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Entenda o Estado Islâmico, o grupo extremista que aterrorizou o mundo

No auge, entre 2014 e 2017, o grupo extremista conduziu ataques nos Estados Unidos, na Europa, no Oriente Médio e na África, e chegou a dominar um território autônomo formado por áreas da Síria e do Iraque

No auge, entre 2014 e 2017, o grupo extremista conduziu ataques nos Estados Unidos, na Europa, no Oriente Médio e na África, e chegou a dominar um território autônomo formado por áreas da Síria e do Iraque

RESUMO

O que é: O Estado Islâmico é um grupo jihadista que surgiu como um braço da Al-Qaeda, organização terrorista criada por Osama Bin Laden. Desde 2014, passou a atuar por conta própria, com o objetivo de instituir um califado, ou seja, dominar um território onde possa instaurar um governo seguindo as leis islâmicas.

O que fez: O grupo extremista expandiu sua zona de atuação após 2014 e começou a realizar ataques terroristas desde os Estado Unidos até a África. Os atentados de maior escala do EI aconteceram na Europa e no Oriente Médio, onde o grupo chegou a tomar boa parte do território da Síria e do Iraque para formar um califado. Hoje, estes locais já foram retomados, mas ainda são habitados por milhares de combatentes do Estado Islâmico.

Importância: O Estado Islâmico protagonizou atentados brutais, como o ataque com mais vítimas fatais já conduzido em Paris desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ainda é considerado, principalmente no Ocidente, um grupo com potencial para realizar atentados de grande porte.

Os principais atentados (2015-2019)

A noite de 13 de novembro de 2015, uma sexta-feira, não será esquecida em Paris tão cedo. Surpreendidas quando se divertiam em uma região de bares e restaurantes, dezenas de pessoas sofreram um ataque brutal, o mais mortífero  na capital francesa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em ação coordenada, terroristas posteriormente identificados como integrantes do grupo Estado Islâmico (EI) atiraram a esmo ou se explodiram, provocando a morte de 130 pessoas, a maioria na casa de shows Bataclan. Disparos atingiram outras vítimas em mais quatro locais. Além das mortes, pelo menos 352 pessoas ficaram feridas.

O Bataclan, na França, foi o local de um dos atentados mais mortíferos provocados pelo Estado Islâmico, deixando 130 mortos
O Bataclan, na França, foi o local de um dos atentados mais mortíferos provocados pelo Estado Islâmico, deixando 130 mortos Florencejeux/Wikimedia Commons

Em declaração oficial, o EI reivindicou a autoria da ação. Para analistas, tratava-se de uma retaliação contra o papel desempenhado pela França nos ataques aéreos na Síria e no Iraque, países nos quais o EI ocupava vastos territórios. A França era a mais constante aliada dos Estados Unidos (EUA) na guerra contra o grupo.

Não foi a única ação do EI em 2015. A facção assumiu também a autoria do atentado a bomba que derrubou um avião russo da companhia Metrojet, em 31 de outubro, no Egito, causando a morte das 224 pessoas a bordo. Em Beirute, no Líbano, um ataque com homens-bomba, em 12 de novembro, matou 44 pessoas, em outra iniciativa do grupo. 

Nos EUA, em 2 de dezembro, um casal, supostamente vinculado ao EI, atacou a tiros um centro de tratamento de pessoas com deficiência, na Califórnia, matando 14 pessoas. O EI realizou, diretamente ou por intermédio de grupos associados, outros ataques na Tunísia, na Nigéria, na Turquia e na Indonésia. Esses atentados marcaram uma mudança na estratégia da organização, que ampliou o seu raio de ação, anteriormente limitado ao Oriente Médio.

A Europa continuou sendo um grande alvo do Estado Islâmico em 2016. Em março daquele ano, a organização reivindicou a autoria do ataque a Bruxelas, na Bélgica. Os atentados no Aeroporto Internacional de Zaventem e à estação de metrô Maelbeek deixaram 32 mortos e mais de 300 feridos. 

A França, principal alvo europeu do grupo em 2015, sofreu um novo atentado em 14 de julho, quando um caminhão avançou na direção de pedestres na Promenade des Anglais, em Nice, durante celebração do Dia da Bastilha. O ato terrorista deixou 84 mortos e dezenas de feridos. O EI afirmou que o motorista era um de seus soldados. Em dezembro, 12 pessoas foram mortas e cerca de 50 ficaram feridas em um ataque do mesmo estilo, com um caminhão, que invadiu um mercado de Natal em Berlim, na Alemanha. O Estado Islâmico assumiu responsabilidade pelo ato.

