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Ciências e Meio Ambiente – Internet: rede de intrigas

A disseminação de notícias falsas na internet pode colocar em risco a lisura das eleições gerais deste ano, o que deixa em alerta as autoridades e as empresas que controlam as principais mídias sociais

A disseminação de notícias falsas na internet pode colocar em risco a lisura das eleições gerais de 2018, o que deixa em alerta as autoridades e as empresas que controlam as principais mídias sociais

As eleições presidenciais brasileiras de 2018 estão sendo consideradas por analistas políticos como as mais incertas e imprevisíveis desde o fim da ditadura militar e a redemocratização. Além do acirramento da intolerância e da polarização política, da profusão de pré-candidatos e das dúvidas que pairam sobre a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado em segunda instância no âmbito da Operação Lava Jato, mais um ingrediente deve complicar a disputa eleitoral: a difusão pela internet de notícias falsas mas que aparentam ser verdadeiras, conhecidas como fake news.

As fake news contribuem para corroer a credibilidade da grande imprensa, interferem no direito da população à informação e fragilizam a democracia. A preocupação com o efeito dessas informações fraudulentas sobre o pleito de outubro foi explicitada no fim de 2017 pelo então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes: “O nosso temor é que, numa campanha de 40 dias, a gente tenha sérios problemas com a divulgação de fatos inverídicos”, destacou o magistrado. “Até você constatar que [determinada notícia] é uma fake news ou não, é um desafo. O problema é detectar e depois retirar. Como você faz isso na rede?”, indagou Mendes, destacando que, muitas vezes, as notícias falsas são distribuídas por sites sediados no exterior, fora da jurisdição da Justiça
Eleitoral brasileira. “Então, temos que ter a colaboração desses provedores, e isso é um novo aprendizado e um novo desafio”, concluiu.

A veiculação deliberada de boatos, mentiras e desinformação no mundo político e, especialmente, durante campanhas eleitorais não é exatamente uma novidade no Brasil e no mundo. A manipulação de informações sempre existiu na história e tem sido uma arma usada por políticos e poderosos para tirar vantagem, inflar candidaturas, prejudicar e difamar adversários. Agora, na era da conectividade e da massificação da internet, o fato novo é a velocidade de propagação das fake news, que empregam como plataforma principalmente as redes sociais, entre elas o Facebook, que tem mais de 2 bilhões de usuários no mundo e 100 milhões no Brasil, e o Twitter, os aplicativos de mensagens, como WhatsApp (pertencente ao Facebook), e sites de notícias falsas.

A escala em que as informações inventadas são produzidas no meio digital, o alcance geográfico atingido por elas e a rapidez com que chegam aos internautas acabam por colocar em dúvida todas as demais notícias, mesmo as que são apuradas seriamente. O resultado é um cidadão confuso, que já não consegue discernir entre o que é verdade e o que é mentira. Por isso, antes de compartilhar qualquer conteúdo, é importante conhecer a procedência da informação e ficar atento se ela tem mesmo fundamento.

O então presidente do TSE, Gilmar Mendes (centro), debate o uso das fake news em evento em Brasília (clique para ampliar). Foto: Marcelo Camargo ()

As eleições nos EUA

Embora o emprego maciço da expressão fake news seja recente, sua origem remonta ao final do século 19. Segundo o dicionário de língua inglesa Merriam-Webster, o termo entrou para uso geral a partir da década de 1890. Sua popularização, no entanto, ocorreu durante a campanha presidencial norte-americana de 2016. De acordo com o Google Trends, ferramenta do Google que mostra os termos mais populares buscados no site num determinado período, a expressão se generalizou em novembro daquele ano, ao término de uma acirrada disputa travada entre o republicano Donald Trump e a democrata Hillary Clinton.

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Um mês após ser derrotada por Trump, Clinton fez um discurso denunciando “a epidemia de notícias falsas, maliciosas e de propaganda enganosa que inundou as redes sociais no último ano”. E concluiu: “Agora está claro que as fake news podem ter consequências reais”. Ao longo da campanha eleitoral, os internautas norte-americanos foram bombardeados por conteúdo fraudulento. Hillary foi acusada de chefiar uma rede de pedofilia sediada em uma pizzaria de Washington e de vender armas para o Estado Islâmico. Trump, por sua vez, recebera o inesperado apoio do papa Francisco. Tudo mentira.

Uma análise feita pelo site de notícias BuzzFeed News, com base em 40 notícias divulgadas nos últimos três meses da campanha, revelou que as 20 informações fraudulentas veiculadas no Facebook tiveram um alcance maior do que as 20 histórias verídicas publicadas por órgãos da grande imprensa, como os jornais The New York Times e Washington Post e a emissora de TV NBC News. O maior beneficiado pela torrente de desinformação foi Trump: das duas dezenas de notícias falsas analisadas, apenas três não eram positivas ao então candidato republicano.

