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Literatura: Trovadorismo

Movimento da corte Portuguesa

O trovadorismo nasce na corte portuguesa, refletindo as regras sociais desse contexto.

Cantigas e novelas de cavalaria são as principais produções literárias do Trovadorismo (1189-1418).

Trovadorismo é o período que reúne os primeiros registros poéticos da língua portuguesa. Estende-se do século XII ao XV e corresponde à Idade Média. As principais produções literárias desse movimento são as cantigas, muito vinculadas à música, e as novelas de cavalaria.

Idade Média – O QUE ISSO TEM A VER COM A HISTÓRIA?
A Idade Média se estende de 476 a 1453. São características do período a descentralização do poder, a formação de feudos autossuficientes, a produção agropastoril, as relações de dependência pessoal (vassalagem) e o grande poder da Igreja Católica.

Cantigas de amor

As cantigas de amor eram poemas musicados, escritos em português arcaico, sobre o sofri- mento amoroso de um eu lírico masculino por uma mulher idealizada e inacessível, à qual ele jurava servir.

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Quer’eu em maneira de proençal
fazer agora hum cantar d’amor[1]
e querrei muit’loar mia senhor,
a que prez nem fremosura[2] non fal,
nen bondade, e mais vos direi en:
tanto a fez Deus[3] comprida de bem
que mais que todas las do mundo val. (…)

[1] METALINGUAGEM: O eu lírico (sujeito que expressa os sentimentos do autor) compõe um poema que trata do fazer poético (deseja fazer uma cantiga de amor conforme os modelos convencionais da Provença, região do sul da França onde surgiram os primeiros poemas desse tipo). Trata-se de um texto metalinguístico, pois utiliza o código de comunicação (a língua) como assunto ou explicação para o próprio código. É o que fazem os dicionários. O procedimento também é comum em textos literários, quando o autor se volta para as formas de construção do texto.

[2] INTENCIONALIDADE: O eu lírico deseja louvar a dama (senhora). Os substantivos abstratos “formosura” e “bondade” são empregados na descrição idealizada para ressaltar a perfeição da mulher amada.

[3] TEOCENTRISMO: A referência feita a Deus reflete a visão de mundo medieval, marcada pelo teocentrismo e pela forte influência cultural exercida pela Igreja Católica.

Novela de cavalaria

A prosa ficcional do Trovadorismo é representada pelas novelas de cavalaria, longas narrativas que apresentam os feitos de bravos cavaleiros. A Demanda do Santo Graal, pertencente ao ciclo bretão ou arturiano, narra as aventuras dos Cavaleiros da Távola Redonda, a serviço do rei Artur, em busca do cálice sagrado.

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Aquele dia, hora de prima, rezada a missa, fez Lancelote cavaleiro seu filho Galaaz, assim como era costume. E sabei que quantos lá estavam agradavam-se de sua aparência; (…) naquele tempo não se podia achar em todo o reino de Logres donzel tão formoso e tão bem feito; porque em tudo era tal que não se podia achar nada em que o censurasse, exceto que era meigo demais em seu modo de ser.

MEGALE, Heitor (org.). A Demanda do Santo Graal. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.


A ORDENAÇÃO DO CAVALEIRO Neste trecho, Lancelote é convocado a participar da sagração de seu filho Galaaz como cavaleiro. Note que a cerimônia está ligada aos ritos religiosos: ela ocorre após a celebração da missa, em conformidade com a visão teocêntrica medieval. O jovem Galaaz apresenta as virtudes idealizadas para um cavaleiro medieval. Suas qualidades são ressaltadas e idealizadas.


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Um amor assim delicado
Você pega e despreza[1]
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza

Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza
(…)

Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer
que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa[1]

Princesa[2]
Surpresa[2]
Você me arrasou
Serpente[3]
Nem sente que me envenenou
Senhora[2] e agora
Me diga aonde eu vou
Amiga[2]
Me diga

[1] CANTIGAS: Nesta música de Caetano Veloso, há várias referências às cantigas medievais: a coita de amor (sofrimento), a presença da figura divina, a idealização da amada e a vassalagem amorosa (submissão).

