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Dossiê Estado Islâmico: A guerra civil devasta a Síria

Mais de 250 mil pessoas já morreram nesse conflito que resultou no fortalecimento do Estado Islâmico e alterou o equilíbrio de forças no Oriente Médio

Março de 2011. Um grupo de crianças em Daraa, no sul da Síria, é preso pela polícia por pichar frases críticas ao governo. Inconformadas, centenas de pessoas saem às ruas da cidade para protestar contra as restrições à liberdade promovidas pelo governo do ditador Bashar Al-Assad. Assim como em outros países do Oriente Médio e do norte da África, a Síria mergulha na onda de manifestações conhecida como Primavera Árabe.

Mas a manifestação pacífica em Daraa é violentamente reprimida. As forças de segurança abrem fogo contra a multidão e matam dezenas de pessoas. A reação desproporcional do governo estimula novas revoltas. Algumas semanas depois, mais de 100 cidades na Síria são palco de protestos regulares. As tropas do governo não cedem e respondem com violência, o que leva a oposição a se organizar em diversos grupos armados para lutar contra Assad. É o início da guerra civil.

Corta para março de 2016. Passados cinco anos, a Síria é uma terra arrasada. O conflito é considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU) a maior crise humanitária deste século. Os números falam por si só. Pelo menos 250 mil pessoas morreram. Entre os sobreviventes, 6,5 milhões de pessoas foram obrigadas a mudar-se para outras regiões do país, e outros 4,5 milhões abandonaram a Síria. Com a economia em frangalhos, quase 70% dos sírios que permaneceram agora vivem abaixo da linha de pobreza.

As forças no conflito

A população síria encontra-se no meio de um fogo cruzado que envolve diferentes grupos. Veja a seguir as principais forças envolvidas no conflito:

GOVERNO SÍRIO E ALIADOS De um lado do conflito está o regime sírio, liderado por Bashar Al-Assad. Desde 1970, a família Assad comanda no país um brutal regime de partido único. Apesar de serem alauítas (uma seita muçulmana do ramo xiita), os Assad mantinham um governo laico, que separava a religião do Estado. Com o início dos protestos, os sunitas tomaram a frente na oposição ao regime, o que deu ao conflito contornos sectários. Apesar de não apoiarem o ditador, cristãos, xiitas e até parte da elite sunita preferem ver Assad no poder diante da possibilidade de ter um país tomado pelos extremistas.

Quanto às alianças externas, Assad conta com o apoio do Irã e do grupo libanês Hezbollah, formando um “eixo xiita” no Oriente Médio. O termo se refere a uma aliança política que reúne países e organizações cujos líderes são adeptos dessa corrente do islamismo. O grupo se opõe a Israel e disputa a hegemonia no Oriente Médio com as monarquias sunitas, lideradas pela Arábia Saudita. O principal aliado fora da região é a Rússia, que mantém uma antiga parceria com a Síria, sustentada pela base naval que os russos controlam em Tartus, no litoral sírio. Tanto o apoio do Hezbollah e das milícias iranianas quanto os bombardeios mais recentes realizados pelas forças russas têm sido fundamentais para a sobrevivência do regime de Assad.

GRUPOS REBELDES Umas das primeiras forças a mergulhar na guerra foram os grupos sunitas que lutam para derrubar a ditadura de Assad. Entre os chamados “rebeldes moderados”, que recebem esse nome por não serem adeptos do radicalismo islâmico, a maior expressão é o Exército Livre da Síria (ELS). A organização conta com o respaldo das potências ocidentais, lideradas pela Europa e EUA. Também recebem apoio da Turquia e da Arábia Saudita, principais inimigos de Assad na região. É por isso que a guerra na Síria, além de ser uma disputa interna de poder, reflete a rivalidade entre dois países-chave no Oriente Médio: Irã e Arábia Saudita (veja mais adiante).

EXTREMISTAS ISLÂMICOS Entre os grupos que querem derrubar Assad, além dos rebeldes moderados, há facções extremistas islâmicas, que estão fragmentadas em diversos grupos. Uma das organizações que mais conquistaram terreno, principalmente nos primeiros anos do conflito, foi a Frente Al-Nusra, um braço da rede extremista Al Qaeda na Síria. Posteriormente, a partir de 2013, o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) aproveitou-se da situação de caos criada pela guerra civil e, vindo do Iraque, avançou de forma avassaladora e brutal, ocupando metade do território sírio.

