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A paz distante entre Israel e Palestina

Conflito é um dos principais focos de instabilidade no Oriente Médio há mais de 70 anos

RESUMO

Disputas milenares: A região onde hoje ficam Israel e a Palestina é alvo de disputas territoriais há pelo menos 3 mil anos. Os hebreus ocuparam parte desse território em diferentes momentos, ao longo do primeiro milênio antes de Cristo, mas desde o século 1 não mantinham mais terras na área. Essa situação só mudou no século 20.

Criação de Israel: A criação do estado de Israel, em 1948, deu início ao conflito entre judeus e árabes palestinos, que viviam na região do novo país. Após vencer uma guerra provocada por cinco países árabes, Israel ampliou seu território. Mais de 700 mil palestinos foram expulsos de suas casas e se tornaram refugiados. Atualmente, a população palestina refugiada soma quase 8 milhões de pessoas, que reivindicam o direito ao retorno a suas terras.

Acordos de Oslo: Os Acordos de Oslo (1993-1995), assinados entre palestinos e israelenses, com mediação dos Estados Unidos, traçaram a meta de dois Estados: um judeu (Israel) e um palestino, formado pela Faixa de Gaza e pela Cisjordânia, ambas ocupadas pelos israelenses em 1967. Nos últimos 20 anos, a perspectiva dos “dois Estados” guia as negociações de paz, até agora infrutíferas. Israel mantém uma política de criar assentamentos de colonos judeus na Cisjordânia e exige a desmilitarização do futuro Estado palestino, o que torna ainda mais complicada a concretização dos planos de Oslo.

Em maio de 2018, os Estados Unidos transferiram sua embaixada em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém. Era um sinal claro de apoio a Israel, que controla Jerusalém desde 1967, ainda que a Palestina demande para si a parte oriental da cidade – que seria transformada na capital de um futuro estado independente de nacionalidade árabe.

Israelense e palestina discutindo
Palestina e israelense discutem em Jerusalém, às vésperas da inauguração da embaixada dos EUA Lior Mizrahi/Getty Images

O gesto foi seguido pelo Paraguai, que meses depois, com a mudança na presidência, recuou. Outros países, como Brasil, Hungria e República Checa, abriram escritórios de representação comercial em Jerusalém, mas mantiveram suas embaixada em Tel Aviv. A polêmica em torno da simples decisão de mudar uma embaixada de cidade dá uma ideia da dimensão dos conflitos milenares que cercam a região.

Jerusalém abriga alguns dos locais sagrados mais importantes das três maiores religiões monoteístas do mundo, judaísmo, cristianismo e islamismo. Ali fica, por exemplo, a Esplanada das Mesquitas, que é chamada de Monte do Templo pelo judaísmo. Nessa área ficam a mesquita Al Aqsa e o Domo da Rocha, locais sagrados para os islâmicos (ou muçulmanos). O local também abriga o Muro das Lamentações, reverenciado pelos judeus. 

Desde 1967, apenas os muçulmanos podem orar no interior da Esplanada, segundo acordo fechado entre Israel e a monarquia da Jordânia, que administra o complexo. Os não muçulmanos podem visitar o local duas vezes por dia, sem orar nem portar símbolos religiosos.

Em 2015, uma série de conflitos foi desencadeado pelo rumor de que o governo de Israel pretendia modificar as regras de funcionamento da Esplanada das Mesquitas. Isso porque a extrema direita israelense vem realizando campanha aberta pelo direito de os judeus também rezarem no complexo. 

Com esse objetivo, representantes do grupo político passaram a visitar constantemente o local, acompanhados por forças de segurança de Israel. O temor de que houvesse alterações no local motivou atos de hostilidade de palestinos contra israelenses e provocou choques já em 2014.

Em setembro de 2015, a violência se ampliou, com novos enfrentamentos entre palestinos e a polícia. O governo de Israel, com primeiro ministro Benyamin Netanyahu à frente, anunciou medidas de repressão contra os manifestantes, mas os choques não cessaram. Israel negou a intenção de fazer as mudanças e acusou os dirigentes palestinos de insuflar seus liderados.

