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China: Expansão regional, ambição global

Ao apresentar o projeto bilionário da Nova Rota da Seda, a China tenta converter sua pujança econômica em poder político e ampliar sua influência mundial

Nenhuma nação no planeta passou por transformações socioeconômicas tão agudas na história recente quanto a China. Dona do segundo maior Produto Interno Bruto (PIB) do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos (EUA), e maior exportadora mundial, a China deixou de ser uma nação pobre e agrária para se transformar em um dos motores da economia mundial. Tudo isso em menos de 30 anos, período em que suas taxas de crescimento econômico superaram os 10% ao ano.

Agora, consolidada na posição de potência econômica, a China ambiciona mais: quer converter essa pujança financeira em força política e mostrar que pode exercer um papel de liderança mundial. Uma demonstração desse poder foi dada em maio de 2017, quando o país recebeu 29 chefes de Estado e representantes de mais de 100 países para um fórum internacional sobre a sua mais recente iniciativa econômica: a Nova Rota da Seda.

Trata-se de um projeto bilionário de integração mundial, que faz referência à antiga rede comercial que interligou Ocidente e Oriente durante boa parte da Idade Média e promoveu um intenso intercâmbio cultural e comercial. Agora, o objetivo da China é criar uma espécie de corredor econômico, composto de estradas, ferrovias, oleodutos e cabos de fibra ótica, que irá conectar, por via terrestre e marítima, a China à Europa e à África, atravessando a Ásia Central, o Oriente Médio e o Oceano Índico.

O projeto é ousado: abrange 68 países, que somam 4,4 bilhões de pessoas e representam 40% do PIB mundial. Segundo o governo chinês, a Nova Rota da Seda irá estimular o comércio mundial e promover o desenvolvimento dos países mais pobres em torno da China, que receberão vultuosos investimentos em infraestrutura e logística – presidente Xi Jinping prometeu 124 bilhões de dólares para o projeto. Em troca, a China espera que as regiões mais pobres do país sejam beneficiadas, além de conquistar novos mercados e garantir contratos internacionais para suas empresas de infraestrutura. Com isso, a China também fortalece a logística para atender à sua demanda por matérias-primas.

No entanto, é impossível ignorar o caráter político embutido nessa Nova Rota da Seda. Para além das questões econômicas, a China quer se firmar como uma liderança global, capaz de não apenas ser uma potência regional, mas de ameaçar a hegemonia mundial dos EUA. O fato é que se trata de dois aspectos praticamente indissociáveis: com o poder econômico e a expansão comercial, o país cria uma relação de interdependência com os mercados globais, o que aumenta o seu peso nas principais decisões mundiais

Em defesa da globalização

O curioso dessa expansão chinesa é como um país que ainda se denomina socialista se converteu no maior defensor da globalização e do livre-comércio nos dias de hoje. A nação, que em 1949 foi reorganizada nos moldes comunistas a partir da Revolução Chinesa, sofreu um vigoroso processo de abertura econômica, após a morte de seu líder histórico, Mao Tsé-tung, em 1976.

Entrou em vigor um modelo que os dirigentes chineses chamaram de “socialismo de mercado”. Na esfera política, ainda sustenta o regime fechado, de partido único. Economicamente, o país manteve o controle estatal das fábricas e da terra, mas permitiu a abertura ao mercado mundial em determinadas regiões. Nessas Zonas Econômicas Especiais, empresas multinacionais se instalaram para produzir artigos para exportação, atraídas por incentivos fiscais e pela barata e numerosa mão de obra chinesa. Posteriormente, o governo autorizou a propriedade privada em algumas situações e fez maciços investimentos em tecnologia para aperfeiçoar a sua indústria.

Com essas medidas, o país inundou o planeta com seus produtos “made in China”, tornando-se o maior ex-portador mundial. Se a princípio os produtos chineses eram associados à baixa qualidade, hoje eles já possuem maior valor agregado, como eletroeletrônicos e automóveis. Paralelamente, para suprir sua demanda por alimentos, energia e matérias-primas para o setor de construção, a China tornou-se um grande importador de commodities, como petróleo, soja e minério de ferro.