Em 2017, um dos países que mais sofreu com investidas terroristas da organização foi o Reino Unido. Foram três ataques. O primeiro, em março, deixou cinco mortos e 40 feridos. As vítimas foram atropeladas por um homem que avançou com o carro pela ponte Westminster e só foi parado próximo à entrada do Parlamento Britânico, em Londres. Ele ainda esfaqueou um policial ao sair do veículo.

O Palácio ao fundo foi palco de um dos ataques orquestrados pelo Estado Islâmico na Inglaterra em 2017. O atentado começou na Ponte Westiminster, à direita
O Palácio ao fundo foi palco de um dos ataques orquestrados pelo Estado Islâmico na Inglaterra em 2017. O atentado começou na Ponte Westiminster, à direita Diliff/Wikimedia Commons

No dia 22 de maio, um jovem britânico de 22 anos explodiu uma bomba na saída da Manchester Arena, na cidade de Manchester, onde a cantora Ariana Grande tinha se apresentado. O atentado deixou 22 mortos e 115 feridos. Alguns dias depois, em junho, três homens avançaram com uma van na direção de pedestres novamente em Londres, ao lado da London Bridge, e depois invadiram o Borough Market a pé. Eles esfaquearam inocentes antes de serem detidos e mortos pela polícia local. Os terroristas mataram sete pessoas e feriram outras 48. 

A região de La Ramblas, em Barcelona, também passou por um ato parecido, que, junto com a explosão de um carro-bomba em Cambrils, na Catalunha, deixou cerca de 140 vítimas, sendo 16 fatais. O EI se responsabilizou pelo acontecimento.

Em 2018, a minoria xiita foi a mais afetada pelas ameaças violentas do grupo extremista. Em ação para tentar destruir células adormecidas do Estado Islâmico, 27 combatentes xiitas foram assassinados pelo grupo radical no Iraque. Cabul, capital do Afeganistão, sofreu muitos ataques de homens-bomba durante o ano, deixando diversas vítimas. Alguns dos alvos foram o escritório do Serviço de Inteligência, um centro de registro eleitoral em um bairro predominantemente xiita e um centro educativo. 

Em um mesmo fim de semana, em maio, Indonésia, Afeganistão e França enfrentaram investidas terroristas do EI. Em dezembro, o Ministério das Relações Exteriores da Líbia foi atacado em Trípoli, deixando três mortos, incluindo um diplomata. O Estado Islâmico reivindicou todos estes atos.

O ano de 2019 marcou o fim do  suposto califado, mas os ataques não cessaram. As Forças Democráticas Sírias (FDS), com a ajuda de outros países, retomaram o último reduto em domínio do grupo extremista, a região de Baghuz. O anúncio oficial da vitória contra o Estado Islâmico veio através de um porta-voz do FDS e foi confirmado por líderes de Estado, como Donald Trump e Emmanuel Macron. 

No dia 25 de março, dois dias após o EI perder controle sobre seu antigo território, alguns membros atentaram contra as Forças Democráticas Sírias em Manbij, no norte da Síria.

O grupo, mesmo desmantelado, seguiu cometendo atentados em grandes eventos. Durante a Páscoa, no Sri Lanka, o número de mortos chegou a 359 após ataques a bomba em igrejas e hotéis que estavam lotados para a celebração. No quarto dia do Ramadã, em maio, o grupo terrorista reivindicou um atentado à capital do Iraque, Bagdá, matando oito pessoas. Ainda houve ataques no Afeganistão, que deixou 63 mortos e 180 feridos durante um casamento, no Tadjiquistão e mais um em Londres.

A Guerra ao Terror

Com um vasto território que abrangia áreas do Iraque e da Síria, um enorme poder de mobilização e uma eficiente capacidade operacional, o EI chegou a ser considerado a organização extremista mais poderosa e bem-sucedida da história. Sua ascensão está diretamente associada à política de “Guerra ao Terror” implementada pelo então presidente norte-americano George W. Bush (2001-2009) como resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001 cometidos pela Al Qaeda, a rede terrorista de Osama bin Laden.

Osama bin Laden é o fundador da Al-Qaeda, que deu origem ao Estado Islâmico
Osama bin Laden é o fundador da Al-Qaeda, que deu origem ao Estado Islâmico HO/Scanpix/Wikimedia Commons

A ocupação do Iraque como parte da ofensiva dos EUA contra o terrorismo, entre 2003 e 2011, teve como um dos principais efeitos colaterais o surgimento de um movimento local contra a invasão norte-americana. Nesse contexto, surgiram diversas milícias que contestavam a presença das tropas dos EUA. Uma delas era a Al Qaeda do Iraque  (AQI ou Isil, em inglês), uma filial da rede de Bin Laden. Criada em 2004, essa organização daria origem ao Estado Islâmico (veja linha do tempo abaixo).

