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Coreia do Norte: O mundo sob nova tensão nuclear

Coreia do Norte avança em seu programa de construção de armas atômicas e eleva a possibilidade de conflito com os Estados Unidos

O mundo vive momentos de grande tensão desde o começo de 2017. O avanço dos testes militares e do programa nuclear da Coreia do Norte e as ameaças de retaliação por parte dos Estados Unidos (EUA) colocam os dois países à beira de um confronto direto. Como ambas as nações possuem armamentos atômicos, teme-se pelo pior: uma guerra que arraste as potências para um confronto nuclear de grandes proporções.

Em fevereiro de 2017, o regime norte-coreano iniciou uma série de exercícios militares para testar o alcance de seus mísseis. O lançamento dos projéteis foi realizado dias após a posse de Donald Trump como novo presidente dos EUA. Diante desse contexto político, os testes foram interpretados como um desafio direto do ditador norte-coreano Kim Jong-un ao líder da maior potência militar do planeta.

Nos meses seguintes, a Coreia do Norte lançou novos mísseis, culminando com o teste de um míssil balístico intercontinental, em julho, capaz de cruzar o Oceano Pacífico e chegar até o Alasca. Também cogita-se a realização de um novo teste nuclear, que seria o sexto desde 2006. Por sua vez, os EUA enviaram um porta-aviões à costa da península coreana para reforçar sua presença militar na região. “Todas as opções estão na mesa”, declarou o governo norte-americano em referência a um ataque preventivo à Coreia do Norte. Em resposta, o exército norte-coreano disse que “devastará impiedosamente” os EUA.

Para além da retórica dos dois países, as demonstrações de poder militar de Kim Jong-un são motivo de grande preocupação não só dos EUA mas também de países como Coreia do Sul e Japão todos rivais do regime norte-coreano. Entre outubro de 2006 e setembro de 2016, a Coreia do Norte realizou cinco testes nucleares, nos quais, segundo avaliações de especialistas, aprimorou a sua tecnologia de fabricação de armamentos atômicos. Além disso, o avanço do programa balístico pode colocar a Coreia do Norte em condições de desenvolver um míssil de longo alcance, capaz de abrigar ogivas nucleares e atingir o território norte americano.

Dinastia comunista

A tensão crescente na península coreana tem muito a ver com a natureza do regime da Coreia do Norte. O país é economicamente atrasado, fechado à comunidade internacional e comandado por um regime comunista de partido único, que domina toda a vida política. Não há liberdade de organização nem de expressão, e estima-se que haja milhares de presos políticos.

A história do atual regime tem origem na II Guerra Mundial (1939-1945). Após o conflito, a então Coreia foi dividida em dois países, correspondendo ao antagonismo da Guerra Fria: a Coreia do Sul (capitalista, sob influência dos EUA) e a Coreia do Norte (comunista, aliada da União Soviética e depois da China). Em 1950, a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul, deflagrando a Guerra da Coreia. Mais de 5 milhões de pessoas morreram no conflito. Um cessar-fogo provisório foi assinado em 1953 criando uma zona desmilitarizada entre o sul e o norte. Mas os dois países permanecem tecnicamente em guerra, já que não foi assinado nenhum acordo de paz.

A Coreia do Norte foi reconstruída com a ajuda da União Soviética e da China. Desde o início, o regime caracterizou-se pelo culto ao ditador Kim Il- sung. Chamado de Grande Líder pelos órgãos oficiais, ele morreu em 1994. Seu filho e sucessor Kim Jong-il tornou-se então o chefe de Estado. Por sua vez, sua morte, no fim de 2011, conduziu o filho mais novo, Kim Jong-un ao comando do regime. Só por essa peculiar forma de transmissão de poder se percebe que o regime norte-coreano mistura elementos em princípio incompatíveis, como o fato de reivindicar-se do comunismo e ao mesmo tempo comportar uma sucessão dinástica (de pai para filho).

Regime fechado

Desde a dissolução da União Soviética, em 1991, e o fim da Guerra Fria, a situação econômica na Coreia do Norte se deteriorou. Sem a ajuda de Moscou, o país atravessou grandes dificuldades na década de 1990, que causaram a morte de pelo menos 800 mil pessoas por fome (há fontes que dão a cifra de 2,4milhões). A partir da década de 2000, as duas Coreias até ensaiaram uma reaproximação, marcada por idas e vindas.

