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Aquecimento global: O impacto humano no planeta

As emissões de gases que agravam o efeito estufa, e outras ações humanas que impactaram o planeta, levam os cientistas a sugerir que já deixamos a época geológica atual, o Heloceno, e estamos em uma nova, o Antropoceno

O impacto das ações do ser humano sobre o planeta deixou marcas tão profundas que poderíamos considerar que estamos vivendo em uma nova época geológica, o Antropoceno (palavra de origem grega que designa “a época recente do ser humano”). Essa é a conclusão a que chegaram, após anos de debates, os pesquisadores que compõem o Grupo de Trabalho do Antropoceno e que participaram do 35º Congresso Geológico Internacional, na África do Sul, em setembro de 2016.

Épocas geológicas são fases que a Terra já atravessou e podem ter milhares ou milhões de anos. Oficialmente, a época atual em que vivemos denomina-se Holoceno e caracteriza-se pelo desenvolvimento da agricultura e pelos assentamentos urbanos. Ela teve seu início há quase 12 mil anos, quando ocorreu o fim da Idade do Gelo, as geleiras retrocederam e encerraram a era do Pleistoceno.

Para estabelecer a mudança de uma época para outra, os cientistas procuram evidências mensuráveis as camadas geológicas, como a composição química das rochas, e avaliam como essa nova etapa se diferenciou da anterior. Segundo esse grupo de pesquisadores, já há evidências suficientes de que o Holoceno ficou para trás e que vivemos no Antropoceno. Uma dessas provas seria exatamente a interferência humana no clima, com a emissão crescente de gases causadores do efeito estufa, que provoca o aquecimento global e tem o potencial de alterar a atmosfera, os mares e o solo da Terra por milhares de anos.

O grupo de pesquisadores do Antropoceno, liderado pelo cientista Jan Zalasiewicz, da Universidade de Leicester, na Inglaterra, também definiu a década de 1950 como o início dessa nova época.

CENÁRIO ASSUSTADOR – Fábricas de aço altamente poluidoras na Mongólia Interior, na China

Marco inicial

O Antropoceno teria seu início após o final da II Guerra Mundial (1939-1945), quando proliferaram os testes nucleares, que liberaram plutônio, elemento químico capaz de deixar sua marca na composição da Terra. Além disso, ocorreram mudanças importantes, como o aparecimento de resíduos de plástico, alumínio e concreto, que também deixaram seus vestígios nas superfícies e nos mares, assim como atividades de urbanização e mineração, que modificaram os solos de forma definitiva.

A existência do Antropoceno, no entanto, não encontra unanimidade na comunidade científica. Outras reuniões devem acontecer até a decisão final, que cabe ao comitê executivo da União Internacional de Ciências Geológicas e deve acontecer por volta de 2018.

A discussão em torno do Antropoceno levanta a questão sobre os limites de nossas ações sobre o planeta: o ser humano estaria interferindo no ambiente a ponto de colocar em risco a sua própria sobrevivência?

Aquecimento global

Primeiramente é preciso recordar que, quando os cientistas falam em aquecimento global, eles estão se referindo a um aumento anormal das temperaturas médias da Terra, provocado pelo crescimento da capacidade da atmosfera de reter calor, o chamado efeito estufa. O efeito estufa é um fenômeno natural que permite a existência da vida na Terra. Esse aumento anormal seria responsável pelos períodos de excessivo calor que temos enfrentado, aumento de inundações, secas, furacões e elevação do nível dos oceanos. O ano de  2016 consta como o mais quente já registrado desde 1880, segundo a agência norte-americana que monitora a atmosfera e os oceanos, a NOAA. Foi também o terceiro ano consecutivo que registrou um aumento recorde (0,94 ºC)da temperatura média do planeta em relação à média do século XX (13,9 ºC). No século XXI, esse recorde já foi quebrado cinco vezes: em 2005, 2010, 2014, 2015 e 2016.

