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Caderno de redações: UFRGS 2017

O que é ter um estilo pessoal?

A proposta da Universidade Federal do Rio Grande do Sul desafiou os candidatos a dissertar sobre um tema subjetivo, o que poderia incluir fatos ou situações pessoais desde que evidenciassem exemplos de um estilo com singularidade. Veja aqui a proposta e, a seguir, duas redações bem avaliadas pela banca, com análises da professora Nathália Macri Nahas.

PROPOSTA DE REDAÇÃO

Leia a surpreendente e generosa confissão feita pelo moçambicano Mia Couto:

Muitas vezes nos queixamos de que os jovens de hoje vivem uma cultura de imitação. Mas os jovens de ontem também o fizeram. E isso sucede em todo o mundo, em todos os tempos. Eu também já imitei e creio que quase tudo começa por via da inspiração de modelos exteriores. ( … ). O melhor modo de criar um estilo próprio é receber influências, as mais diversas e variadas influências.

COUTO, M. Despir a voz. In: E se Obama Fosse Africano? Ensaios.São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Sim, Mia Couto, um dos maiores escritores da atualidade, diz que o seu estilo não nasceu do nada, que o “outro”, os “modelos exteriores”, serviram-lhe de inspiração. Na verdade, o que o autor destaca é a sutil diferença existente entre a mera repetição e a inspiração, que permite criar o novo. Ter um estilo é saber criar a partir do já estabelecido. Ter um estilo é singularizar-se em meio à pluralidade.
Não muito distante do que disse o escritor, está a declaração de Elis Regina, uma das grandes cantoras do Brasil, a um programa de televisão:

Eu realmente devo a Ângela Maria ter descoberto que podia ser cantora; comecei a minha carreira de cantora imitando descaradamente – é com extrema felicidade que eu confesso isso – Ângela Maria; até hoje, em certos momentos de minhas apresentações, eu saco na minha voz a voz de Ângela Maria, e tenho profundo orgulho
disso. E Ângela Maria é, para mim, a maior cantora que o Brasil já
teve até hoje…

A grande Elis Regina, cujo estilo é inconfundível, também soube criar seu “jeito”, seu estilo, “imitando”. Como se pode ver, tanto o escritor quanto a cantora usam a ideia geral de “imitação” como algo positivo, como algo a partir do que conseguiram achar o seu estilo: de escrever, em um caso; de cantar, em outro. A imitação, nesses dois exemplos, é um ponto de partida; não um ponto de chegada. A respeito do mesmo tema, e em uma direção bastante crítica, o filósofo francês Dany Robert Dufour (2008) afirma que o mundo atual dá pouco, ou nenhum, lugar àquele que se distingue dos demais. Parece que o estilo de hoje em dia, então, é exatamente não ter estilo, é permanecer no “universo do mesmo”, da imitação.

Você já deve ter percebido: a “imitação” que produziu o novo, um novo estilo, em Mia Couto e em Elis Regina, também pode ser vista como causa da repetição sem estilo, conforme opinião de Dufour. Tudo depende de como cada um de nós se relaciona com o mesmo e com o diferente. Ora, para ter um estilo não é necessário produzir uma obra de arte, como os exemplos de Mia Couto ou de Elis Regina poderiam, em um primeiro momento, levar a crer; ter um estilo é, antes, poder dizer “este sou eu”, “este é o meu jeito”. É essa singularidade que faz, de cada um, um ser único.
E você o que pensa sobre essa questão? As pessoas, hoje em dia, apenas repetem, imitam ou conseguem produzir um estilo próprio? Considerando as reflexões acima, elabore uma dissertação sobre o que é ter um estilo. Para tanto, você deve:
apresentar o seu entendimento sobre o que é ter um estilo;
exemplificar ou com fatos, ou com acontecimentos ou com situações da vida cotidiana, sua ou de qualquer outra pessoa, o que é ter um estilo;
desenvolver argumentos que evidenciem que o exemplo dado permite identificar um estilo singular.

INSTRUÇÕES.

A versão final do seu texto deve:
1. conter um título na linha destinada a esse fim;
2. ter a extensão mínima de 30 linhas, excluído o título – aquém disso, seu texto não será avaliado –, e máxima de 50 linhas. Segmentos emendados, ou rasurados, ou repetidos, ou linhas em branco terão esses espaços descontados do cômputo total de linhas.
3. ser escrita, na folha definitiva, com caneta e em letra legível, de tamanho regular.

O tema apresentado pela UFRGS 2017 trouxe um questionamento sobre “o que é ter um estilo”, com a coletânea que analisava essa ideia em relação à opinião de dois importantes artistas. O candidato deveria refletir sobre essa noção e apresentar uma definição do seu entendimento sobre “estilo”. Ademais, solicitou-se exemplificação e argumentos que sustentassem uma opinião acerca do assunto.