 As negociações, contudo, empacaram diante do avanço do programa nuclear norte-coreano. Em 2003, o país retirou-se do Tratado de Não Proliferação Nuclear, pelo qual se comprometia a não desenvolver a arma atômica. A saída aumentou a suspeita de que o país estaria desenvolvendo tecnologia nuclear para uso militar. A desconfiança foi confirmada em 2006 com o teste da primeira bomba atômica pelos norte-coreanos, que levaram à aprovação de embargos contra o país pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). As sanções têm se avolumado desde então inclusive foram aplicadas neste ano após os testes com mísseis.

A estratégia do regime norte-coreano em desenvolver seu programa nuclear é vista como uma forma de barganhar benefícios das grandes potências. Ao longo das negociações que se seguiram aos primeiros testes, a Coreia do Norte assumiu compromissos de fechar reatores nucleares e permitir inspeções internacionais. Mesmo após receber petróleo e alimentos como parte do acordo, os norte-coreanos prosseguiram com as pesquisas nucleares, inviabilizando as negociações.

Outra razão que leva a Coreia do Norte a manter armas nucleares tem a ver com uma estratégia de sobrevivência do regime. O governo norte-coreano acredita que a posse de um arsenal atômico tem o poder de intimidar qualquer iniciativa das grandes potências em querer derrubar Kim Jong-un, sob risco de uma retaliação nuclear de consequências catastróficas, especialmente no Japão e na Coreia do Sul.

O poder de fogo norte-coreano

A cada teste nuclear, a Coreia do Norte expande a potência de suas armas atômicas. Dos cinco testes realizados até agora, três aconteceram durante o governo do atual líder Kim Jong-un e os dois mais potentes foram realizados no ano passado. Em janeiro de 2016, o país promoveu um teste bem-sucedido de uma bomba de hidrogênio (bomba H) em miniatura  trata-se de uma arma até mil vezes mais potente que uma bomba atômica convencional. Já em setembro,um novo teste detonou um artefato que pode atingir níveis de destruição superiores à bomba lançada pelos EUA em Hiroshima, em 1945, segundo informações de alguns especialistas.

Se é inequívoco que a Coreia do Norte possui a bomba atômica, a questão principal agora é saber se o país tem condições de lançar um ataque nuclear a outras nações. Para isso, o regime norte-coreano precisa aprimorar duas tecnologias: desenvolver mísseis de longo alcance e produzir uma bomba pequena que caiba dentro de um míssil.

É por isso que o teste do míssil Hwa-song-14, em julho, representa uma nova etapa nesse processo tecnológico. A Coreia do Norte já produz mísseis de alcance, que podem atingir o Japão e a Coreia do Sul. Agora, pela primeira vez, o regime norte-coreano conseguiu lançar um míssil intercontinental capaz de atingir o Alasca, nos EUA
Quanto à capacidade do regime em produzir uma bomba pequena para incorporá-la dentro de mísseis, o serviço de inteligência norte-americano afirma que a Coreia do Norte já conseguiu miniaturizar uma ogiva nuclear que possa ser lançada a partir de mísseis de curto e médio alcance. Ou seja, o país já teria capacidade de lançar um ataque nuclear contra a Coreia do Sul e o Japão.

Apesar de já ter testado um míssil intercontinental, a Coreia do Norte ainda não domina a técnica para inserir uma ogiva nuclear nesse artefato – portanto ainda não pode disparar uma bomba atômica contra os EUA. É para evitar essa possibilidade que Trump ameaça atacar o país asiático.

Geopolítica regional

A tensão nuclear faz da região da península coreana uma área extremamente militarizada. Os EUA mantêm cerca de 29 mil soldados na Coreia do Sul, em apoio aos 630 mil militares do país. Os norte-americanos também se comprometem a garantir a segurança militar do Japão, outro forte aliado no Extremo Oriente. Já a Coreia do Norte
tem cerca de 1,2 milhão de soldados, número expressivo numa população de 25 milhões de habitantes.

Para defender seus aliados na região, os EUA realizam anualmente exercícios militares em conjunto com a Coreia do Sul, que funciona tanto como um treinamento quanto como demonstração de força ao regime norte-coreano. A intensificação dos testes militares pela Coreia do Norte também levou os EUA a defender a instalação de um sistema antimísseis na Coreia do Sul, que seria capaz de interceptar os ataques do país vizinho. Em abril, começou a instalação do escudo, mas, em junho, o governo sul coreano decidiu suspender as obras, com o objetivo de verificar quais serão suas consequências ambientais. A revisão pode durar mais de um ano.