[2] VOCATIVOS: Enfatizam a superioridade da mulher em relação ao sujeito poético (“princesa”, “senhora”), a força e o perigo do amor (“surpresa”, “serpente”), mas também o afeto e a cumplicidade (“amiga”).

[3] METÁFORA: A mulher amada é chamada de “serpente”. Trata-se de uma metáfora que, aqui, faz contraposição à sacralização da amada, uma vez que confere a ela características sedutoras.

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A tirinha dialoga com a visão idealizada da mulher, tal como concebida pelos trovadores medievais. A palavra pedestal, usada com sentido denotativo (significado próprio e dicionarizado), provoca o efeito de humor: trata-se realmente de uma construção elevada. Geralmente, nesse contexto, a palavra é empregada em sentido conotativo (que diz respeito ao uso figurado), designando a elevação de uma pessoa ou situação a uma posição de superioridade.

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IDEALIZAÇÃO E AMOR CORTÊS

A obra Tristão e Isolda tem origem na tradição oral popular. Entre as muitas versões existentes, destaca-se O Romance de Tristão e Isolda (1900), escrito por Joseph Bédier. Trata-se de um relato, bem ao gosto da Idade Média, do amor impossível, cheio de misticismo e aventura. O desenlace trágico da história de amor – um triângulo amoroso entre o rei Marcos, seu sobrinho Tristão e a princesa Isolda – caracteriza bem o período: a morte como solução existencial para o problema dos jovens. Em meio às desventuras amorosas toma-se contato com o universo dos cavaleiros medievais e com a cultura trovadoresca.

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TEXTO III
(…)
Criança, que sabes da arte dos instrumentos? Se os mercadores da terra de Loonnois ensinam também a seus filhos tocar harpa, levanta-te, toma desta harpa e mostra-nos tua arte.
Tristão pegou[2] o instrumento e tão lindamente cantou[2] que os barões se enterneceram. O Rei Marcos, admirado, escutava[2] o jovem harpista vindo de Loonnois, para onde outrora Rivalen conduzira[2]  Braneafor[1]
(…)

TEXTO IV
(…)
– Não – disse Tristão –, a muralha de ar já está rompida e não é aqui o pomar maravilhoso. Mas, um dia, amiga, iremos juntos à terra afortunada[3], de onde ninguém volta. Lá existe um castelo de mármore branco; em cada uma de suas mil jane- las brilha um círio aceso; em cada uma delas toca um trovador, cantando uma melodia sem fm; o sol ali brilha, entretanto, ninguém sente falta da sua luz. Lá é a Terra Feliz dos Vivos![4]
(…)

Tristão e Isolda – Lenda Medieval Celta de Amor. 3ª edição. Ed. Martin Claret.

[1] HERÓI MEDIEVAL: O trecho mostra o ideal de amor cortês e a idealização na caracterização do herói medieval na figura de um jovem e valoroso cavaleiro.

[2] TEMPOS VERBAIS: O pretérito perfeito do indicativo (pegou e cantou) marca duas ações de Tristão. O pretérito imperfeito (escutava) mostra o andamento da narrativa. E o pretérito mais-que-perfeito (conduzira) aponta para uma ação  anterior à de Tristão.

[3] CRASE: Neste trecho ocorre o encontro da preposição “a” (solicitada pelo verbo “ir” ) com o artigo definido “a” que antecede o substantivo feminino “terra”. Note que há o artigo “a”, pois o adjetivo “afortunada” especifica o substantivo “terra”.

[4] IDEALIZAÇÃO DO CAVALEIRO: O texto recria o universo idealizado que circunda a figura do cavaleiro medieval.

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