconectivos adequados Era Vargas. Com isso, surge a problemática da violência de gênero dessa lógica excludente que persiste intrinsecamente ligada à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social.

É indubitável que a questão constitucional e sua aplicação estejam entre as causas do problema. Citacoes de autoridadeDe acordo com Aristóteles, a política deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De maneira análoga, é possível perceber que, no Brasil, a agressão contra a mulher rompe essa harmonia, haja vista que, embora a Lei Maria da Penha tenha sido um grande progresso em relação à proteção feminina, há brechas que permitem a ocorrência dos crimes, como as muitas vítimas que deixam de efetivar a denúncia por serem intimidadas. Desse modo, evidencia-se a importância do reforço da prática da regulamentação como forma de combate à problemática.

Outrossim, destaca-se o machismo como impulsionador da violência contra a mulher. Segundo Durkheim, o fato social é uma maneira coletiva de agir e de pensar, dotada de exterioridade, generalidade e coercitividade. Seguindo essa linha de pensamento, observa-se que o preconceito de gênero pode ser encaixado na teoria do sociólogo, uma vez que, se uma criança vive em uma família com esse comportamento, tende a adotá-lo também por conta da vivência em grupo. Assim, o fortalecimento do pensamento da exclusão feminina, transmitido de geração a geração, funciona como forte base dessa forma de agressão, agravando o problema no Brasil.

FECHO ESPERADOEntende-se, portanto, que a continuidade da violência contra a mulher na contemporaneidade é fruto da ainda fraca eficácia das leis e da permanência PROPOSTA DE INTERVÊNÇÃOdo machismo como intenso fato social. A fim de atenuar o problema, o Governo Federal deve elaborar um plano de implementação de novas delegacias especializadas nessa forma de agressão, aliado à esfera estadual e municipal do poder, principalmente nas áreas que mais necessitem, além de aplicar campanhas de abrangência nacional junto às emissoras abertas de televisão como forma de estímulo à denúncia desses crimes. Dessa forma, com base no equilíbrio proposto por Aristóteles, esse fato social será gradativamente minimizado no país.

Redação de Raphael Luan Carvalho de Souza, 20 anos, Rio de Janeiro. O texto recebeu nota 1000.

ANÁLISE

EXCELENTES RECORTES, ARGUMENTAÇÃO E CONCLUSÃO

Em Equilíbrio aristotélico nota-se a escolha de palavras adequadas para assegurar as intenções do autor, assim como a opção por uma pontuação simples que foi o suficiente para garantir a textualidade cobrada na competência 1 da redação do Enem.

A boa organização das frases, separadas por vírgulas e por pontos intermediários, pode oferecer aos avaliadores uma leitura rápida e eficaz.

Em seu desenvolvimento, a argumentação foi constantemente alimentada por repertório de boa qualidade, já desde o título, retomado em “(…) a política deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade” até a conclusão simples e direta: “(…) com base no equilíbrio proposto por Aristóteles, esse fato social será gradativamente minimizado no país”. Dessa forma, a competência 2 estava contemplada.

Informações e conceitos que o candidato utilizou, colhidos, muito provavelmente, em aulas de História e de Sociologia, reforçavam de modo consistente seu ponto de vista. Veja-se, para exemplo, o modo coerente como foi articulado o pensamento de Durkheim à sua opinião, que vê “o machismo como impulsionador da violência contra a mulher”. A consistência das informações e dos argumentos originais, somada ao domínio dos mecanismos linguísticos, revelaram, portanto, o bom autor e garantiram excelente aproveitamento nas competências 3 e 4.

Para se atingir pontuação elevada com a proposta de intervenção social é necessário que ela seja “detalhada” e que esteja “relacionada ao tema e articulada à discussão desenvolvida no texto”. Raphael, em seu Equilíbrio aristotélico, propôs duas ações nítidas e comprometidas com a argumentação exposta anteriormente. Apesar de ter optado por um agente amplo, o “Governo Federal”, entendia a necessidade de que estivesse “aliado à esfera estadual e municipal do poder”, para a “implementação de novas delegacias especializadas nessa forma de agressão”. Sua proposta ainda se estendia para a realização de “campanhas de abrangência nacional junto às emissoras abertas de televisão como forma de estímulo à denúncia desses crimes”. Parece ter sido o suficiente para contemplar as exigências da competência 5.

A conclusão é o desfecho ou a síntese de uma sequência. No caso da dissertação- -argumentativa, é a confirmação do que se anunciou no início do texto, ou seja, o tema e seu contexto, sua problematização e o ponto de vista.

 

VEJA AS COMPETÊNCIAS AVALIADAS NA PROVA

COMPETÊNCIA 1

Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.

NOTA: 200,0 (100%)

O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa e de escolha de registro. Desvios gramaticais ou de convenções da escrita, neste nível, são aceitos somente como excepcionalidade e quando não caracterizam reincidência.

COMPETÊNCIA 2

Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo- argumentativo em prosa.

NOTA: 200,0 (100%)

O participante desenvolve o tema por meio de argumentação consistente, a partir de um repertório sociocultural produtivo e, apresenta excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, ou seja, em seu texto, o tema é desenvolvido de modo consistente e autoral, por meio do acesso a outras áreas do conhecimento, com progressão fluente e articulada ao projeto do texto.

COMPETÊNCIA 3

Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.

NOTA: 200,0 (100%)

Em defesa de um ponto de vista, o texto apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, de forma consistente e organizada, configurando autoria, ou seja, os argumentos selecionados estão organizados e relacionados de forma consistente com o ponto de vista defendido e com o tema proposto, configurando-se independência de pensamento e autoria.