O controverso escudo antimíssil também mexe com os interesses da China,pois os norte-americanos aumentariam seu dispositivo militar numa região que o gigante asiático considera de seu domínio geopolítico. A China é a mais importante aliada da Coreia do Norte e sua maior fornecedora de alimentos e energia. O volume de comércio entre os dois países passou de 490 milhões de dólares em 2000 para 5,42 bilhões de dólares em 2015. Ambos são governados por regimes comunistas de partido único, mas suas relações, embora ainda sejam próximas, foram abaladas na última década pela insistência dos norte-coreanos em desenvolver o seu programa nuclear.

Depois dos testes com mísseis neste ano, a China suspendeu temporariamente as compras de carvão da Coreia do Norte, em demonstração pública de desacordo. Sucessivos governos dos EUA pressionaram os chineses para que convencessem seu aliado a interromper os testes com armas e a se abrir ao mercado internacional. A atual gestão, de Donald Trump, prossegue com essa política.

A China defende que a Coreia do Norte pare com seu programa atômico e,em contrapartida, que EUA e Coreia do Sul cancelem os exercícios militares conjuntos que realizam anualmente na península coreana. O interesse chinês em manter a Coreia do Norte longe de um conflito obedece a razões mais práticas do que ideológicas – se houver um colapso do regime norte-coreano, a eventual unificação da Coreia resultaria em fortalecimento da influência norte-americana em região próxima de sua fronteira. Além disso, a eclosão de um conflito provocaria quase certamente um movimento de refugiados em direção ao território chinês, o que o governo de Pequim busca evitar.

O ACORDO NUCLEAR COM O IRÃ

Se a Coreia do Norte permanece irredutível no avanço de seu programa nuclear, as negociações com outro país historicamente hostil aos Eua tiveram mais sucesso. O governo do irã assinou em julho de 2015 um acordo pelo qual aceita ter sua atividade nuclear monitorada e contida e deixa o país mais distante de obter a bomba atômica. durante dez anos, o país reduzirá em dois terços o número de centrífugas para o enriquecimento de urânio. além disso, permitirá a verificação de suas atividades nucleares por inspetores externos e diminuirá seu estoque de urânio enriquecido de 7,5 mil quilos para 300. Em contrapartida, serão gradualmente retiradas as sanções que provocaram perdas econômicas significativas aos iranianos.

As negociações duraram quase dois anos e encerraram um impasse que perdurava desde 2001, quando as potências ocidentais passaram a acreditar que o irã pretendia fabricar armas nucleares. O governo iraniano sempre negou e afirmava que seu programa tem fins apenas pacíficos. Mas, em razão dessa desconfiança, várias sanções econômicas foram aprovadas contra o irã pelos EUA, pela ONU e pela União Europeia (UE).

Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP)

A tentativa de impor restrições aos programas nucleares da Coreia do Norte faz parte de uma estratégia das grandes potências de concentrar o poder entre países que já detêm a bomba e evitar a disseminação da tecnologia para fins militares, especialmente para nações que não desfrutam de boas relações com essas potências. A mesma pressão foi feita sobre o Irã, que aceitou um acordo com as potências.

A humanidade vive sob a ameaça de utilização de armamentos nucleares desde que, em agosto de 1945, os EUA despejaram bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, matando ou incapacitando centenas de milhares de pessoas. Nas décadas seguintes, negociações diplomáticas procuraram regulamentar a utilização, o desenvolvimento e o uso da tecnologia nuclear. O principal acordo é o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que entrou em vigor em 1970 e tem 190 países signatários. Pelo TNP, os países são divididos em dois blocos:

Os cinco Estados que explodiram alguma bomba atômica antes de 1o de janeiro de 1967 – Estados Unidos, União Soviética (sucedida pela Rússia), China, Reino Unido e França. Esses países podem manter seus arsenais e desenvolver pesquisas na área, desde que não repassem tecnologia bélica a outras nações. Não por acaso, esse grupo é formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – aqueles que concentram mais poderes e têm poder de veto sobre as decisões do órgão. Os cinco membros permanentes são também os vencedores da II Guerra Mundial, o que mostra como a divisão feita pelo TNP segue a situação geopolítica mundial ao término da guerra;

