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Caderno de redações: UFRGS 2016

UFRGS

REFLEXÕES ANALÓGICAS E DIGITAIS

 Em 2014 o vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul perguntou qual o livro mais importante para o concorrente e, em 2015, abordou a amizade nos tempos marcados pela conectividade das redes sociais. Agora apresenta novamente o tema do livro, mas em sua relação com a tecnologia, unindo os dois temas. Veja aqui a proposta e redações comentadas pela professora Ana Paula Dibbern

Proposta de redação

GEREDACAO-10-56-ED
A charge faz referência à Feira do Livro de Porto Alegre. Na imagem, vê-se um grande número de pessoas, provavelmente visitantes, que não tiram os olhos de seus tablets e smartphones, o que sugere certa redução do protagonismo do livro, mesmo em uma feira de livros. O autor da charge apresenta seu ponto de vista sobre essa situação de uma perspectiva, sem dúvida, crítica, que pode ser inferida da expressão facial do livreiro.
Essa questão adquire contornos mais complexos, se avaliada a partir da passagem abaixo, também recentemente publicada.

[…] fiquei sabendo que a Amazon Books – a livraria on-line mais famosa do mundo – havia inaugurado sua primeira loja física nos Estados Unidos. Depois de duas décadas de vendas pela internet, ameaçando a existência das livrarias tradicionais, a gigante do comércio eletrônico se instalou numa loja de shopping com os 6 mil títulos mais vendidos e mais bem avaliados no seu site. Ou seja: em vez do texto virtual, para os leitores digitais, ou da encomenda on-line, as pessoas poderão pegar o livro na mão, apertar como se fosse um tomate, folhear e cheirar à vontade, exatamente como fazem os frequentadores da nossa feira porto-alegrense. E o mais importante: poderão levar o produto com elas, abrir e consumir em qualquer lugar, sem necessidade de bateria, wi-fi ou 3G.

Finalmente, e a título de informação suplementar, cabe lembrar a opinião de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, em um livro cujo título é sugestivo, Não Contem com o Fim do Livro.

“Das duas, uma: ou o livro permanecerá o suporte da leitura, ou existirá alguma coisa similar ao que o livro nunca deixou de ser, mesmo antes da invenção da tipografia. As variações em torno do objeto livro não modificaram sua função, nem sua sintaxe, em mais de quinhentos anos. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados. Você não pode fazer uma colher melhor que uma colher […]. O livro venceu seus desafios e não vemos como, para o mesmo uso, poderíamos fazer algo melhor que o próprio livro. Talvez ele evolua em seus componentes, talvez as páginas não sejam mais de papel. Mas ele permanecerá o que é.”

A partir da leitura dos textos e considerando que, atualmente, discute-se, de diferentes pontos de vista, o futuro do livro no mundo contemporâneo, escreva um texto dissertativo sobre o tema abaixo.

 O livro na era da digitalização do escrito e da adoção de novas ferramentas de leitura
Para desenvolver seu texto, defenda um ponto de vista específico de abordagem do tema, apresente argumentos que fundamentem seu ponto de vista sobre a abordagem do tema.

Instruções
A versão final do seu texto deve:
 1. conter um título na linha destinada a esse fim;
 2. ter a extensão mínima de 30 linhas, excluído o título – aquém disso, seu texto não será avaliado –, e máxima de 50 linhas. Segmentos emendados, ou rasurados, ou repetidos, ou linhas em branco terão esses espaços descontados do cômputo total de linhas.
 3. ser escrita, na folha definitiva, com caneta e em letra legível, de tamanho regular.
 
ANÁLISE DA PROPOSTA

 Análise do objeto ou da função?

A proposta de redação da UFRGS em 2016 reuniu elementos dos temas cobrados nas duas provas anteriores. A Comissão Permanente de Seleção (Coperse) mais uma vez evita apresentar assuntos polêmicos ou ideológicos e indica a sua preferência por selecionar ingressantes com perfil mais reflexivo. O tema da prova possibilita diferentes abordagens e demanda a habilidade de analisar um processo complexo e que passa por questões culturais e comerciais.

