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Literatura: Romantismo (2ª Geração)

Ao se sentirem incompreendidos pela sociedade, os escritores ultrarromânticos se isolam e evocam imagens ligadas à morte

 

Álvares de Azevedo (1831-1852) é o principal nome da segunda geração romântica brasileira, também chamada de ultrarromântica. Decepcionados com o mundo, os poetas dessa geração, após o conhecimento dos pra- zeres físicos, sentem-se incompreendidos pela sociedade e optam pelo isolamento na própria subjetividade. Textos melancólicos, nos quais o sofrimento evoca imagens ligadas à noite e à morte, abrem espaço para o fantasioso e o ma- cabro. A obra Noite na Taverna, representativa da prosa de ficção gótica, apresenta os relatos mórbidos de um grupo de boêmios bêbados.

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Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal aperta- dos… Era uma defunta! … e aqueles traços todos me lembraram uma ideia perdida… – Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus[2] braços para fora do caixão. Pesava como chumbo.

(…) Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo[3] horrível aquele[3] que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida! (…)[1]

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[0] TRAÇOS MACABROS: Em uma atmosfera de pesadelo, o narrador Solfieri encontra um espaço de contornos pouco definidos. Aos poucos, a luz das estrelas revela um ambiente fúnebre. Uma jovem está adormecida em um templo (espaço que remete ao ideal de pureza virginal), após uma crise de catalepsia. Os elementos descritos conferem traços macabros à cena. A moça revive após ser violada por Solfieri, o qual, até aquele momento, julgava se relacionar com um cadáver – a necrofilia era exaltada pelos ultrarromânticos. O tema da relação sexual com o suposto cadáver constitui o centro da narrativa.

[1] TIPOS TEXTUAIS: O narrador tenta manter o suspense da história. Combinadas, a descrição e a narração promovem a visualização da cena e criam expectativa sobre ela. O texto é fruto da memória do autor; verbos no passado auxiliam a recuperação das lembranças. A junção desses elementos acentua a morbidez da narrativa, em linha com a atmosfera soturna, típica da segunda geração romântica.

[2] PRONOME POSSESSIVO: Observe o uso enfático do pronome possessivo “meus”, uma vez que sua utilização seria desnecessária (pois o mesmo entendimento se teria com “tomei o cadáver nos braços”, já indicando a ação da primeira pessoa, o “eu”).

[3] PRONOME DEMONSTRATIVO: O pronome demonstrativo “aquele” é empregado pelo narrador para retomar o termo “pesadelo” (veja no Saiba mais abaixo).

 

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USO DOS PRONOMES DEMONSTRATIVOS

Em relação ao espaço: este (próximo de quem fala: Este livro que li é muito bom); esse (próximo de quem recebe a mensagem: Esse livro que você leu é bom); aquele (longe de ambos: Aquele livro que não lemos deve ser bom).

Quanto ao tempo: este (presente e futuro: Nesta semana, vou viajar); esse (passa- do próximo: Nessa semana, viajei para Santos); aquele (passado remoto: Naquela semana, viajei para o Rio).

Esse(s), essa(s), isso(s) também retomam referentes anteriormente apresentados no texto: O deputado foi acusado de corrupção. Esse político nunca me enganou.

Este(s), esta(s), isto(s) também antecipam e anunciam um termo que será apresentado posteriormente: Antes de viajar, verifique isto: a quantidade de malas que irá carregar.

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A DOR REVOLUCIONÁRIA

Dois clássicos apontam a singularidade do Romantismo e verificam a extensão da mudança proposta por seus defensores

Rosane Pavam

O inglês Dante Gabriel Rossetti (…) era um romântico como outro ilustre conterrâneo, o também pintor e poeta William Blake. Estes dois não queriam nem saber dos iluministas que decretaram a morte do espírito. Contra a razão, os românticos professavam a expressão subjetiva. Queriam viver o agora, a imanência das coisas, não sua transcendência. Contra as cidades onde as indústrias da miséria operavam, idealizavam a vida no campo, lá onde as máquinas do capitalismo ainda não haviam chegado, transformando os homens em mercadorias. Julgavam urgente experimentar a vida em liberdade, exaltar o lugar de nascimento, a língua falada pelos seus[1]. Entendiam não haver uma verdade universal, ela pertencia a cada um.