CURDOS Há, ainda, o que podemos chamar de uma quarta força envolvida no conflito. Trata-se dos curdos, etnia que habita territórios de Síria, Turquia, Iraque, Irã, Armênia e Azerbaidjão e reivindica a criação de um Estado próprio para o seu povo – o Curdistão. Desde o início do conflito na Síria, a Unidade de Defesa Popular (YPG), uma milícia formada para defender as regiões habitadas pelos curdos no norte do país, se fortaleceu. Para o regime de Assad, a YPG tornou-se um ator bastante útil, porque a milícia é uma das principais forças de resistência tanto contra os extremistas do EI como os “moderados” do ELS.

Essa situação embaralha o jogo das potências, colocando EUA e Turquia, ambos membros da Otan, a aliança militar ocidental, em lados opostos. Isso porque o YPG recebe o apoio dos norte-americanos na luta contra o EI, mas é um dos principais inimigos da Turquia, que teme o fortalecimento dos curdos em seu próprio território.

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A sobrevivência de Assad

Com tantas forças envolvidas no combate, nestes cinco anos da guerra civil houve diversos momentos em que as tropas de Assad estiveram à beira da derrota. Os violentos combates travados entre regime e rebeldes foram marcados por avanços e retrocessos das forças oficiais em cidades estratégicas, como a capital Damasco, Homs e Aleppo – áreas que hoje são controladas por Assad.

Mas o momento mais delicado para o ditador foi em 2013, quando um ataque com armas químicas no subúrbio de Damasco foi atribuído ao regime sírio. Os EUA chegaram até a anunciar uma ofensiva militar punitiva, mas acabaram aceitando a solução diplomática oferecida pela Rússia: o ataque seria suspenso com o compromisso da Síria em destruir suas armas químicas. O plano deu certo, e Assad ganhou uma sobrevida no poder.

Diante de todas essas ameaças, é surpreendente o fato de Assad ainda sustentar o seu regime. Mas dois fatores centrais explicam a permanência do ditador sírio. Em primeiro lugar, o regime beneficiou-se, por trágica ironia, do crescimento do EI, que fez acender a luz de perigo para as grandes potências. Houve uma mudança de foco, e a estratégia da coalizão ocidental passou a privilegiar a contenção do grupo terrorista, deixando para uma etapa posterior a questão da retirada de Assad do poder.

O segundo motivo, mais determinante, foi a intervenção militar da Rússia em defesa de Assad. Em setembro de 2015, o governo russo iniciou ataques aéreos dirigidos ao território da Síria, oficialmente contra as posições do EI – mas não só. Os bombardeios russos tinham como alvo principal os rebeldes moderados anti-Assad, justamente aqueles que são apoiados pelos EUA e as potências ocidentais. Obviamente, essas ações militares foram condenadas pelo governo norte-americano, para quem o foco dos ataques deve ser o EI e não ajudar Assad.

A relutância dos EUA

Além das divergências com a Rússia, os EUA têm um problema adicional: a avaliação segundo a qual o principal perigo imediato é o EI não é compartilhada por alguns de seus principais parceiros. A começar pela já mencionada Turquia, cujos principais inimigos são os guerrilheiros curdos do Partido dos Trabalhadores de Curdistão, o PKK. Já no entendimento de Arábia Saudita e Israel, a ação do Irã na Síria é mais perigosa que a do EI.

Outro problema é que parceiros estratégicos dos EUA, como França, Reino Unido, Alemanha, Turquia e Arábia Saudita, revelam-se incomodados com o que acreditam ser uma postura omissa do governo de Barack Obama, que teria aberto espaço para a ofensiva russa. O país está destruído, mas as tropas de Assad, apoiadas por iranianos e pelo Hezbollah, e tendo como retaguarda os fortes bombardeios da Rússia, conquistou posições importantes.

Obama, porém, mostra-se muito resistente ao envio de tropas para combates terrestres. Na verdade, o governo norte-americano teme que uma intervenção direta na Síria cause o mesmo efeito produzido na invasão ao Iraque em 2003: uma rebelião de diversos grupos contra a ocupação estrangeira e a permanência prolongada das tropas dos EUA no país. Por ora, os norte-americanos procuram manter os bombardeios aéreos e engajar ao máximo possível os seus aliados europeus ou locais – principalmente os curdos – num compromisso mais direto de combates no terreno. No meio dessa falta de entendimento entre as potências estrangeiras, Assad vai estendendo sua longevidade à frente da ditadura síria.