Apesar disso, esse tema guarda também aspectos objetivos. O vestibulando não poderia ignorar o crescimento do uso das ferramentas digitais para leitura e ao menos ponderar os motivos pelos quais esse formato faz tanto sucesso.
A coletânea facilita o trabalho do aluno ao trazer argumentos de diferentes pontos de vista. A charge expõe o impacto inicial, negativo, da aparente substituição do livro impresso pelos dispositivos eletrônicos. Contudo, os dois fragmentos seguintes fazem análises um pouco mais delicadas sobre determinados aspectos em torno do tema, demonstrando a sua complexidade.

O fragmento de Nilson Souza, do jornal Zero Hora, mostra que há uma relação de diálogo entre o impresso e o digital, na medida em que um gera demanda para o outro. Ao observar o caso da Amazon, que abriu uma loja física para vender os livros de maior sucesso no on-line, percebe-se uma inversão na lógica da substituição do livro tradicional pelo e-book. Essa visão vai no sentido da conciliação entre os dois tipos de suporte para leitura, ideia que representa uma boa saída para argumentar e se posicionar.

Também é apresentado um trecho do livro Não Contem com o Fim do Livro, de Jean-Claude Carrière e Umberto Eco – escritor, filósofo e semiólogo italiano falecido um mês após a aplicação da prova. Tal trecho traz uma perspectiva do livro enquanto função. Nesse sentido, independentemente de como as palavras são escritas (“mesmo antes da invenção da tipografia”) ou do material com que são produzidas as páginas (“talvez as páginas não sejam mais de papel”), o que vale é a possibilidade, proporcionada pelo livro, de contato entre o autor e o leitor. Essa ideia é chave e vai muito ao encontro da possibilidade de argumentação na linha da convivência dos dois formatos, mas pode ser utilizada também pelo vestibulando cuja argumentação penderia mais para o livro impresso ou mais para o digital.

 

UFRGS 2016 – Redação 1

 Pixels ou tinta
GEREDACAO-10-58-1
GEREDACAO-10-58-3 O prazer da leitura em um livro impresso é inestimável. Todas as sensações e percepções
atribuídas ao contato físico com o livro tornam o material impresso preferível ao conteúdo digital.
No entanto, questões práticas podem superar esse prazer. Os meios tecnológicos e digitais são facilitadores do acesso e da aquisição de conteúdos literários. Além disso, proporcionam uma leitura mais dinâmica e interativa

Os leitores que escolhem o conteúdo digital, o fazem considerando a questão da acessibilidade. É inegável que adquirir um e-book é mais cômodo e prático que se dirigir a uma livraria ou comprar o livro impresso pela internet. Essa praticidade é acentuada quando se considera que o acesso a livrarias nem sempre é viável. Além disso, os custos empregados aos processos de publicação e impressão são eliminados na produção dos conteúdos digitais, o que torna o produto mais barato e, portanto, mais acessível.
O advento dos meios tecnológicos trouxe atrativos que vinham afastando, inicialmente, os leitores dos livros. Entretanto, passaram a promover, posteriormente, inovações que tornaram o hábito de ler mais dinâmico. A facilidade de acesso ampliou os debates e discussões acerca desse material, levando-os a novos campos: as redes sociais. O clube do livro passa a ser digital. Isso torna os leitores mais interativos e os aproxima dos próprios autores, que podem acompanhar a repercussão dos seus trabalhos de perto. Toda essa interatividade é própria do mundo globalizado e estimula a leitura.GEREDACAO-10-58-2

O contato com o livro impresso proporciona um imenso prazer. Porém, mais importante
que as folhas encadernadas e o cheiro de tinta nas páginas, são as palavras nelas contidas.Palavras que, feitas de tinta ou de pixels, transmitem os mesmos conhecimentos e as mesmas emoções. Os meios digitais facilitaram, estimularam e aprimoraram os prazes que a leitura proporciona. Assim, é possível a coexistência de livros digitais e exemplares impressos, ambos saciando o saudável hábito da leitura.