A violência foi contida. Mas, em 2018, quando da inauguração da embaixada americana, novos incidentes provocaram a morte de dezenas de manifestantes, que se manifestaram contra o gesto dos Estados Unidos. Uma manifestação na fronteira dos territórios palestinos com Israel deixou ainda 2700 feridos.

Violência contínua

Sempre que ocorrem incidentes como os de 2015 e 2018, muitos analistas esperam por uma terceira Intifada. Intifada em árabe significa “levante”. É o nome pelo qual ficaram conhecidos dois grandes movimentos de resistência contra a ocupação militar israelense, iniciados por jovens palestinos. O primeiro foi na Cisjordânia em 1987, e o segundo em 2000, na Esplanada das Mesquitas.

Em 2015 foram também adolescentes e jovens palestinos que enfrentaram os soldados de Israel, atirando coquetéis molotov e pedras. Alguns, armados de facas, tesouras e chaves de fenda, feriram ou mataram cidadãos israelenses. 

Essa situação é apontada como a consequência de décadas de negociações infrutíferas para pôr fim ao conflito na região. Os jovens, que já nasceram sob um ambiente de repressão, com a circulação dificultada por barreiras policiais e postos de checagem israelenses, tenderiam a expressar sua revolta de forma radical, não acreditando nas promessas de Israel e dos dirigentes palestinos.

Criação de Israel

O surto recente de violência é mais um capítulo deste longo conflito, cujo marco inicial é a criação do Estado de Israel, em 1948. O novo país, ao ocupar o território histórico da Palestina, desalojando milhares de árabes palestinos que ali viviam, criou uma situação de disputas com as várias nações árabes vizinhas.

Israel tem sua origem no sionismo (de Sion, colina da antiga Jerusalém), movimento surgido na Europa no século XIX, com objetivo de criar uma pátria para o povo judeu. Colonos judeus da Europa Central e Oriental, onde o antissemitismo (discriminação contra os judeus) era mais intenso, instalaram-se na Palestina, que tinha então população majoritariamente árabe.

O apoio internacional à criação de um Estado judaico aumentou, depois da II Guerra Mundial, ao ser revelado o genocídio de cerca de 6 milhões de judeus nos campos de extermínio nazistas, o Holocausto. Em 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a partilha da Palestina em dois Estados – um para os judeus, com 53% do território, outro para os árabes, com 47%. Estes últimos rejeitaram o plano.

Em 14 de maio de 1948, foi criado o Estado de Israel. Imediatamente, cinco países árabes – Egito, Síria, Transjordânia (atual Jordânia), Iraque e Líbano – enviaram tropas para impedir sua fundação. Com o respaldo de Estados Unidos (EUA) e União Soviética, Israel conseguiu derrotar esses exércitos, e a guerra se encerrou com um armistício assinado em janeiro de 1949.

Bandeira de Israel em Jerusalém
Bandeira israelense em Jerusalém, capital do Estado de Israel Stellalevi/iStock

O novo Estado ampliou seus domínios em relação às fronteiras originais aprovadas pela ONU. Com a vitória, Israel passou a ocupar 75% da Palestina, e mais de 700 mil árabes palestinos foram expulsos. Esses acontecimentos são lembrados até hoje por eles como a nakba, palavra árabe que significa “catástrofe”.

Ao fim da guerra, além da expansão de Israel, o Egito havia ocupado a Faixa de Gaza e a Transjordânia anexara Jerusalém Oriental e Cisjordânia (o nome do país passou a ser Jordânia). Com isso, os palestinos ficaram sem território, tornando-se refugiados na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e nos países árabes vizinhos, ou migrando para longe.

Em 1967, diante da aliança militar entre Egito, Síria e Jordânia, Israel, fortemente armado pelos EUA, atacou os três países na Guerra dos Seis Dias. Passou então a controlar a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, a Faixa de Gaza e a Península do Sinai (que seria devolvida ao Egito em 1982), além das Colinas de Golã, território da Síria ocupado até hoje.