Investigações conduzidas pelo Congresso dos Estados Unidos (EUA) e serviços de inteligência do governo apontam que o resultado do pleito sofreu influência das fake news. Operadores russos, alguns deles ligados ao Kremlin, a sede do poder russo, usaram a internet para ajudar Trump. Segundo a denúncia, perfis falsos e informações inventadas prejudiciais à candidata democrata e favoráveis ao republicano foram veiculados por agentes de Moscou no Facebook, Twitter, YouTube, Gmail e na rede de publicidade DoubleClick – as três últimas plataformas pertencem ao Google.

Descobriu-se também que boa parte dos sites de notícias falsas que inundaram as eleições dos EUA foram criados na Macedônia, um pequeno país do Leste Europeu, que até 1991 fazia parte da Iugoslávia. Jovens macedônios moradores da cidade de Veles decidiram veicular histórias sensacionalistas, plagiadas de sites norte-americanos de direita, na rede mundial de computadores para ganhar dinheiro com publicidade.

Depois de tomar posse, o próprio Trump, numa tentativa de virar o jogo, passou a evocar com frequência a expressão fake news para se referir a notícias desfavoráveis a ele e, assim, desacreditar seus adversários. O presidente norte-americano recorre constantemente ao jargão a fim de fragilizar a credibilidade de grandes órgãos de imprensa que escrutinam com rigor as ações de seu governo. Ou seja, o fato de chamar de fake news qualquer notícia que prejudique a sua imagem serve para criar ainda mais confusão na opinião pública. Sua postura foi seguida por outros políticos e mandatários ao redor do globo, como o ditador sírio Bashar al-Assad e o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Além de causar estragos na corrida presidencial dos EUA, as fake news interferiram na campanha do Brexit, o referendo realizado no Reino Unido em meados de 2016 sobre a saída do país da União Europeia (UE). Divulgou-se à época que a permanência no bloco custava 470 milhões de dólares por semana ao país, o que era falso. O mesmo ocorreu nas eleições presidenciais francesas de 2017, quando um site falso imitando o belga LeSoir publicou que o então candidato centrista, Emmanuel Macron, vencedor do pleito, era financiado pela Arábia Saudita. A mentira gerou quase 10 mil likes, compartilhamentos e comentários no Facebook.

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Fake news no Brasil

O fenômeno da boataria online também já foi detectado no Brasil. Nas eleições gerais de 2014, robôs programados para replicar conteúdo enganoso ou para se passarem por humanos corresponderam a mais de 10% das discussões políticas no Twitter, segundo o estudo “Robôs, Redes Sociais e Política no Brasil”, divulgado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV/DAPP). Robôs são softwares que agem de forma autônoma na internet, simulando o comportamento humano e enviando mensagens através de perfis genéricos ou falsos.

O documento apontou ainda que durante os protestos pelo impeachment da presidente Dilma Roussef (PT) em 2016, as interações causadas por robôs digitais representaram mais de 20% do debate entre apoiadores da mandatária. A FGV mostrou também que perto de 20% das interações no debate entre os seguidores do candidato derrotado Aécio Neves (PSDB) no segundo turno do pleito de 2014 foram motivadas por robôs.

Outro levantamento, de autoria do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai) da Universidade de São Paulo (USP), revelou que por volta de 12 milhões de pessoas difundem notícias falsas sobre política no país – o dado resulta do monitoramento de 500 páginas digitais de conteúdo político inverídico apenas em junho de 2017.

Esses números ajudam a entender por que os brasileiros são o povo que mais se preocupa com a circulação de propaganda enganosa na internet. Uma pesquisa divulgada em setembro de 2017 pela BBC World Service mostrou que 92% dos entrevistados no país disseram ter algum nível de preocupação se o que estão lendo na web é ou não verdadeiro (veja gráfico abaixo).

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Google e Facebook

A propagação maciça de informações falsas na internet pôs pressão sobre as plataformas digitais, que, após certa resistência, passaram a adotar providências para coibir a prática. Google e Facebook anunciaram que trabalhariam com grupos de checagem de notícias para atestar a veracidade de seu conteúdo. Denominada cross-check, essa iniciativa está sendo adotada em caráter experimental pelo Facebook nos EUA em parceria com a International Fact-Checking Network, uma rede global de checadores da qual faz parte a agência brasileira Lupa.