 

 

 

ANÁLISE

Ponderação e conciliação

A excelente estruturação e a conclusão ponderada, conciliadora, são as duas virtudes que, já numa primeira leitura, chamam a atenção do avaliador nesta redação.

Na introdução, o concorrente afirma seu pressuposto de que o livro impresso é melhor, atribuindo às “sensações e percepções proporcionados pelo contato físico com o livro” a justificativa de sua posição. Na sequência, assume a realidade da “era da digitalização do escrito e da adoção de novas ferramentas de leitura” (tema da proposta de redação), e admite que o livro digital tem muitas vantagens, sempre relacionadas a motivos práticos. Ainda na introdução, o autor sintetiza tais vantagens em alguns conceitos: acessibilidade (logística e financeira), dinamismo e interatividade.

De forma muito organizada, os dois parágrafos seguintes são usados para detalhar os argumentos em torno desses três conceitos. Ao concluir, o estudante aponta para a relação complementar entre os dois formatos, retomando a valorização do livro impresso indicada na introdução, mas aceitando as vantagens do livro digital desenvolvidas nos parágrafos argumentativos. Ele procura valorizar a leitura em si, independentemente do suporte utilizado para tal: pixels ou tinta. A escolha do título também é muito feliz, pois aponta para a ideia de conciliação que resume a conclusão.

Com essa estrutura bastante organizada das ideias, junto da escolha acertada das palavras que conectam cada parte do texto, a redação se mostrou bastante coerente e coesa. Além disso, o texto possui mais alguns elementos de qualidade. O autor usa palavras-chave que organizam a apresentação dos argumentos, garantem objetividade e clareza ao texto. E faz isso com simplicidade ao redigir: não há redundâncias ou uso de palavras rebuscadas. Esse conjunto de elementos positivos garantiu a nota máxima dos corretores. Mesmo que tenha usado argumentos que não fogem muito daqueles apresentados na coletânea, o estudante elabora com qualidade a sua conclusão, trazendo elementos do fragmento do livro de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, presente na coletânea. Isso mostra que, apesar de não trazer tantos elementos novos, ele consegue sistematizar muito bem uma reflexão a partir das informações oferecidas.

 

UFRGS 2016 – REDAÇÃO 2

 GEREDACAO-10-59-1Old is cool: ou o oportunismo da tecnologia

Com a evolução das tecnologias em geral, diversos produtos se tornaram obsoletos. Foi assim com a máquina de escrever, por exemplo, que deu lugar ao computador. A capacidade de armazenamento era nula, falando de dispositivos internos, e dependia de um trabalho gráfico manual pouco prático, enquanto o que se buscava era justamente praticidade – assim, surgiu a possibilidade de fazer o mesmo em um computador com apenas um comando. Logo, a demanda era voltada para produtos de fácil transporte, de modo que os produtos foram evoluindo por mobilidade: celulares substituindo telefones fixos, tablets substituindo os computadores e, por fim, leitores digitais substituindo, supostamente, os livros físicos.
Livros podem pesar, há a possibilidade de perda ou dano, assim como não se encontrar edições disponíveis do mesmo. Muito oportuno, vem o leitor digital para resolver alguma dessas questões. Não pode ser rasgado, pode comportar grande quantidade de títulos, que podem ser lidos a qualquer hora, em qualquer lugar
 GEREDACAO-10-59-2No entanto, o livro físico vem resistindo bravamente. As listas de livros mais vendidos do mercado, divulgadas por veículos como The New York Times e, nacionalmente, a Veja, geralmente são baseadas em vendas de livrarias físicas. Ainda há a demanda física que surge posteriormente à publicação de um livro que era exclusivamente digital e que faz sucesso, como “Cinquenta tons de cinza”, que surgiu de uma fanfic do sucesso “Crespúsculo”, também fenômeno de vendas físicas.
O que acontece, no entanto, é que, ao observar a quilometragem que a tecnologia correu em poucos anos, adquirimos a percepção da efemeridade da própria tecnologia, uma vez que ela supera a si própria menos do que inventa; a tecnologia recicla ideias antigas de acordo com a atual demanda.
Por outro lado, é importante notar a mudança do objeto de culto. Se há uma alta tecnologia digital no meio fotográfico, por que trouxeram de volta as câmeras polaroids? O mesmo pode GEREDACAO-10-59-3se questionar a respeito de artigos de moda, designs de produtos alimentícios, como as constantes edições comemorativas de marcas famosas, e, novamente, os livros –
contemporâneos que reinventam clássicos. Editoras famosas, como a Penguim Company, editam livros em capa dura e páginas douradas, como a Bíblia, objeto de extremo culto em lares cristãos.Somos consumidores contemporâneos e o nosso ícone é ultrapassado, velho. Do contrário, manteríamos um tablet com o Novo Testamento sob um pedestal na sala de estar – e não teria a mesma emoção dizer que está “nas páginas da Bíblia”.

