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Guia prático: O que não fazer

Usar fórmulas prontas, copiar trechos ou fazer plágio demonstram falta de autoria, podem tirar pontos e até zerar sua nota

É sabido por todos que, eticamente, “os fins não justificam os meios”. Ou seja, não é porque alguém quer ou precisa de algo que deve fazer por meios condenáveis para conseguir. Porém, muitos candidatos estão perdendo o senso do que isso significa em algumas situações. E isso está ocorrendo na prova de redação dos vestibulares e do Enem, nas quais há estudantes tentando superar suas dificuldades de escrita herdadas da formação básica fazendo um jogo sujo, que é decorar as redações dos outros para se dar bem na prova: plágio puro e simples.

Em maio deste ano, divulgamos em nosso site a comprovação disso: a descoberta de uma redação que tirou nota mil no Enem 2016, copiando duas outras redações. A autora decorou redações de que gosta, copiou o primeiro parágrafo da redação Abrindo as Cortinas, do professor de redação Rafael Cunha, do curso Descomplica realizada no Enem 2014, e divulgada no site do curso como exemplo de nota mil, e todos os demais parágrafos da redação Equilíbrio Aristotélico, do estudante Raphael de Souza, que tirou nota mil no Enem 2015 e foi publicada em nosso guia em 2016.

Conversamos com a autora da redação, ela disse ter muitas redações como modelo e aparentou não entender que havia feito algo condenável, tanto que a entregou para divulgação na internet.

Plagiar é igual a colar

Pode- se dizer que o plágio na redação equivale a colar nas demais provas. Isso porque a intenção das provas de redação é justamente o oposto disso: avaliar o quanto o estudante evoluiu em sua capacidade de entender o que lê e de se expressar, especialmente, e no gênero dissertação saber argumentar e defender idéias. Mais do que isso, ao solicitar a proposta de intervenção que respeite os direitos humanos, a prova do Enem quer avaliar a formação cidadã do candidato, o que inclui os significados de integridade ética e moral, saber o que não deve fazer, mesmo que possa fazer. Assim, no Enem, plagiar na redação pode ser um grave tiro no pé.

A presidente do Inep, Maria Inês Fini, considerou o episódio lamentável: “O Inep adotará as necessárias providências para dificultar esse tipo de atitude que impacta negativamente no desenvolvimento ético de nossa juventude e população adulta e nos critérios de justiça e transparência dos processos de acesso ao Ensino Superior no Brasil”. As regras da prova do Enem não permitem copiar frases ou trechos da coletânea, que são descontados para o cálculo do mínimo obrigatório de oito linhas.

Copiar versus plagiar

Copiar parece natural, já que desde a primeira infância copiamos até a fala das pessoas e seu sotaque. Em redação, é possível usar uma interpretação já feita, um recurso expressivo do qual gostamos, uma frase filosófica. Ao fazer isso estamos de certa forma, copiando, seja no sentido de termos aprendido algo ou de termos nos inspirado nele. Mas a cópia pura e simples é plágio, algo não aceito nas provas e na produção cultural e acadêmica. Muitos vestibulares deixam claro no enunciado o uso que aceitam do que está na coletânea e seguem essa mesma diretriz do Enem: as idéias expressas no texto são aceitas apenas enquanto paráfrase, ou seja, como releitura ou análise.

“Isso acontece por alunos que encaram a prova de redação como um problema a ser resolvido e querem uma resolução simples. Fazendo um paralelo, é como o aluno que não se interessa por um conceito de física e só quer saber logo qual a fórmula para resolver o problema”, opina Ivan Paganotti, professor do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, que condena a prática do uso de fórmulas prontas. A coordenadora pedagógica da plataforma de redações Imagine Bárbara Oliveira, também identifica a origem do plágio em método comum a cursinhos pré-vestibulares de utilizar fórmulas prontas ao trabalhar dissertação com os alunos. “Esse tipo de prática induz o aluno a utilizar estratégias lógicas em que ele apenas preenche as lacunas da fórmula com as informações pertinentes sobre o tema proposto. A partir da escolha de seu estilo de preferências de coesão, ele tende a utilizar sempre o mesmo modelo para tecer seus textos.”

É fato que a maioria dos professores trabalha uma mesma fórmula de boa dissertação, com quatro parágrafos, e que é um desafio ao professor de pré-vestibular tentar ajudar os estudantes a progredir em um curso tão curto. A coordenadora de redação do Curso Poliedro em São Paulo, Gabriela de Araújo Carvalho, afirma ser comum que os professores indiquem boas redações como exemplos para os alunos – mas que de forma alguma ela incentiva a cópia.

“Eu acabo recorrendo a uma estrutura bastante padrão, mostro vários textos acima da média para que entendam o que precisa ser feito. Mas eles acabam copiando, dá para identificar até de onde veio cada frase. A gente não incentiva isso e inclusive marca como plágio na correção”, diz.

Práticas arriscadas

O professor Yeso Osawa, do Curso Positivo de Curitiba, alerta para o risco de perder nota. “Não crie ou use partes prontas de textos, como um início ou um final. Um avaliador atento percebe claramente quando o discurso muda de tom, dá para sentir a artificialidade de certos trechos na argumentação.”

Um ex-corretor da prova do Enem que entrevistamos avaliou que “o plágio contemplado com nota é uma desmoralização do processo avaliativo”. Ele lembra que os avaliadores não têm condições objetivas de identificar cópias entre milhões de textos, mas, quando percebem, tiram pontos da competência. Outro ex-corretor afirma que o problema é abordado durante o treinamento prévio que eles recebem, com “um alerta sobre esse recurso de usar frases de pensadores ou trechos prontos”. “Existem casos em que uma mesma citação ou estrutura é repetida várias vezes, o que evidencia que partiram da mesma origem – nesses casos, é normal que o corretor faça uma busca e, se houver plágio, acabe punindo a nota do texto.”

A DIFERENÇA ENTRE CÓPIA E PARÁFRASE

Exemplo de trecho de uma coletânea: “A identificação genética do sexo masculino, o cromossomo Y, e do feminino, o cromossomo X, foi um avanço conseguido no século XX resultante dos estudos precursores de Gregor Mendel no século XIX”.

Uma paráfrase do texto: “Em um sentido mais estrito, ao conseguir desvendar e definir os gametas da reprodução humana, a Biologia estava simplesmente avançando no estudo genético iniciado com simples cultivos de ervilhas pelo pioneiro austríaco Gregor Mendel, um exemplo de amor à pesquisa”.

 

 

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