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A imensidão do mundo muçulmano: a história da religião

A ação de grupos fundamentalistas que dizem agir em nome do islã alimenta distorções sobre a segunda crença mais popular do planeta

RESUMO

Estado Islâmico: O EI é considerado o grupo extremista islâmico mais poderoso da história. Seu crescimento aproveitou-se da situação de caos no Iraque e na Síria. Na região que ocupou, o EI atua como se fosse um verdadeiro Estado, com rígidas leis inspiradas numa interpretação fundamentalista do islamismo, e métodos cruéis, como execuções por decapitação ou açoitamento.

Síria: A guerra civil na Síria é a maior crise humanitária deste século. Além de pelo menos 250 mil mortes, 11 milhões de sírios tiveram de sair de suas casas. Grupos rebeldes, apoiados pelas grandes potências, lutam desde 2011 para derrubar o ditador Bashar Al-Assad, que tem o apoio da Rússia, do Irã e do grupo libanês Hezbollah. A participação do EI e de milícias curdas tornam o conflito ainda mais complexo.

Coalizão: Os Estados Unidos (EUA) lideram uma coalizão de mais de 40 países, que realiza bombardeios aéreos contra bases do EI. Como os conflitos na Síria e o avanço do grupo extremista estão entrelaçados, as potências não conseguem chegar a um consenso sobre a melhor estratégia de combate, pois há interesses divergentes entre os principais atores.

Intervenção ocidental: As interferências das potências no Oriente Médio, especialmente após a I Guerra Mundial, alimentaram um sentimento antiocidental entre as nações muçulmanas. O Acordo Sykes-Picot (1915-1916) criou fronteiras artificiais na região, o que acirrou as disputas internas. Posteriormente, a criação de Israel, a Revolução Islâmica no Irã e as operações militares dos EUA no Iraque desestabilizaram ainda mais o Oriente Médio.

Islamismo: Com 1,8 bilhão de adeptos, o islamismo é uma religião monoteísta, baseada nos ensinamentos de Maomé (570-632). Os muçulmanos se dividem em duas grandes vertentes: os sunitas e os xiitas. Divergências entre os dois grupos provocam conflitos regionais, insuflados por disputas políticas. A atual onda fundamentalista no islã tem base nos preceitos wahabitas difundidos pela Arábia Saudita.

Nos últimos anos, a imagem do islamismo ficou muito associada a estereótipos do terrorismo, da intolerância e da repressão aos direitos individuais. Essa visão deturpada é consequência da atividade de grupos violentos como a Al Qaeda e o Estado Islâmico (EI), que dizem basear seus atos brutais no Islã. 

Ao escolher o caminho do fundamentalismo para disseminar sua interpretação radical das mensagens consideradas sagradas pelos muçulmanos, essa minoria barulhenta acaba silenciando outras tendências da religião – uma expressiva maioria que repudia os atos de violência. 

Ainda que essa pequena fração fundamentalista ganhe os holofotes da mídia, ela não representa toda a diversidade de uma comunidade formada por 1,8 bilhão de adeptos do islamismo. É a segunda crença mais popular, depois do cristianismo, que tem 2,4 bilhões, e seus seguidores aumentam numa velocidade maior do que a religião de Cristo. 

Estimativas produzidas pelo Centro de Pesquisas Pew apontam que até o final do século existirão mais muçulmanos do que cristãos, se o crescimento do número de adeptos se mantiver no ritmo atual.

Ao longo de seus quase 14 séculos de existência, o islamismo exerceu grande influência, não apenas na esfera religiosa, mas nos campos da política, da economia e das relações internacionais. Uma de suas principais características é abranger não apenas um corpo de crenças, mas orientações que influenciam toda a vida social de seus praticantes.

Rápida expansão

O islamismo, ou islã, cujos seguidores são conhecidos como islâmicos ou muçulmanos, é uma religião monoteísta baseada nos ensinamentos de Mohamed (570-632), chamado no Ocidente de Maomé, que nasceu e viveu onde atualmente se situa a Arábia Saudita. Aos 40 anos, Maomé passou a ter visões e ouvir vozes, que atribuiu ao anjo Gabriel, trazendo-lhe a revelação da palavra de Deus (Alá). Posteriormente, essas mensagens foram consolidadas num livro, o Alcorão.

O Alcorão é livro sagrado dos muçulmanos e carrega uma série de ensinamentos e códigos que devem ser seguidos pelos praticantes do Islã, sendo a base da religião. Ele está dividido em 114 capítulos (suras), que são subdivididos em versículos (ayat). A oração diária consiste na leitura de capítulos e versículos em voz alta. 