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Frágil cessar-fogo

Com a resistência de Assad e a prolongação de um sangrento conflito, os atores envolvidos na guerra passaram a se empenhar em uma solução diplomática. O Conselho de Segurança da ONU aprovou, em dezembro, uma resolução prevendo negociações no início de 2016 entre o governo sírio e os rebeldes, sem a participação de grupos e indivíduos considerados “terroristas”, caso do EI e da Frente Al-Nusra. O processo de paz seria precedido de um cessar-fogo e conduziria, entre outros pontos, a um governo transitório e eleições no prazo de 18 meses. Foi a primeira vez que a Rússia aceitou um documento desse tipo. O país não concorda, porém, com a saída de Assad do poder como condição para as negociações, como defendem grupos rebeldes de oposição.

Mas as negociações nem chegaram a começar de fato. O aumento dos bombardeios russos, principalmente na cidade de Aleppo, levou à suspensão por três semanas das discussões, previstas inicialmente para o começo de fevereiro. Somente nos primeiros dez dias do mês, os ataques russos provocaram mais de 500 mortes em Aleppo.

Apesar das dificuldades, no fim de fevereiro entrou em vigor um cessar-fogo na Síria, em um acordo costurado por EUA e Rússia. A pausa nas hostilidades tem como principal objetivo a entrada de ajuda humanitária no país. Continuariam apenas as ações contra o EI e a Frente Al-Nusra. No entanto, poucas horas após o início do cessar-fogo, o governo sírio e os grupos rebeldes já trocavam acusações de que o outro lado havia violado a trégua.

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O drama dos refugiados

O atendimento às vítimas da guerra e a criação de um corredor para a entrada de ajuda humanitária são ações consideradas prioritárias pelas grandes potências para tentar minimizar o sofrimento da população síria. Nestes cinco anos de violência ininterrupta, quase metade dos habitantes do país abandonaram seus lares, tornando-se deslocados internos  ou refugiados em diversos países.

Apesar de a crise dos refugiados atingir a Europa com força neste ano, as pessoas que fugiram da guerra na Síria dirigiram-se principalmente para cinco países do Oriente Médio: Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito, que receberam pelo menos 4,3 milhões de pessoas desde o início da crise. Essas nações concentram 95% dos refugiados sírios e demandam muito mais assistência dos serviços públicos do que ocorre atualmente na Europa.

Nesses países que fazem fronteira com a Síria, há sérios problemas para garantir as necessidades básicas dos refugiados, como alimentação, abrigo e ensino para as crianças. A gravidade da situação tem levado a uma mudança de posição dos governos dessas nações. No Líbano, onde o total de sírios refugiados, superior a 1 milhão, equivale a 25% da população total, entraram em vigor em 2015 novas exigências para os estrangeiros que chegam, como o pagamento de uma taxa para a obtenção de uma autorização de permanência – válida por no máximo um ano. A Jordânia, segundo o rei Abdullah Ibn Al-Hussein, está “em ponto de ebulição”, já que os sírios refugiados equivalem a 20% da população jordaniana, e o país não tem condições de assegurar serviços públicos aos que chegam.

A pressão é grande também na Turquia, país que se tornou o principal destino dos refugiados – mais de 2 milhões de sírios cruzaram a fronteira entre os dois países. A Turquia disponibiliza mais de 20 campos de refugiados, mas os abrigos são insuficientes para atender a todos os migrantes sírios, e muitos deles estão sem nenhuma assistência. A situação preocupa a União Europeia (UE), pois a maioria dos refugiados que chega à Turquia tem como destino final nações europeias como Alemanha e Áustria. Por isso, os líderes da UE fecharam um acordo em novembro com a Turquia para o país melhorar as condições dos abrigos e ampliar a permissão de trabalho aos sírios.

IRÃ X ARÁBIA SAUDITA

No tabuleiro complexo que é o Oriente Médio, a guerra na Síria afeta o equilíbrio de poder entre dois países-chave da região. A Arábia Saudita e o Irã estão em lados opostos no conflito sírio e também alimentam divergências no que se refere à disputa pelo poder regional e à religião muçulmana. Os sauditas são guardiões das tradições sunitas, e seu regime apoia-se numa forma de fundamentalismo (o wahabismo) considerado inspirador de grupos terroristas como Al Qaeda e EI. O Irã é uma república islâmica também aferrada a fortes tradições conservadoras, mas no âmbito dos xiitas. Há também razões. econômicas que dão sustentação a essa rivalidade entre sauditas e iranianos: ambos os países estão entre os grandes produtores mundiais de petróleo.