Acordos de Oslo

Uma nova esperança para a resolução do conflito só viria nos anos 1990, com os Acordos de Oslo (1993-1995). Assinado pelo líder palestino Yasser Arafat e pelo primeiro-ministro israelense Ytzhak Rabin, a partir de mediação dos EUA, o tratado tinha como objetivo final o estabelecimento de dois Estados na região: um judeu (Israel) e um palestino, que seria formado por duas extensões de terras descontínuas – a Faixa de Gaza e a Cisjordânia.

Os acordos garantiram aos palestinos relativa autonomia na maioria da Faixa de Gaza e em parte da Cisjordânia, sob administração da recém-criada Autoridade Nacional Palestina (ANP), encarregada também de dar os passos rumo à organização do futuro Estado. Pela primeira vez, a direção palestina aceitava a existência de Israel, e passava a defender a constituição de um Estado seu em um território que abrange a menor parte da Palestina. Mas o processo é boicotado por grupos ultranacionalistas israelenses, que se opõem à devolução dos territórios aos palestinos.

Entraves nas negociações

Nos últimos 20 anos, essa perspectiva geral dos “dois Estados” é a que tem guiado as negociações de paz. Desde a assinatura dos Acordos de Oslo houve alguns avanços e muitos retrocessos. Os obstáculos mais difíceis de serem superados diziam respeito aos seguintes temas:

  • Assentamentos na Cisjordânia

Desde 1967, Israel passou a criar colônias judaicas na Cisjordânia, onde hoje vivem cerca de 400 mil judeus em mais de cem assentamentos, em meio a 2,9 milhões de palestinos. Israel instalou também colônias judaicas no setor oriental de Jerusalém, para justificar a soberania sobre a área.

Dessa forma, o governo israelense mantém a política de criar assentamentos nos territórios destinados ao futuro Estado palestino. Colonos israelenses instalam-se, expulsam os palestinos e formam povoações. Em 2005, Israel decidiu de forma unilateral retirar todos os 21 assentamentos existentes na Faixa de Gaza. Mas a presença judaica na Cisjordânia só tem aumentado.

A partir de 2002, Israel passou a isolar os assentamentos das populações palestinas da Cisjordânia, separando vilas e bairros uns dos outros por meio da construção de um enorme muro de concreto. A justificativa inicial era impedir a entrada de terroristas em Israel. Na prática, essa barreira física permitiu a Israel anexar áreas palestinas e controlar a circulação de pessoas pelo território.

Os assentamentos e o muro na Cisjordânia são considerados ilegais pela lei internacional, e resoluções da ONU determinaram a devolução das áreas ocupadas, mas não foram obedecidas por Israel. Pela última proposta negociada entre os dois lados, os principais assentamentos ficariam com Israel, que, em troca, destinaria outras terras aos palestinos – mas as conversas não avançaram.

  • Retorno dos refugiados

Com a criação de Israel, mais de 700 mil palestinos tornaram-se refugiados. Outra grande onda de expulsões ocorreu após a Guerra dos Seis Dias, de 1967, quando 500 mil palestinos tiveram de deixar suas casas e vilas. Os refugiados, mais seus filhos e netos, somam mais de 5 milhões de pessoas, segundo a ONU, o maior contingente de refugiados do mundo.

Essa enorme população vive de forma precária, em campos de refugiados superpovoados. Os países árabes onde se situam os campos mal garantem o mínimo para sua sobrevivência. Os palestinos continuam reivindicando o retorno às antigas casas e a devolução de suas posses. Mas Israel resiste em aceitar a ideia. A questão demográfica preocupa o país, pois o número de palestinos residentes em Israel e nos territórios palestinos somados já ultrapassou o número de judeus israelenses.

  • Status de Jerusalém

Os palestinos defendem que a parte oriental da cidade, ocupada pelos israelenses em 1967, seja a capital de seu futuro Estado. O governo de Israel não aceita, reivindicando a cidade inteira como a sua própria capital. Uma proposta para que Jerusalém fosse capital dos dois Estados foi posta à mesa, mas não avançou.