Vale lembrar que muitos dos personagens que estão no Alcorão também estão na Bíblia (cristianismo), mesmo que com histórias e representações diferentes. Jesus, Maria, Abraão, Moisés, Adão e Eva são alguns dos exemplos. 

Em 622, Maomé partiu de Meca, sua cidade natal, rumo a Medina. Esse movimento, conhecido como Hégira (ou migração), é um dos elementos constitutivos do islamismo, já que marcou o início do Islã e do calendário islâmico. Em Meca, Maomé era perseguido e ameaçado de morte por pregar a existência de um único Deus (Alá), uma crença que ia contra os costumes politeístas da região.

Conquistando adeptos rapidamente, Maomé, chamado pelos seguidores de profeta, tornou-se não apenas o chefe religioso, mas o governante político e comandante militar de Medina. Os novos fiéis dispuseram-se a realizar uma guerra santa de expansão do islã, que se espalhou por todas as regiões da Arábia. Antes de morrer, em 632, o profeta conseguiu conquistar territórios em pequenas jornadas até conseguir estabelecer seus ideais em toda a região da qual havia fugido anos antes. Esta expedição de retorno à Meca terminou com a conquista da cidade por seus seguidores.

Após a morte de Maomé, exércitos comandados por seus sucessores invadiram territórios vizinhos e em menos de um século formaram um grande império, o califado. O dirigente do novo império era o khalifa (califa), o representante de Maomé após a sua morte. Ao longo da história, os muçulmanos constituíram três grandes califados ou impérios: Omíada (661-750), Abássida (750-1258), Otomano (1281-1922). 

O fim do Império Otomano marcou o encerramento do predomínio muçulmano como força política unificada de uma ampla região do planeta. Apenas várias décadas depois, o Estado Islâmico, composto majoritariamente por islâmicos, formaria um novo califado no território da Síria e do Iraque. O território independente teve vida curta: surgiu em 2014 e foi desmantelado em 2019.

Sunitas e xiitas

Os muçulmanos dividem-se em uma pluralidade de correntes, mas duas grandes vertentes são as principais: os sunitas (cerca de 90%) e os xiitas (10%). A origem dessa divisão remonta à disputa pela sucessão de Maomé à frente do islã. Após a sua morte, duas tendências se manifestaram. 

A minoritária defendia que o sucessor fosse alguém da família do profeta – Ali, primo e genro de Maomé, era quem liderava essa corrente. Já a outra tendência entendia que qualquer muçulmano poderia ser o escolhido, desde que fosse da tribo de Maomé – o clã dos coraixitas – e aceito pela comunidade.

Este último grupo que defendia uma eleição entre seus seguidores acabou se impondo, e Abu Bakr, amigo de Maomé, tornou-se o califa, em 632. Seguiram-se outros dois califas (Omar e Otman) até Ali, o primo de Maomé, assumir o poder, o que alterou o sistema sucessório em favor de seu grupo e desencadeou uma guerra civil dentro do islã. Ali foi morto em 661, abrindo espaço para que Muawiyya se tornasse califa, iniciando a primeira dinastia califal, a dos omíadas.

A maioria dos árabes aceitou a pacificação sob seu comando. Mas os seguidores de Ali consideravam Muawiyya um usurpador e formaram o Partido de Ali (Shiat Ali), que é a origem dos xiitas. O segundo filho de Ali, Hussein, liderou uma rebelião contra Yazid, filho e sucessor de Muawiyya, mas foi facilmente derrotado. Isso consolidou o poder dos omíadas, que se tornaram os seguidores da tradição (sunna), ou sunitas.

Geopolítica e religião

Durante séculos, as rivalidades se assentaram, e as duas alas do islamismo conviveram em relativa paz. Em boa medida, as divergências mais recentes têm a ver com a Revolução Iraniana, vitoriosa em 1979, que levou os xiitas ao poder. A ascensão política do Irã foi vista como uma ameaça à hegemonia regional da Arábia Saudita, guardiã das tradições sunitas na região.

Mais do que um grande conflito sectário, o atual antagonismo entre xiitas e sunitas está mais ligado a disputas geopolíticas. Na verdade, a rivalidade é alimentada menos pela imposição de uma vertente religiosa sobre a outra; trata-se mais de uma disputa por poder local e regional. 

Nessa estratégia, os governantes acabam insuflando o ódio religioso para atingir seus objetivos políticos – seja o controle do poder local, a expansão da influência regional ou a distribuição das riquezas nacionais para o seu grupo de apoio. É o que tem acontecido em países como Síria, Iraque, Líbano, Barein e Iêmen. A interferência estrangeira, especialmente das potências ocidentais, também exerce papel decisivo neste cenário.