Com essas ações, a China atrelou seu crescimento à economia de outras nações, firmando parcerias com países da África e da América Latina, incluindo o Brasil. Na crise mundial iniciada em 2008, por exemplo, a queda na demanda chinesa por commodities foi um dos fatores que afetaram a economia brasileira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É por ter uma economia voltada para o comércio exterior que a China assumiu veementemente a defesa da globalização durante o Fórum Econômico Mundial, em janeiro deste ano,em Davos, na Suíça. “Temos que continuar defendendo o desenvolvimento do livre-comércio (…) e dizer não ao protecionismo”, disse o presidente Xi Jinping no evento. Foi uma referência indireta ao então presidente eleito dos EUA, Donald Trump, cujo discurso de campanha prometia a geração de empregos a partir das restrições às importações e transferências de fábricas de volta aos EUA. Para Trump, a vantagem que os chineses levam sobre os norte americanos nas trocas comerciais está roubando os empregos no país.

Coreia do Norte

As relações com os EUA, por sinal, devem pautar vários aspectos da política externa chinesa nos próximos anos – para o bem ou para o mal. E uma grave crise começa a ganhar corpo justamente na fronteira da China. Desde o início do ano, a Coreia do Norte passou a testar a capacidade de novos mísseis, e rumores indicam que o país poderia realizar um novo teste nuclear em breve. Disposto a não tolerar essas atividades, Trump ameaçou uma retaliação enérgica em caso de novo teste nuclear .

O papel da China nessa crise é tentar colocar panos quentes na situação. O país é o único aliado da Coreia do Norte, com quem mantém um acordo de proteção na área de defesa desde 1961, o que vem garantindo sustentação política ao regime. Os norte-coreanos também são extremamente dependentes economicamente da China, de quem importam a maior parte de seus alimentos e fontes de energia.

Para Pequim, a sobrevivência do regime norte-coreano e a estabilidade na região servem para que o país vizinho continue exercendo o papel de Estado tampão entre a China e a rival Coreia do Sul. Tudo o que os chineses não querem é uma guerra que derrube o regime e provoque um enorme fluxo de refugiados para dentro de seu território. Outra hipótese que não agrada a Pequim é a possibilidade de uma reunificação entre as duas Coreias, o que daria origem a uma nova potência regional em sua fronteira.

Essa estreita relação com a Coreia do Norte torna a China um interlocutor privilegiado para tentar contornar a crise. Pequim pode ser mais dura com o vizinho rebelde e o ameaçar com retaliações econômicas e diplomáticas na tentativa de convencê-lo a abandonar suas ambições atômicas. É esse o papel que Trump gostaria que a China exercesse nessa crise. As duas potências vêm se aproximando recentemente para desenvolver estratégias de dissuasão do regime norte-coreano que agradem a China e EUA.

O STATUS DE TAIWAN

Afinal, Taiwan faz parte da china? a questão é difícil e remete ao final da II Guerra Mundial, em 1945, quando comunistas e nacionalistas entraram em guerra na china. após serem derrotados pelas forças comunistas de Mao tsé-tung, em 1949, os líderes do Partido nacionalista (Kuomintang) fugiram para a ilha de taiwan, onde fundaram uma república, que se auto proclama um Estado independente.

Para Pequim, vale a política de “uma só china”. Ou seja, de acordo com o governo chinês só há uma china no mundo – ela própria. taiwan é considerada uma província rebelde que um dia será reintegrada. sob essa política, a china exige que todos os países com quem mantém relações diplomáticas cortem laços oficiais com taiwan. até os Eua, que possuem um acordo de proteção militar com taiwan, reconhecem a china, em detrimento à ilha rebelde.