Imposição do califado

Nos anos seguintes à criação da AQI, o caos no Iraque e na Síria foi um terreno propício ao avanço do grupo:  enquanto no Iraque há uma sucessão de disputas políticas e conflitos sectários (entre sunitas e xiitas), a Síria vive desde 2011 um confronto entre grupos rebeldes, apoiados pelas potências ocidentais, e o regime do ditador Bashar Al-Assad. Aproveitando o vácuo de poder e de segurança nessas regiões, a organização foi ganhando força, com frequentes fusões e trocas de nome nesse percurso.

O ano de 2014 representou um marco na expansão do grupo. Em junho, o líder da organização Abu Bakr Al-Baghdadi proclamou a criação de um califado nos territórios ocupados sob a alcunha de Estado Islâmico e se autodenominou o califa (um líder espiritual investido de poder político). O califado é uma referência aos antigos impérios islâmicos surgidos após a morte do profeta Maomé – o último califado foi o Império Otomano, dissolvido em 1920. No entanto, este suposto califado carecia de legitimidade mesmo dentro do mundo árabe-muçulmano.

LINHA DO TEMPO PUBLICADA PELO GUIA DO ESTUDANTE EM 2016:

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Recrutamento de voluntários

No Iraque, o EI absorveu membros do antigo Exército de Saddam Hussein, desmantelado após a deposição do ditador, em 2003. Além disso, a população sunita passou a ser cada vez mais discriminada pelo governo pró-xiita, o que levou muitos a aderirem ao grupo fundamentalista.

As raízes doutrinárias do EI, em sua cruzada contra os infiéis, podem ser encontradas no wahabismo e no salafismo movimentos sunitas ultraconservadores e radicais difundidos pela Arábia Saudita. Mas a organização não é movida apenas pelo ódio religioso. Com a instituição do califado, o grupo pretendia criar uma nova ordem política no Oriente Médio e, a partir da conquista de novos territórios, um Estado genuinamente islâmico e uma sociedade livre dos costumes ocidentais.

EI, DAESH, ISIL ou ISIS? Nome é motivo de polêmica

O uso do nome Estado Islâmico (EI) para designar o grupo fundamentalista é objeto de discussão entre especialistas e governos que estão empenhados em combatê-lo. Como se trata de um grupo terrorista, e não de um verdadeiro Estado, muitos dizem que chamá-lo pela denominação que ele próprio se atribuiu seria legitimá-lo. Além disso, a vinculação islâmica é repudiada pela ampla maioria dos muçulmanos, que não se reconhecem nas ações do grupo.

Muitos governos, como o da França, utilizam o nome Daesh, que vem da contração de um de seus nomes anteriores (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) em árabe: Al-Dawla al-Islamiya fil Iraq wa’al-Sham. O termo, rejeitado pelo EI, é utilizado por inimigos do grupo porque o som lembra a palavra árabe que significa “destruidor”. Seu uso seria uma forma de desqualificar a organização.

Autoridades norte-americanas costumam usar a sigla Isil, equivalente em inglês do mesmo nome anterior, mas o próprio presidente Barack Obama e o secretário de Estado, John Kerry, já se referiram ao grupo pelo termo pejorativo Daesh. Existe, ainda, o termo Isis – uma tradução alternativa que significa Estado Islâmico do Iraque e da Síria.

O começo e o fim do califado do Estado Islâmico

A luta para destruir o autoproclamado califado do Estado Islâmico durou quase cinco anos. O avanço do grupo começou em 2014, quando tomou posse de diversas cidades importantes do Iraque (Mossul, Hawija e Rawa) e da Síria (Raqqa, Palmira e Deir Ezor). Em seu apogeu, em 2015, o Estado Islâmico chegou a controlar uma região de 215 mil quilômetros quadrados, tendo cerca de 12 milhões de pessoas sob seu comando.

A cidade de Raqqa, na Síria, sofreu um grande impacto durante a guerra no país, quando chegou a ser controlada pelo Estado Islâmico
A cidade de Raqqa, na Síria, sofreu um grande impacto durante a guerra no país, quando chegou a ser controlada pelo Estado Islâmico Mahmoud Bali - VOA/Wikimedia Commons

O crescimento do EI, principalmente após a proclamação do califado em 2014, levou os Estados Unidos a comandarem uma coalizão formada por cerca de 40 nações para realizar bombardeios aéreos contra bases da organização terrorista, ainda durante o governo Barack Obama. Os ataques começaram em setembro de 2014. Porém, o jogo começou a virar apenas em 2017, quando o grupo perdeu batalhas e territórios para a coalizão.