Ação humana

O aquecimento é acompanhado desde 1988 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). Cientistas que participam do IPCC afirmam que esse aumento de calor é provocado pela ação do homem. Isso porque o planeta possui mecanismos próprios de emissão e absorção do carbono, mas o ser humano jogou mais carbono na atmosfera do que o planeta consegue absorver, e esse carbono está se acumulando desde a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII.

O dióxido de carbono (CO2), quando produzido pela queima de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural (metano, CH4), usados na indústria e transportes e liberado na atmosfera, é o principal dos gases que reforçam o efeito estufa. Também ampliam o efeito estufa as emissões comuns de metano, gerado por decomposição do lixo, digestão do gado e plantações alagadas (principalmente de arroz); e de óxido nitroso (N2O), que resulta do tratamento de dejetos de animais, do uso de fertilizantes e de alguns processos industriais. Ao alterar o uso da terra e desmatar (para retirar a madeira ou expandir a agropecuária), o homem também lança no ar o CO2 que estava acumulado nas plantas e no solo. Os oceanos também liberam CO2 estocado quando a temperatura aumenta.

Há pesquisadores que discordam dessa teoria e atribuem o sobreaquecimento a fatores não humanos. De qualquer forma, ele está ocorrendo. Veja algumas das possíveis consequências:

• O nível médio da água dos oceanos subiu 99 cm de 1901 a 2010. O nível continuará a subir e poderá submergir os pequenos países insulares e destruir áreas costeiras habitadas.

• Haverá mudanças no ciclo global das águas e aumento de contraste na quantidade de chuva entre as regiões úmidas e secas e de intensidade nas estações chuvosas e secas. Áreas áridas deverão se tornar desérticas.

• Aumento na quantidade e na força de furacões, tornados e tempestades e de problemas como deslizamentos, enchentes e desabastecimento de água.

• As camadas de gelo do Ártico, da Groenlândia e da Antártida estão perdendo volume. E o degelo do Ártico no verão deverá continuar até o final do século, podendo chegar a apenas 6% do que já foi durante a estação. Há diminuição também das geleiras de montanhas, o que diminui os volumes de rios.

O PESO DOS FÓSSEIS – No mundo, o principal emissor dos gases do efeito estufa é o setor de energia (que soma transportes, produção de eletricidade e de combustíveis), resultado da predominância do petróleo como energético. No Brasil, as emissões desse segmento crescem fortemente (+44,7%), enquanto diminuem (–62%) as emissões do maior fator poluidor o uso da terra (desmatamento)


O Protocolo de Kyoto conseguiu reduzir as emissões de gases do efeito estufa, mas longe do que é necessário


As negociações nas COPs

Desde seu primeiro relatório, publicado em 1990, o IPCC alerta sobre os perigos do aquecimento global. Os relatórios dos cientistas do IPCC destinam-se a orientar os formuladores de políticas públicas dos países para conter as emissões de gases. Para enfrentar um problema global foi preciso buscar, em uma instância como a ONU, atitudes em conjunto dos países signatários da convenção assinada na conferência Eco 92, realizada no Rio de Janeiro. Nela, representantes de 179 nações consolidaram uma pauta comum para minimizar os problemas ambientais mundiais, a chamada Convenção sobre Mudança do Clima. Depois, os países participantes precisavam decidir, em conjunto, o que deveriam fazer. As discussões acontecem nas COPs (Conferência das Partes, em que cada país-membro é considerado uma parte).

Uma das COPs mais importantes foi a realizada em Kyoto, no Japão, em 1997 (a COP-3). Ela aprovou o Protocolo de Kyoto, no qual foi estabelecida a estratégia de “responsabilidade comum, porém diferenciada”. Essa expressão define que todas as nações têm responsabilidade no combate ao aquecimento global, mas as que mais contribuíram historicamente para o acúmulo de gases do efeito estufa têm uma obrigação maior. Trata-se das nações mais ricas, como os Estados Unidos (EUA) e boa parte dos países da Europa. Por terem iniciado seu processo de industrialização há muito mais tempo, essas nações produziram a maior parte dos gases acumulados na atmosfera.