Na prática, porém, taiwan tem todas as condições que o definem como um país: um governo próprio eleito democraticamente, instituições sólidas, uma moeda nacional, forças armadas e um território delimitado. apesar de isolada politicamente, já que não tem o reconhecimento da Onu, taiwan possui uma economia dinâmica e mantém relações comerciais com todo o mundo, inclusive com a própria china, com quem vem estreitando laços recentemente.

 

Mar do Sul da China

Se a questão nuclear norte-coreana é um tema que une China e EUA, o mesmo não se pode dizer quando o assunto é o Mar do Sul da China. A vasta área de 410 mil quilômetros quadrados é, atualmente, o foco de maior tensão no Sudeste Asiático. A China reivindica a região, alegando ter precedência histórica com base em um pedido feito em 1947. No entanto, países como Filipinas, Vietnã, Brunei, Malásia e Taiwan também disputam a soberania sobre a região e querem negociar com base na convenção da ONU sobre o Direito do Mar, que define zonas de 200 milhas para cada país. O problema é que, devido à proximidade entre essas nações, as fronteiras marítimas não são bem definidas.

Alvo de disputa devido à sua relevância econômica, o Mar do Sul da China é uma área de grande interesse para a indústria pesqueira, além de ser uma importante rota comercial. Mas o fator de maior atrito são as potenciais reservas de petróleo,estimadas em até 125 bilhões de barris. Mesmo com a indefinição das fronteiras, a China ampliou ofensiva para consolidar a ocupação da área a partir de 2014, ao construir ilhas artificiais com potencial uso militar e enviar plataformas para a exploração de petróleo na região.

Para tentar conter o avanço chinês, as Filipinas recorreram a tribunais internacionais de arbitragem para decidir a questão. Em julho de 2016, a Corte Permanente de Arbitragem da ONU decidiu que a China não tem base legal para reivindicar “direitos históricos” sobre o Mar do Sul da China. O governo de Pequim não apenas afirmou que não irá reconhecer a decisão como expandiu as construções de ilhas artificiais na região, que são capazes de abrigar mísseis de longa distância.

As ambições expansionistas da China são vistas como uma forma de impor sua hegemonia no Sudeste Asiático. Para se tornar de fato uma potência global, o país entende que precisa consolidar sua força na região. Preocupados com as aspirações chinesas, os EUA criticam abertamente as instalações militares de Pequim no Mar do Sul da China e a tentativa de cercear a liberdade de navegação nessas águas. Em maio, um navio de guerra norte americano navegou próximo a uma das ilhas artificiais da região, em um desafio à autoridade da China.

Devido à posição estratégica do Mar do Sul da China e aos interesses assimétricos envolvidos na disputa, muitos analistas crêem que a região será um futuro campo de batalha onde as duas potências medirão forças. Por ora, China e EUA ainda mantêm uma relação de colaboração estratégica em assuntos geopolíticos e econômicos – embora algumas divergências apimentem a relação vez ou outra.

DESIGUALDADE CHINESA
Por Rodrigo Zeidan

A China é o país mais capitalista do mundo. Não, você não leu errado. Na China a competição impera: entre cidades, regiões, empresas e mesmo entre pessoas.

Esse não é o único paradoxo no país. O partido comunista se posiciona como o herdeiro natural de um dos maiores impérios que o mundo já viu e de uma civilização que teria mais de 5.000 anos. Ao mesmo tempo, nenhuma outra instituição destruiu tantos artefatos históricos como o poder central chinês.

A população poupa muito, já que quase não há rede de proteção social no país, comunista no discurso e nas instituições, mas não na prática. (…) As famílias traçam estratégias nas quais dependem o mínimo possível do Estado (…).

O mais importante é que o país deu um gigantesco salto, saindo de uma situação de penúria, na qual 88% das pessoas viviam em extrema pobreza em 1980, para o patamar atual de país de classe média baixa, como o Brasil. (…).

Folha de S.Paulo, 10/6/2017

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