  • Desmilitarização da Palestina

Israel defende que o Estado palestino não possua Forças Armadas e que a segurança inicialmente seja feita pelas tropas israelenses até a transferência para a Otan – a aliança militar ocidental. A proposta não agrada aos palestinos.

Cisão entre palestinos

Se o conflito entre palestinos e israelenses já é um problema de difícil solução, o quadro no interior do movimento palestino é um elemento a mais de complicação. Existe uma séria divisão entre as duas principais organizações palestinas: o grupo laico Fatah – que dirige a ANP, instalada na Cisjordânia – e o grupo fundamentalista islâmico Hamas – que controla a Faixa de Gaza e é considerado um grupo terrorista por Israel.

Depois de uma guerra civil, o Hamas expulsou em 2007 o Fatah da Faixa de Gaza e passou a controlar a região. O Fatah manteve-se na Cisjordânia, onde o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, constituiu um novo governo, logo reconhecido por Israel e pelas potências ocidentais. 

Em 2014, Fatah e Hamas ensaiaram uma reaproximação ao fechar um acordo que levou à formação de um governo unificado palestino. No entanto, a unidade se desfez já no ano seguinte.

Conflitos em Gaza

Além da disputa fratricida com o Fatah, o Hamas é alvo de um bloqueio que o governo israelense impõe à Faixa de Gaza, proibindo a circulação de bens e pessoas para dentro e para fora do território, por terra e por mar. Isso levou a uma situação de desastre humanitário. De acordo com Israel, a medida se impunha em virtude do controle do Hamas, que afetaria a sua segurança.

A situação é um combustível a mais na inflamada disputa. A Faixa de Gaza foi palco de três ataques recentes de Israel – em dezembro de 2008/janeiro de 2009, em novembro de 2012 e em julho/agosto de 2014. Esta operação mais recente, chamada “Limite Protetor”, foi motivada por uma série de incidentes, entre os quais o assassinato de três adolescentes judeus, atribuídos ao Hamas, e o lançamento de foguetes que atingiram Israel..

Na ofensiva, Israel realizou ataques aéreos com mísseis e promoveu uma invasão de Gaza por terra, sob o argumento de que era preciso destruir túneis utilizados pelo Hamas. A ação arrasou a Faixa de Gaza e atingiu principalmente a população civil. De acordo com a ONU, 65% dos 2.251 palestinos mortos eram civis. Boa parte da população ficou desabrigada. Do lado israelense, 71 pessoas morreram, quase todos militares.

Confronto em Gaza
A região de Gaza é constante palco de conflitos hosny_salah/Pixabay/Reprodução

Impasse prorrogado

Em virtude dos frequentes impasses nas negociações, a ANP passou a apostar em uma ofensiva diplomática unilateral pelo reconhecimento internacional da Palestina. A iniciativa surte efeito: em 2012, a Assembleia Geral da ONU aprovou resolução que eleva o status da Palestina para o de “Estado observador não membro” – o que não significa propriamente a aceitação de uma “nação” palestina, mas a decisão eleva a sua estatura na diplomacia internacional. O aval da ONU alavancou ainda mais a campanha palestina pela criação de dois Estados, que ganha força no cenário global.

Mas diante desses episódios recentes, reforçados pelo colapso nas negociações de paz e pelos ataques à Faixa de Gaza, as perspectivas para uma resolução do conflito no curto prazo são bem remotas.

A mais recente tentativa de retomar as negociações mostrou-se um fiasco. Em junho de 2016, o governo da França realizou uma reunião internacional, com a presença de quase 30 países, entre os quais os EUA e organizações multilaterais, para discutir iniciativas pela paz, com base na solução dos “dois Estados”

Para decepção geral, Israel e a ANP não enviaram representantes à reunião, adiando novamente a retomada do processo. E, de fracasso em fracasso, lá se vão mais de 70 anos de tentativas frustrantes no caminho da paz.

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