A proposta apresenta certa dificuldade, pois parte de uma temática, em muitos aspectos, bem subjetiva. Ter um estilo é uma questão muito discutida entre os críticos de arte e não traz uma definição concreta. Assim, pode ser difícil ao candidato criar uma acepção que lhe permita opinar. Porém, o domínio da técnica argumentativa facilita a vida do autor. Para o sucesso nesse tipo de proposta, é fundamental que se faça uma definição que seja também parte da tese, ou seja, o significado de “ter estilo” é dado e utilizado como parte da argumentação. Desse modo, o candidato
determina o que entende sobre o tema e já escolhe argumentos que justifiquem esse significado, criando uma coerência entre opinião e conceitos trabalhados. A exemplificação também poderia trazer dificuldades, uma vez que a proposta permitia ao candidato trazer acontecimentos da sua vida ou de outra pessoa, o que pode levar a uma escrita extremamente subjetivada ou a um desvio do gênero pedido. É preciso atentar-se que, embora permita certa subjetividade, a proposta pede uma dissertação-argumentativa, logo se deve manter uma estrutura objetiva e lógica que sustente a defesa de ponto de vista adequada ao gênero textual.
Unindo uma temática não tão objetiva a uma possibilidade de maior subjetivação, a proposta da UFRGS mostrou, assim, um nível médio de dificuldade. As dissertações que conseguissem trazer uma definição clara sobre “o que é ter estilo”, pautada em argumentos que justificassem tal noção, tiveram sucesso no exame. Já textos muito subjetivos ou com significados obscuros tiveram a argumentação fragilizada, o que prejudica o desempenho dos candidatos.

REDAÇÃO I

A influência do meio

Regularmente, as pessoas se comunicam e sofrem influência umas das outras e do meio em que vivem sem perceber. As experiências pelas quais passam ao longo da vida contribuem para formar seu estilo próprio e sua identidade.

 

Cada indivíduo tem um jeito de ser e de viver, mas não o inventou sozinho. As pessoas se inspiram em outras com quem convivem, em famosos que admiram e até em diferentes gerações e, a partir disso, produzem seu próprio estilo, definindo sua maneira de pensar, agir, falar, vestir-se, entre outros.

Apesar de existirem pessoas parecidas em alguns aspectos físicos e psicológicos, todas têm um estilo singular. Isso acontece pois os seres humanos sofrem influências diferentes, inspiram-se em pessoas distintas e, portanto, têm variados gostos, personalidades e visões de mundo.

Com o passar do tempo, no entanto, é normal que algumas características sejam modificadas. À medida que envelhecem, as pessoas mudam seus hábitos e seu modo de pensar e de se vestir, transformando, assim, seu estilo.
Logo, pode-se concluir que todos possuem estilo próprio, o qual é inspirado e influenciado pelo meio e pode sofrer alterações ao longo do tempo.

 

ANÁLISE

TEXTO CONCISO,MAS COM DEFINIÇÃO OBJETIVA DO TEMA

O texto em questão apresentou uma argumentação bem concisa,porém foi bem-sucedido na explicação de seu conceito sobre “o que é ter estilo”. O autor traz uma definição simples de estilo como algo que se refere à maneira como nos portamos e agimos. É interessante perceber que a estratégia do candidato não foi aprofundar a noção pouco objetiva de “estilo”, e sim explicar que ele depende das influências e experiências que o indivíduo tem ao longo de sua vida. É um mecanismo válido de determinar o que é ter um estilo, sobretudo porque, ao apresentar a questão da influência, o autor já “oferece um gancho” para iniciar sua argumentação.
O raciocínio do texto é dado a partir de três argumentos, expressos entre o segundo e quarto parágrafos. Neles, o autor destaca três pilares do estilo: a influência de outras pessoas, a singularidade de cada indivíduo e a mudança de comportamento que ocorre ao longo da vida. Observe que cada argumento constitui uma faceta da definição central dada pelo candidato. A estratégia dele foi apresentar uma ideia simples como definição de “estilo” e aprofundá-la por meio dos argumentos. Dessa forma, o autor cumpre com dois requisitos da proposta de uma vez: traz uma significação ampla de estilo e argumenta sobre ela. Foi um modo eficaz de se construir a progressão argumentativa do texto.
Note que o candidato poderia aprofundar sua exemplificação. Ele fala de situações generalizantes que ilustram seu ponto de vista, mas é sempre importante trazer fatos e acontecimentos bem explicados de acordo com os argumentos – aliás o comando da prova pedia isso –, pois, assim, a defesa do ponto de vista fica justificada e demonstrada com base na realidade.

A conclusão do autor é curta, porém retoma com objetividade as principais ideias do texto. Note que a utilização de uma conjunção conclusiva (logo), já direciona a leitura para a finalização da argumentação, então não se esqueça de trabalhar bem em seu texto essas estruturas, como o “portanto”, “dessa forma” e seus semelhantes.