Por isso mesmo, o acordo histórico que as potências fecharam com o Irã em 2015, pelo qual o governo iraniano concordou em limitar drasticamente seu programa nuclear, em troca da suspensão das sanções econômicas que pesavam contra si, foi mal recebido pelo regime saudita. O Irã, considerado desde a Revolução islâmica de 1979 um pária na comunidade internacional, por supostamente apoiar grupos terroristas e buscar a fabricação de armas nucleares (o que o regime sempre negou), foi reintegrado ao sistema global e terá acesso a cerca de 100 bilhões de dólares que estavam congelados. Em termos políticos, poderá ampliar sua influência na diplomacia internacional e seu poder regional.

Já o regime saudita é um dos mais autoritários e fechados do mundo. Seu sistema judiciário prevê, entre as penalidades, chibatadas e decapitação. Em janeiro, a execução de 47 pessoas acusadas de terrorismo, entre as quais um respeitado clérigo xiita, motivou fortes protestos no Irã. Manifestantes invadiram a embaixada saudita na capital iraniana, Teerã, e incendiaram o edifício, atitude criticada pelo governo iraniano. O episódio foi a gota d’água para que a Arábia Saudita rompesse relações diplomáticas com o Irã.

As execuções realizadas pelos sauditas receberam dos EUA e das potências uma condenação em termos brandos. O fato de os sauditas serem grandes produtores de petróleo, aliados dos ocidentais e com enormes investimentos no mercado financeiro mundial explica, segundo analistas, essa posição. Tradicionalmente, os governos norte- americanos mantêm relações estreitas com o regime saudita.

Dada essa rivalidade regional, o conflito na Síria não deixa de ser uma guerra indireta entre sauditas e iranianos. Mas essa é apenas uma das formas de enxergar a crise. Também é possível analisar a guerra sob o prisma da disputa entre Rússia e EUA, que tentam manter seus interesses estratégicos no Oriente Médio. Ou, ainda, como uma luta interna entre o regime de Assad contra as milícias sunitas e as organizações terroristas. Por causa de toda essa rede de interesses, é muito difícil encontrar uma solução rápida e duradoura. Enquanto isso o conflito na Síria continua matando milhares de pessoas e é foco do maior desafio à segurança mundial nos últimos anos.

 

PRIMAVERA ÁRABE, CINCO ANOS DEPOIS

No início de 2011, uma onda de revoltas varreu vários países do Oriente Médio e do norte da África. Milhares de pessoas, sobretudo jovens, foram às ruas apresentando reivindicações muito concretas, como democracia, liberdade de expressão e justiça social. Estava deflagrada a Primavera Árabe.

Essas revoltas encheram de esperança a população árabe num primeiro momento. Em poucos meses, longevos ditadores foram derrubados. Entre janeiro e outubro caíram os presidentes da Tunísia, do Egito, do Iêmen e da Líbia – neste último, o ditador Muammar Kadafi foi morto por um cerco popular. As revoltas também atingiram países como Barein, Arábia Saudita, Marrocos e a própria Síria.

Mas, passados cinco anos, o que se vê é um quadro de desagregação nesses países. No Egito, um governo eleito, dirigido pelos islâmicos vinculados à organização Irmandade Muçulmana, foi derrubado pelos militares. O atual presidente é o ex-marechal Abdel Fatah Al-Sisi, que dirige um regime dominado pelo Exército e considerado tão ou mais autoritário que o de antes da Primavera Árabe. O Iêmen não conseguiu concluir o processo de transição política. O país está mergulhado em um conflito interno e assiste à expansão de organizações terroristas em seu território.

Na Líbia, a situação é ainda pior. A queda de Kadafi gerou um vácuo de poder, fomentando a disputa entre diversas milícias. Essa desagregação levou à formação de dois governos após as eleições de 2014, que disputam a legitimidade de falar em nome do país. Não por acaso, o EI se aproveitou da situação para também se instalar no território líbio, em torno da cidade portuária de Sirte.

Pelo menos na Tunísia a transição democrática foi bem-sucedida. O país é visto como um caso exemplar ao promover eleições diretas, aprovar a Constituição mais progressista do mundo árabe e ter um governo eleito. Apesar disso, a nação enfrenta dificuldades, como o elevado desemprego entre os jovens, que ainda gera protestos.

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