O Protocolo de Kyoto impunha a essas nações metas ambiciosas de redução da emissão de seus gases agravantes. As demais nações, de industrialização tardia, incluindo o Brasil, a China, países da África e de outras partes do mundo, foram desobrigadas de cumprir metas para não prejudicar seu desenvolvimento econômico e social. Nas últimas décadas, no entanto, o consumo de energia aumentou mais rapidamente nesses países mais populosos, como China e Índia, que são grandes consumidores de carvão mineral e gás.

O caráter impositivo do Protocolo de Kyoto aos países desenvolvidos signatários tornou-se seu principal problema, pois os EUA, que eram os maiores emissores à época e hoje estão na segunda colocação, atrás da China, nunca o assinaram, argumentando que isso poderia prejudicar sua economia.

A Rússia, que é grande produtor mundial de petróleo e gás, resistiu durante anos antes de assinar e ratificar o protocolo e, juntamente com Canadá e Japão, também avisou que não cumpriria metas em tempos difíceis para sua economia. Como resultado, o protocolo fracassou: houve diminuição das emissões, mas longe do que os cientistas julgam que é necessário.


Os compromissos  assumidos pelo Brasil

A Política Nacional sobre Mudança do Clima oficializa o compromisso do Brasil de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 37% até 2025 e em 43% até 2030, em relação às emissões do país em 2005. Essas metas, apresentadas na COP-21, foram consideradas ambiciosas porque são absolutas, ou seja, não dependem do crescimento da economia. Veja as principais propostas:

• acabar com o desmatamento ilegal
• Restaurar 12 milhões de hectares de florestas
• Recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas
• integrar 5 milhões de hectares de lavoura-pecuária-florestas
• Garantir 45% de fontes renováveis na matriz energética
• ampliar para 66% a parcela da fonte hídrica na geração de eletricidade, e para 23% a de fontes renováveis
(eólica, solar e biomassa)
• aumentar em cerca de 10% a eficiência elétrica
• aumentar para 16% a participação de etanol carburante e das demais biomassas derivadas da cana-de- açúcar no total da matriz energética

Entre 2005 e 2012, segundo dados do governo, as emissões brasileiras de gases de efeito estufa haviam diminuído 41%, devido, sobretudo, à queda nos índices de desmatamento (uso do solo). No entanto, a área de matas e florestas derrubadas cresceu nos últimos dois anos – foram quase 8.000 km² apenas entre agosto de 2015 e julho de 2016, segundo o monitoramento contínuo feito pelo instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como resultado, as emissões voltaram a aumentar em 2015 – 3,5% em comparação a 2014 – , de acordo com o sistema de Estimativas de Emissões de Gases do Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima. Segundo a entidade, os dados históricos mostram que o Brasil teve um período singular de queda mas, desde então, está estagnado, sem conseguir reduzir suas emissões, apesar dos compromissos assumidos internacionalmente.


Acordo de Paris

Em 2014, EUA e China anunciaram um acordo mútuo de reduções de suas emissões, o que abriu o caminho para a aprovação absoluta de um novo acordo internacional. Finalmente em 2015, na COP-21, realizada em Paris, foi firmado o primeiro acordo a ter o apoio de todos os 193 países-membros da ONU, que assinaram a convenção de 1992. Ele estabelece que todos os países deverão se mobilizar para conter o aumento da temperatura média da Terra, ainda neste século, “bem abaixo de 2 graus Celsius” com relação aos níveis pré-Revolução Industrial. Também devem fazer o possível para tentar reduzir a 1,5 ºC. No atual cenário, se nada for feito, o planeta poderá ter um aumento de temperatura de até 7,8 ºC nesse período. Isso significa que, segundo o alerta dos cientistas, a Terra está em uma trajetória perigosa de aquecimento.