 

 

ANÁLISE

REPERTÓRIO E REFLEXÃO COM AUTONOMIA

Através de uma redação longa e que traz muitos elementos externos, o estudante conseguiu demonstrar bom domínio sobre o tema. Além disso, desenvolveu com competência uma estrutura um pouco mais complexa em relação ao padrão introdução-argumentos conclusão, bastante usual em dissertações para o vestibular.
O autor demonstra, já na introdução, um bom repertório. Ao fazer uma retrospectiva da evolução da tecnologia, fornece muitas informações novas e lança um questionamento motivador que será respondido ao longo do texto: “Será que o livro se encaixa nesse processo de evolução por mobilidade?”
O segundo parágrafo traz argumentos (também novos em relação à coletânea) a favor do livro digital. O posicionamento do aluno, no final do texto, seguirá por uma linha oposta a esses argumentos. Porém, ao dedicar um parágrafo para eles, além de demonstrar que conhece as vantagens e desvantagens dos dois formatos, o autor se serve de uma estratégia de discurso: fornecer argumentos da visão oposta à sua para depois rebatê-los.
Do terceiro ao quinto parágrafo, temos a apresentação dos argumentos que irão construir o posicionamento do autor no sentido da resistência do livro em papel. No primeiro deles é desenvolvida uma ideia, semelhante àquela de Nilson Souza (fragmento da antologia), que inverte a lógica da substituição do impresso pelo digital, e mostra que os recursos digitais também geram demanda para as publicações em papel.
Na sequência, em um parágrafo bastante reflexivo, o autor faz uma crítica à tecnologia, denunciando o seu caráter oportunista. Porém, por ser uma ideia importante na constituição do posicionamento, indicada no título, esse parágrafo poderia ter sido mais bem desenvolvido.
No final, o aluno expõe mais um argumento novo, próprio, que funciona como prova da resistência do livro impresso. Talvez a conclusão fosse mais ponderada se apontasse somente a publicação dos clássicos da literatura, mas, ainda que exagerado, o exemplo da Bíblia faz sentido ao situar o livro impresso na esfera do culto e da própria cultura.
Nas últimas linhas, onde o concorrente coloca uma situação hipotética em que o livro digital seria tão valorizado quanto o impresso, houve uma confusão que causa certo estranhamento ao leitor. Tal problema no final, junto do grande volume de informações do texto, pode ter afetado um pouco a clareza do conjunto da redação. Apesar disso e dos escorregões, a redação se mostrou consistente em coerência e coesão. Um bom exemplo da qualidade que chamamos de “autonomia”. O autor consegue mostrar que possui repertório, é atualizado, consegue organizar isso em um texto coerente e que pode ser compreendido por si só.

SAIBA MAIS

Fanfic
Narrativas publicadas principalmente no ciberespaço por amantes de ficções de fantasia (fantasy fiction – como mangás, Harry Potter ou O Senhor dos Anéis), que se apropriam de personagens e histórias que eles amam.

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