COMPETÊNCIA 4

Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.

NOTA: 200,0 (100%)

O participante articula bem as ideias, os argumentos, as partes do texto e apresenta repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações.

COMPETÊNCIA 5

Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.

NOTA: 200,0 (100%)

Trata-se de redação cuja proposta de intervenção é muito bem elaborada, relacionada ao tema, decorrente da discussão desenvolvida no texto, abrangente e bem detalhada.

 

REDAÇÃO 2

Feminismo: uma luta pela vida

conectivos adequados 2É impossível negar a evolução do sexo feminino. Se nos séculos passados a função atribuída às mulheres era de cuidar da casa e procriar, sendo que seus direitos de escolha e de ensino eram altamente repudiados, hoje a mulher moderna exibe liberdade e independência, e cada vez mais torna-se dona de si.

Entretanto, em meio a tantas conquistas, encontra-se um forte empecilho opressor: a violência. Desde a explosão da Segunda Grande Guerra, que propiciou a industrialização do Brasil e assim a formação de centros urbanos, o país tem como um dos principais problemas a falta de segurança e a mulher é um grande alvo da mesma. Entre os anos de 1980 e 2010, mais de 92 mil mulheres foram assassinadas no Brasil. Aproximadamente 51% dos casos de violência relatados correspondem a danos físicos, seguidos de abusos psicológicos e morais.

coesãoA Lei do Feminicídio, sancionada pela atual presidente Dilma Roussef, trabalha ao lado da lei Maria da Penha na busca pela redução de tais índices, porém, na maioria dos casos, remedia um fato que já deveria ter sido prevenido. Ainda que ocorram muitas denúncias, um grande contingente de ESCORREGÃO VERBALvítimas ignora o fato de terem sido violentadas por sentirem vergonha, medo e até mesmo culpa de terem sofrido algo que não lhes cabia impedir.

Na luta pela igualdade e em resposta a tantos atentados, surge o movimento feminista. Embora seja interpretado de forma errônea por muitos, o feminismo não se dá na exaltação de um sexo, mas na busca pela justiça entre os gêneros. Aliado a isso, proposta genéricaé função do governo promover a criação de leis e de órgãos que auxiliem a mulher. Diretrizes mais firmes devem ser elaboradas, além de um sistema de denúncias que otimize o tempo em prol da resolução de um maior número de casos. A mídia segue como uma grande formadora de opinião, e através de sua facilidade em veicular notícias deve promover seriamente a questão do feminicídio e dos abusos verbais pelos quais as mulheres sofrem.

Através de responsabilidade, educação e compromisso, mais uma luta poderá ser ganha pelas mulheres, e quem sabe assim alcançar a justiça na prevenção antes de se ter que utilizar da punição.

Redação de Beatriz de Aquino, 17 anos, que mora em São Paulo, SP. Seu texto recebeu nota 980.

 

ANÁLISE

SIMPLICIDADE NA ESTRUTURA E COERÊNCIA NA ARGUMENTAÇÃO

Em Feminismo: uma luta pela vida, a opção por uma pontuação simples foi o suficiente para assegurar a competência 1 da prova, a textualidade. Linguagem simples, períodos bem compostos, vírgulas e pontos nos devidos lugares, escolha de palavras que garantiram clareza das ideias. Para garantir pontuação elevada na competência 2, a autora manteve-se dentro do tema, em todas as linhas do texto, e desenvolveu a argumentação “com um repertório sociocultural produtivo”. Além disso, proposição, argumentação e conclusão – etapas básicas sequenciais do texto dissertativo- -argumentativo – estavam bastante nítidas. Beatriz optou por destacar a mulher de hoje, como liberta e independente, e a violência de gênero como “empecilho opressor” nessa “evolução” feminina. A candidata utilizou referências históricas e números da coletânea para alimentar a argumentação e sustentar seu ponto de vista. A conclusão ganhou parágrafo próprio e serviu para arrematar de modo simples e nítido a opinião e os argumentos apresentados durante o texto, dentro das exigências da competência 2.

A autora associou a Lei do feminicídio à Lei Maria da Penha, de modo coerente à argumentação e ao ponto de vista, e para reforçar a problematização do tema que utilizou até o final de seu texto: “A Lei do Feminicídio, sancionada pela atual presidente Dilma Roussef, trabalha ao lado da Lei Maria da Penha na busca pela redução de tais índices, porém, na maioria dos casos, remedia um fato que já deveria ter sido prevenido”. A competência 3 mede a coerência e a organização do texto. Exige do autor bom nível de informação e sua capacidade de relacionar fatos e opiniões ao tema proposto, em defesa do ponto de vista apresentado. A candidata garantiu, assim, todos os pontos das competências 2 e 3.

A estudante também ganhou os pontos da competência 4, com bom uso de elementos conectores. Apenas na competência 5 a autora perdeu alguns pontinhos, razão da nota 980.A competência foi contemplada por Beatriz a partir de agentes bastante convencionais: o governo e a mídia. Melhor se fosse um pouco mais específica, apontando para círculos mais nítidos do poder — municipal, estadual ou federal? Especificar alguma secretaria ou ministério também poderia trazer maior refinamento à proposta. O mesmo cuidado poderia também ser acionado para o segundo agente. A qual face da mídia, afinal, referia-se? Televisiva, radiofônica, eletrônica, impressa?

De qualquer forma, a proposta foi bem acolhida pelos avaliadores porque ofereceu elementos claros de ação: a criação de leis e de órgãos, um sistema de denúncias e uma atuação mais dedicada da mídia.

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