Mudar essa rota significa promover uma reviravolta energética que leve à diminuição drástica do uso de petróleo, gás e carvão mineral e o aumento de produção de energias mais limpas, além de eliminar o desmatamento. Nesses muitos anos de negociação, a questão do financiamento dessa mudança era um dos motivos da falta de acordo, uma vez que os países ricos não querem pagar a conta da adaptação dos países pobres.

Segundo o que ficou decidido pelo acordo, a partir de 2020, ao menos 100 bilhões de dólares anuais serão destinados pelos países ricos aos países em desenvolvimento. Essas verbas irão para ações de mitigação (diminuir as emissões dos gases) e de adaptação (ações para se proteger dos desastres naturais que poderão vir).

Entraves e riscos

A principal crítica ao acordo de Paris é que todas as metas nacionais para reduzir as emissões são voluntárias –cada país apresentou a meta de redução de emissões que acredita poder alcançar. Além disso, o conjunto de metas somado é considerado insuficiente para barrar o sobreaquecimento médio em até 2 ºC. Segundo o IPCC, mesmo que todos os países consigam cumprir o que propuseram, a temperatura média subirá entre 2,7 ºC e 3,5 ºC. Por isso, o acordo prevê uma revisão de metas a cada cinco anos, a partir de 2018, e uma primeira verificação em 2023.

Uma ameaça ao Acordo de Paris, no entanto, surgiu com a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA. Ele já anunciou que não pretende diminuir a dependência econômica do país em relação aos combustíveis fósseis, e até acenou com a possibilidade de cancelar a assinatura do acordo. Isso representaria um grande empecilho para o combate ao aquecimento global, uma vez que os EUA – um dos maiores emissores de gases do efeito estufa do mundo – não apenas deixaria de cumprir suas metas, como também colocaria em risco o apoio financeiro aos países em desenvolvimento.

 

 

 

Aquecimento global

ANTROPOCENO Cientistas afirmam que as  mudanças que o ser humano provocou na Terra já constituem evidências suficientes para considerarmos que deixamos uma época geológica, o Holoceno, e iniciamos uma nova, o Antropoceno.

AQUECIMENTO GLOBAL  É o aumento indesejável do efeito estufa, o fenômeno natural que mantém a Terra aquecida. A maioria dos cientistas acredita que esteja sendo reforçado pela emissão na atmosfera de alguns gases. São eles o dióxido de carbono (CO2, derivado da queima de combustíveis fósseis), além do metano (CH4, gerado por decomposição do lixo, digestão do gado etc.) e do óxido nitroso (N2O,resultado do tratamento de dejetos de animais, do uso de fertilizantes e de processos industriais).

CONSEQUÊNCIAS  2016 foi o terceiro ano consecutivo, desde 1880, que registrou recorde de aumento da temperatura média mundial (0,94 ºC) em relação à média do século XX (13,9 ºC é a referência utilizada). Entre as consequências desse sobreaquecimento estão o aumento do nível médio da água dos oceanos (com a possibilidade de submergir pequenos países insulares e destruir áreas costeiras habitadas) e o aumento no número e na força de furacões, tornados e tempestades.

ACORDO DE PARIS  Em 2015, os 193 países-membros da Organização das Nações Unidas assinaram um acordo, durante a 21ª Conferência das Partes da Convenção sobre Mudança do Clima (COP-21). Todos se comprometeram com metas voluntárias de reduzir suas emissões de gases para tentar conter o aumento da temperatura média da Terra em 2 ºC ainda neste século. Também farão o possível para reduzir esse limite a 1,5 ºC. Analistas dizem que as novas metas são insuficientes.

METAS DO BRASIL  O Brasil se comprometeu na COP-21 a reduzir suas emissões de gases do efeito estufa. No entanto, depois de uma tendência de queda entre 2005 e 2012, as emissões brasileiras cresceram 3,5% em 2015, devido sobretudo ao aumento no desmatamento.

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