Em outra medida em prol da transparência, o Facebook passou a permitir que seus usuários classifiquem as fontes de notícias que consideram mais confiáveis. Mas a ação mais radical veio em janeiro deste ano: a empresa decidiu que o feed de cada internauta passará a priorizar posts de amigos e familiares em detrimento das páginas jornalísticas e de empresas. A medida, adotada para coibir a circulação de notícias falsas, tem recebido críticas. Isso porque, na tentativa de combater as fake news e privilegiar o conteúdo que tenha destaque na interação entre os usurários, corre-se o risco de reduzir também a circulação de material jornalístico de qualidade produzido pelos veículos de mídia confiáveis. Para um país como o Brasil, que tem no Facebook uma de suas principais fontes de notícias, essa mudança irá gerar um grande impacto.

O Google também estabeleceu uma parceria com a International Fact- Checking Network para remover de seus resultados notícias que publiquem dados errados ou falsificados. Há um ano, a gigante de buscas implantou no Brasil um selo de verificação de fatos para combater conteúdos enganosos.

Medidas legais

Outra frente de batalha contra as fake news é o terreno legal. Tramitam atualmente na Câmara dos Deputados várias propostas com o objetivo de disciplinar o compartilhamento de informações da web. O Projeto de Lei (PL) 6.812/2017 caracteriza como crime divulgar ou compartilhar informação falsa ou incompleta na internet em detrimento de pessoa física ou jurídica. Já o PL 7.604/2017 prevê a responsabilização de provedores de conteúdo nas redes sociais em caso de divulgação de notícias falsas, ilegais ou prejudicialmente incompletas. Caso a plataforma não retire o conteúdo enganoso do ar em 24 horas, a multa seria de R$ 50 milhões. Os dois projetos ainda estão em discussão no Parlamento.

Especialistas concordam que é preciso haver alguma regulação sobre o tema, mas alertam que sob o argumento de combater o fenômeno os governos não devem promover a censura na rede. Organizações de defesa dos direitos de usuários na internet avaliam que os projetos em tramitação no Congresso trazem riscos à liberdade de expressão.

No fim do ano passado, o Congresso aprovou uma minirreforma eleitoral e uma de suas emendas previa a possibilidade de políticos pedirem a identificação de autores de conteúdos postados na internet e a posterior remoção desses em caso de discurso de ódio, disseminação de informações falsas e ofensas. Depois que diversas entidades ligadas à imprensa divulgaram uma nota conjunta classificando a emenda de “censura”, ela foi vetada pelo presidente Temer.

Paralelamente, o TSE anunciou que irá realizar uma força-tarefa em conjunto com o Exército, a Agência Brasileira de Inteligência e a Polícia Federal com o intuito de combater as fake news durante o processo eleitoral deste ano. Por meio do Centro de Defesa Cibernética do Exército, o Ministério da Defesa deve auxiliar o TSE a monitorar a ação de organizações e de criminosos no ciberespaço. Com toda essa mobilização, a expectativa é que a interferência negativa da internet seja minimizada na mais imprevisível disputa eleitoral realizada nos últimos anos no país.

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RESUMO

Internet

NOTÍCIAS FALSAS A disseminação de fake news pela internet é um fator que vem afetando eleições no mundo e pode atingir a disputa presidencial neste ano no Brasil. Embora a veiculação deliberada de mentiras no meio político seja uma prática antiga, a novidade é a velocidade de sua propagação nas redes sociais (Facebook e Twitter), em aplicativos de mensagens (WhatsApp) e em sites de notícias falsas.

TRUMP E FAKE NEWS O uso maciço de fake news na internet marcou a campanha presidencial norte-americana de 2016. Investigações conduzidas por autoridades apontam que o republicano Donald Trump teria sido favorecido por operadores russos que disseminaram informações falsas para prejudicar a candidatura da democrata Hillary Clinton.

COMBATE ÀS FAKE NEWS Facebook e Google adotaram providências para coibir a prática, entre elas o estabelecimento de parceria com grupos de checagem de notícias para atestar a veracidade de seu conteúdo. O Facebook também decidiu que o feed de cada internauta passará a priorizar posts de amigos e familiares em detrimento das páginas jornalísticas e de empresas. Já o Google implantou um selo de verificação de fatos para combater conteúdos enganosos.

ELEIÇÕES NO BRASIL O acirramento da intolerância e da polarização política faz das eleições marcadas para outubro deste ano as mais imprevisíveis das últimas décadas, o que tende a ser um terreno fértil para a proliferação das fake news.

REGULAMENTAÇÃO O TSE anunciou que irá realizar uma força-tarefa em conjunto com o Exército, a Agência Brasileira de Inteligência e a Polícia Federal para combater as fake news durante o processo eleitoral deste ano. Na reforma eleitoral aprovada em 2017, foi liberado o chamado “impulsionamento de conteúdo”, quando um candidato, partido político, empresa ou um indivíduo paga para uma postagem ser propagada no Facebook e demais redes sociais.

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