 E em que esses desejos ardentes pela unicidade e pela mudança de um estado de coisas nos sugerem semelhança? O desencanto romântico parece não abandonar o presente[2]. Nestes tempos em que os privilégios sociais se afunilam, a destruição do meio ambiente é contínua, a fome cresce e o extermínio dos desfavorecidos caminha ao ritmo de uma atordoante naturalidade, a tentação de pensar como Rossetti ou Blake parece irresistível. Pior que isso, as armas com que lutar contra esse estado de coisas se assemelham, próximas do isolamento. Quanto mais desiludidos nos tornamos, mais românticos arriscamos ser[2].

Dois livros lançados ao mercado editorial brasileiro nas últimas semanas, contudo, alertam para o anacronismo de estender o romantismo ao infinito presente.  O primeiro deles, As Raízes do Romantismo , tem por autor Isaiah Berlin. Nascido na Letônia e emigrado em 1921 da Rússia à Inglaterra após a revolução soviética, o filósofo estudara o Romantismo por toda a vida. Aos 89 anos, em 1997, ensaiava escrever um grande volume sobre esse entendimento, mas morreria antes de iniciar a empreitada.
(…)

Carta Capital, 27/6/2015

Este texto é um trecho de uma resenha sobre livros. A resenha é um gênero discursivo que combina a apresentação das características essenciais de uma dada obra (filme, livro, peça de teatro etc.) com comentários e avaliações críticas sobre sua qualidade. As obras remontam um tema caro aos poetas românticos, sobretudo ao discutir o repúdio ao racionalismo, a idealização, o desencantamento  do mundo e o desejo de isolamento.

[1] ESCAPISMO: O texto faz menção ao “escapismo”; característica típica da segunda fase do Romantismo, na qual se tenta fugir da realidade concreta em busca do mundo de sonhos e de idealizações.

[2] ULTRARROMANTISMO E ATEMPORALIDADE: No século XIX, os românticos se sentiam deslocados em meio ao comportamento tradicional e materialista que predominava. O texto chama atenção para isso e mostra que o “desencanto romântico” e a desilusão são marcas típicas daqueles que possuem “espírito romântico”.

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A MORTE

A morte foi um tema privilegiado pelos poetas da segunda geração romântica, muitas vezes tratada de maneira exagerada e sentimental. Representava uma forma extrema de evasão do mundo ou da realidade com a qual o sujeito estava em conflito. Como tema literário, contudo, é tratada de modos diversos, conforme os autores e as épocas. Manuel Bandeira, poeta brasileiro do século XX, falou da finitude da existência em diversos textos. Neste, ele mostra um sujeito poético conformado e sereno com o fim da vida, à espera da chegada da morte.

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Quando a Indesejada das gentes[1] chegar
(Não sei se dura ou caroável)[2],
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta[2],
Com cada coisa em seu lugar.

[1] EUFEMISMO: A expressão sugere a tristeza com que o ser humano geralmente lida com a morte e a perspectiva do fim da vida. Trata-se de um eufemismo que ameniza a dureza da palavra “morte”, comumente utilizada.

[1] PROSOPOPEIA: Por meio da figura de linguagem também conhecida como personificação, o autor atribui traços humanos à morte, tratando-a como uma entidade concreta e animada.

[2] ADJETIVOS E CONJUNÇÃO: Dois adjetivos opostos (“caroável” é carinhosa) possibilitam uma reflexão sobre o caráter da morte:  o fim da existência pode vir de modo cruel ou afável. Repare no uso da conjunção alternativa “ou”, que estabelece uma relação de alternância entre duas ideias.

[3] RESIGNAÇÃO: O título faz referência a uma refeição breve, tomada em dias de jejum. No fim do poema, a morte encontra o sujeito com a vida em ordem, pronto para partir (a mesa posta retoma a ideia da refeição).

 

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