Todos os demais países que assinaram o acordo e se comprometeram a não tentar obter armas nucleares. Essas nações podem desenvolver a tecnologia nuclear para usinas de eletricidade, medicamentos, aparelhos médicos e outras atividades para fins pacíficos. A verificação do cumprimento dos termos do TNP fica a cargo da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), um órgão ligado à ONU, mas com autonomia. Se a AIEA constata que um Estado desrespeitou o tratado, encaminha o caso ao Conselho de Segurança da ONU, única instância que pode adotar medidas para enfrentar o problema.

Protocolo Adicional

A AIEA aprovou, em 1997, um Protocolo Adicional, que dá aos inspetores poderes de investigação mais amplos, como a vistoria de instalações nucleares sem aviso prévio. O objetivo é detectar a existência de atividades mantidas secretas. Países como Brasil e Irã, que são signatários do TNP, se recusaram a assinar esse protocolo, pois entendem que restringe a sua soberania nacional e impede o progresso econômico. Entende-se que ele busca impedir a disseminação da tecnologia de enriquecimento de urânio, em proveito das nações que já a dominam, também para fins econômicos.

O Brasil sofreu fortes pressões da AIEA na década passada, mas manteve seu parque de centrífugas para enriquecer urânio e um programa para construir um submarino movido a energia atômica, considerado essencial para garantir a autonomia de navegação por todo o extenso litoral.

Esse protocolo não se aplica a nenhum dos cinco Estados dotados de armas, o que cria uma situação assimétrica. Para a enorme maioria das nações do mundo, que não possuem bombas, impõe-se um controle rigoroso. Aos detentores dos armamentos, exige-se o compromisso do desarmamento, que está longe de ser alcançado.

Segurança mundial

A comunidade internacional se preocupa com o fato de países que não aderiram ao TNP terem armas nucleares. Além da Coreia do Norte, Índia e Paquistão encontram-se nessa categoria. Os dois são rivais históricos e mantêm arsenais nucleares como estratégia de ameaça mútua. Já Israel também é considerado um país com arsenal atômico, mas não sofre pressões por ser aliado das grandes potências. Israel nunca confirmou nem desmentiu possuir armamento atômico.

Entre os países do “clube atômico”, permanece o discurso de reduzir o arsenal atômico, embora os avanços sejam tímidos. Pela situação do arsenal nuclear das duas maiores potências atômicas, as intenções parecem estar longe de se converter em fatos. Desde fevereiro de 2011 está em vigor um amplo pacto para que EUA e Rússia reduzam suas armas nucleares para não mais de 1.550 até fevereiro de 2018. Porém, estima-se que em 2017 a Rússia ainda mantenha cerca de 7 mil ogivas nucleares e os EUA, 6.800.

Além da escalada da tensão mundial entre as potências nucleares, outra ameaça à segurança mundial reside na possibilidade de grupos terroristas como a Al Qaeda ou o Estado Islâmico obterem uma arma nuclear. Autoridades da AIEA acreditam que os extremistas são capazes de fabricar uma bomba atômica rudimentar se tiverem acesso a urânio ou plutônio enriquecido.

ASSASSINATO DE KIM JONG-NAM LEVA A TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO INTRIGANTES.

O assassinato sensacional do meio-irmão do ditador norte-coreano, Kim Jong-un, no aeroporto de Kuala Lumpur há duas semanas, é incompreensível para a maioria das pessoas civilizadas.

Para começar a entender esse aparente ato de fratricídio, é preciso reconhecer que a Coreia do Norte é essencialmente uma monarquia medieval absolutista governada por um jovem tirânico de 33 anos. (…)

O “jovem marechal”, como Kim Jong-un insiste em ser chamado, temia que seu meio irmão de 46 anos, Kim Jong-nam, tivesse uma reivindicação melhor ao trono e que pudesse um dia usurpá-lo com a ajuda da China ou do Ocidente. (…)

A opção do VX – o mais mortífero agente nervoso sintético já feito e uma arma química (…) destina-se a enviar um sinal temível. Ela adverte e mostra ao Ocidente que Pyongyang tem outras armas perigosas além de seu programa nuclear em rápida expansão. (…).

Folha de S.Paulo, 2/3/2017

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