Com ruínas históricas e sítios arqueológicos, a cidade de Palmira, na Síria, precisou passar por dois processo de retomada para só então se ver livre da organização terrorista. O local, considerado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco, foi desocupado em 2016, mas voltou a ser comandado pelo EI no mesmo ano. O Exército da Síria anunciou a recuperação final da região em março de 2017. Infelizmente, templos, obras arquitetônicas e museus já haviam sido destruídos.

A segunda maior cidade do Iraque, Mossul, foi recuperada em julho de 2017 após uma longa batalha de nove meses. Em outubro, depois mais de quatro meses de combate, as Forças Democráticas Sírias e a coalizão liderada pelos EUA derrotaram o Estado Islâmico em Raqqa, na Síria. A cidade chegou a ser considerada a capital do califado e servia de local para as gravações dos vídeos de decapitações, que eram usados como propaganda.

Ainda em 2017, Deir Ezor e Abu Kamal, na Síria, foram libertadas, além de regiões das províncias de Ninawa e Al Anbar, na fronteira do Iraque. Com essas conquistas, o Iraque anunciou que estava livre do EI em dezembro de 2017. De fato, a conquista na faixa de fronteira minou a atuação do grupo e enfraqueceu ainda mais a operação do califado. 

Mas ainda era cedo para comemorar. A vitória final para retomar o território controlado pelo Estado Islâmico aconteceu somente em março de 2019, quando as FDS assumiram o controle de Baghuz, na Síria, e fincaram a bandeira amarela do movimento na cidade.

Parcialmente derrotado, o grupo continua ativo

Apesar da conquista, líderes de Estado ressaltaram que o episódio não podia ser considerado o fim do grupo terrorista; afinal, a organização ainda conta com milhares de combatentes e células adormecidas ao redor do mundo. 

A guerra entre o Estado Islâmico e dezenas de nações contrárias ao grupo, principalmente o EUA, também continua. Em abril de 2019, o líder da organização, Abu Bakr al-Baghdadi, apareceu em um vídeo após cinco anos longe das câmeras para confirmar a derrota na batalha pelo controle de Baghuz, afirmar que buscaria vingança e elogiar o ataque no Sri Lanka, feito pouco antes da divulgação do material.

Mas, em outubro de 2019, os EUA anunciaram a morte deste mesmo líder em uma operação militar americana na província de Idlib, na Síria, onde o califa teria se suicidado ao ser encurralado em um túnel.

Alguns dias depois, o EI confirmou a morte do antigo líder e anunciou Abu Ibrahim al-Hashemi al-Qurachi como seu sucessor, prometendo vingança. Com isso, os ataques terroristas continuam, mesmo que sem o planejamento da liderança do grupo, que muitas vezes não é a responsável pela organização dos atentados. Em algumas ocasiões, membros e/ou simpatizantes arquitetam as investidas por conta própria e, no final, o Estado Islâmico acaba reivindicando a autoria.

O momento do grupo extremista é de perda de posições estratégicas, mas isso não significa que o EI tenha perdido toda a capacidade de fogo: a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que ainda existem até 30 mil membros ativos do Estado Islâmico na região da Síria e do Iraque em 2020, além de outros simpatizantes e participantes em diversos outros países.

SAIU NA IMPRENSA

Aparato midiático expande alcance do Estado Islâmico

Diogo Bercito – Em Madri

A mensagem, citando normas do século 7º, pode parecer medieval. Mas o meio utilizado para divulgá-la é de uma modernidade tamanha.

A facção terrorista Estado Islâmico (EI) utiliza uma complexa estrutura de comunicação nas mídias sociais para divulgar seus vídeos de decapitação e destruição de patrimônio histórico na Síria e no Iraque (…).

Um relatório apresentado à ONU pelo pesquisador espanhol Javier Lesaca estima, por exemplo, que o EI tenha publicado mais de 920 campanhas audiovisuais em 22 meses, com o trabalho de 33 diferentes produtoras.

A estética, segundo Lesaca, é familiar ao público ocidental. Das gravações de execuções, quase metade foi inspirada em filmes como Jogos Vorazes e jogos eletrônicos como Call of Duty.

O EI tem forte presença em dezenas de plataformas virtuais. Seus militantes estão no Facebook, no Twitter, no Telegram, no WhatsApp e em aplicativos desenvolvidos pelos próprios terroristas. (…)

Governos e empresas de comunicação caçam esses terroristas on-line, mas o esforço necessário é hercúleo. (…)

Folha de S.Paulo, 31/1/2016