REDAÇÃO 2

O Exército de robôs invisíveis

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman certa vez afirmou que, na sociedade hipermoderna, a invisibilidade equivale à morte. Desse modo, a formação identitária do indivíduo está subjugada à tentativa de que este não se transforme em um fantasma, incapaz de marcar seu lugar no mundo em função de não ser visto. Consequentemente, a constituição de um estilo particular reduziu-se à imitação de padrões previamente estabelecidos.
Tornamo-nos, pois, seres dignos da realidade pós-industrial: modelados em série, tal qual robôs, capazes apenas de repetir ideologias alienadas. O conceito de estilo próprio passou por                                           profundas transformações a partir da década de 1980, devido à globalização.

A originalidade cedeu espaço à padronização. A gênese dessa situação foi marcada pelo surgimento da geração “eu me acho”: crescida dentro do ideário da crucialidade de elevada auto estima, ela requer constante aprovação social por meio da adaptação a valores pré-estabelecidos. Esse processo se dá, majoritariamente, através da propagação de pensamentos e imagens oriundos da massificação cultural. Ou seja, o imperativo ego-narcísico da sociedade hipermoderna impele os indivíduos à mera repetição de modelos vigentes, em busca de inserção na esfera coletiva. Assim, ter um estilo está a serviço da constituição de uma identidade aceitável.

 

Logo, este restringe-se à adoração de marcas da moda, aceitação da ideologia preponderante e veneração de símbolos produzidos pela indústria cultural. O retrato dessa depreciada realidade pode ser notado pelas postagens em redes sociais, as quais se tornaram a vitrine do que o indivíduo- mercadoria almeja vender ao mundo.

Por conseguinte, o dinamismo de pensamento vê-se acorrentado a paradigmas  comportamentais, condenando os sujeitos, dessa maneira, à eterna situação de minoridade intelectual. Esse conceito, lançado pelo filósofo Immanuel Kant, define o estado de consciência no qual a formação de opinião é dependente de análises e julgamentos alheios. A consequência mais nociva da adoção do “estilo moderno” é, portanto, estagnação da evolução humana, visto que a criatividade e a autonomia de raciocínio são tolidas pelo dogma da imitação alienada. Assim, o legado de gênios como Nicolau Copérnico e Albert Einstein – a ousadia de questionar verdades absolutas – encontra-se ameaçado pela inércia cognitiva que afeta uma geração de robôs conformados.

Em suma, a pressão homogeneizadora exercida pela globalização acarretou não apenas a massificação cultural de símbolos, mas também de atitudes. Desse contexto surgiu o conceito de estilo como reprodução de ideologias já estabelecidas. É preciso, então, que se estimule desde a infância a autonomia intelectual, como diria Kant, para que não nos tornemos apenas mais um dentre todos os robôs – invisíveis apesar de todo esforço – libertando-nos, enfim, da lógica de Bauman.

 

ANÁLISE

Boa argumentação

O texto em questão apresenta uma abordagem longa e mais bem fundamentada em fatos e conceitos sociológicos. Uma atitude inteligente do autor é relacionar a noção de “estilo” à de “identidade” logo no início do texto, apresentando sua tese de forma completa e eficaz ainda no parágrafo inicial.

A argumentação também apresenta uma estrutura eficiente: o autor articulou os argumentos na relação “causa e consequência”, o que foi bem marcado ao utilizar a expressão“por conseguinte”, no terceiro parágrafo. Tal estratégia é interessante, pois permite que sejam examinados dois lados da questão, dando uma noção de aprofundamento às ideias. Em um primeiro momento, o candidato problematiza a originalidade e segue indicando sua consequência na formação do pensamento e comportamento dos indivíduos. Para nortear seu raciocínio, ele explica a relação do seu argumento com a noção de estilo,mantendo a coerência do texto.

O autor se preocupou em fundamentar bem seus argumentos a partir de eventos históricos (a globalização, no caso) e de conceitos sociológicos. É importante valer-se na redação de diferentes estratégias de exemplificação, como eventos, teorias ou dados e estatísticas, para mostrar repertório cultural. Mas evite encher o desenvolvimento com
muitas referências, opte por um ou dois tópicos bem elaborados. A exemplificação deve ilustrar e fundamentar suas ideias, e não compor a totalidade da escrita. Textos informativos são diferentes de textos expositivos, como pede uma dissertação.

A conclusão do autor é eficaz, pois mistura duas estratégias possíveis: a retomada dos principais argumentos e a indicação de uma intervenção – a necessidade de se estimular a autonomia para que se moldem “estilos”. Assim, conseguiu articular seus argumentos com uma alternativa àquilo que problematizou, optando por finalizar em diálogo com Bauman, a principal referência do texto, o que assegurou a coerência desejada à totalidade da dissertação.

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