O fundamentalismo wahabita

A atual onda fundamentalista no islã tem origem em algumas correntes dentro do sunismo que pregam uma interpretação rigorosa e literal do Alcorão. O salafismo e o wahabismo são as expressões mais ativas dessas tendências.

Salafismo, que vem da expressão alsalaf, ou seja, os predecessores, designa de forma genérica essa linha de interpretação, enquanto wahabismo diz respeito diretamente ao movimento criado pelo teólogo Mohammed ibn Abd al-Wahhab, no século XVIII, em aliança com o clã dos Saud – que formaria uma dinastia responsável pela reunificação árabe na Arábia Saudita, em 1932. 

Os wahabitas passaram a ter grande influência na Arábia Saudita. A família Saud detinha o poder político e econômico, enquanto os clérigos wahabitas passaram a controlar a educação e o sistema judiciário.

Com a influência regional e internacional obtida com a riqueza do petróleo, os sauditas difundiram esses princípios em vários países. As monarquias da Arábia Saudita e do Catar teriam gasto, desde a década de 1970, cerca de 3 bilhões de dólares por ano para financiar a construção de madrassas, universidades, mesquitas e outras instituições, para difundir o wahabismo pelo mundo. 

As potências ocidentais não se opuseram a essa ação, porque os dois países são seus aliados e mantêm inúmeros negócios – em particular a venda de petróleo e a compra de armas – que ajudam a movimentar a economia norte-americana e de várias nações europeias.

Os preceitos wahabistas inspiraram diversos grupos terroristas que dizem combater em nome do islã. O fortalecimento dessa corrente ganhou grande impulso na invasão do Afeganistão pela União Soviética, em 1979. Diversos grupos e militantes inspirados no wahabismo lutaram no país, com apoio ocidental. Foi o caso de Osama Bin Laden, que futuramente dirigiria a Al Qaeda.

Na atual crise envolvendo o extremismo islâmico no Oriente Médio, Catar e Arábia Saudita são acusados de financiar e armar grupos fundamentalistas que se opunham ao regime sírio, mas posteriormente juntaram-se ao EI, levando consigo as armas e o dinheiro.

Jihad e Sharia

Entre as interpretações literais que o wahabismo faz dos textos sagrados, a mais polêmica diz respeito à jihad, traduzida em geral por “guerra santa”. Este sentido de conotação mais militar se impôs, mas não corresponde ao que está contido no Alcorão. Literalmente, jihad é “esforço ou empenho em favor de Deus”. Pode referir-se à disciplina da transformação interior, contra os próprios erros ou os da comunidade (grande jihad) ou à guerra de conversão dos infiéis (pequena jihad).

A interpretação literal das normas contidas no Alcorão também deu origem à sharia, que pode ser traduzida por “o caminho certo”. Trata-se do código legal islâmico, que estabelece regras a serem obedecidas na vida em sociedade. Sua consolidação data do século IX, quase 250 anos depois da morte de Maomé. Isso explica muitas das contradições apontadas por especialistas entre o Alcorão e a sharia. 

O Alcorão por exemplo, diz que há igualdade entre homens e mulheres, enquanto a sharia afirma que a mulher é inferior e deve cobrir-se. A sharia abrange todos os aspectos da vida do muçulmano – as regras familiares, a sexualidade, os hábitos alimentares, as obrigações religiosas e as práticas econômicas e políticas. 

De modo geral, são normas restritas à esfera privada e pessoal dos muçulmanos. Mas em estados religiosos, como a Arábia Saudita, ela é instituída como sistema de lei, podendo ser aplicada pelas cortes de justiça. Dessa forma, crimes como o adultério, o roubo e a ingestão de bebidas alcoólicas podem ser punidos com amputações, chibatadas e até mesmo a morte.

Em muitos países de maioria muçulmana, especialmente nos que adotam a sharia institucionalmente, existem restrições às liberdades democráticas e desrespeito aos direitos humanos. No entanto, há uma grande diferença dessas nações para a situação da Turquia e da Indonésia, por exemplo.

Ainda que a democracia nessas nações enfrente desafios, são Estados de maioria muçulmana em que as instituições são seculares (separadas da religião) e que realizam eleições regulares. 

Da mesma forma, apesar de o fundamentalismo islâmico ser uma ameaça à segurança internacional, a imensa maioria da comunidade muçulmana abomina o terrorismo e prega a tolerância. São exemplos que mostram como algumas generalizações simplistas não traduzem a realidade e ignoram a diversidade da sociedade muçulmana.