Ponto de Vista: Impeachment
Deputados deflagram impeachment
Veja como os jornais da segunda-feira, 18 de abril de 2016, noticiaram o resultado da votação na Câmara
O fato
Na manhã do domingo, 17 de abril, após dois dias de discussões, a Câmara dos Deputados aprovou o parecer do deputado Jovair Arantes (PTB-GO), autorizando a abertura do processo de impedimento (impeachment) da presidente Dilma Roussef. Foram 367 votos favoráveis à abertura do processo e 137 contrários. Eram necessários 342 votos favoráveis (dois terços mais um dos deputados). A sessão foi conduzida pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que aceitara o pedido de abertura do processo solicitado por juristas apoiados pelo PSDB. A sessão extraordinária da votação foi transmitida ao vivo pela televisão e acompanhada em telões colocados em praças públicas nas capitais. Transformados em atração dominical, muitos deputados se destacaram por dedicar seus votos a familiares, sua religião, suas igrejas e seus fiéis, entre outras declarações, como se estivessem em um programa de auditório das emissoras de TV.
O Globo
O diário das organizações Globo não se preocupou em esconder sua opinião e, em vez de noticiar o início do processo de impeachment da presidente, noticiou seu afastamento como um fato quase consumado. Com o “chapéu” Batalha no Congresso, e sobre a manchete “Perto do fim”, destacou que sobraram votos para o resultado (“25 votos a mais que o necessário”). A primeira linha de apoio à manchete dizia “Dilma Roussef começou ontem a se despedir da cadeira de presidente do Brasil”. O texto, analítico, expunha a perda de apoio da presidente no Congresso como a razão provável de seu próximo afastamento no Senado, e citava a comemoração nas ruas. Encaixado no texto, um destaque em quadro chamava para a opinião do veículo: Editorial – “Um passo para o impeachment. Falta o julgamento propriamente dito, no Senado, e Temer precisa agir”. No centro da área ao pé da capa, Temer é caricaturado com uma cauda de raposa, animal considerado astuto e perigoso.
A foto escolhida reafirmava a escolha do jornal, mostrando a celebração de vitória dos oposicionistas, carregando o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), que acabara de dar o voto 342 pelo “sim”, que autorizava a abertura do processo no Senado.
Abaixo desse conjunto, o jornal procurou dar densidade à edição, com oito colunas trazendo 27 chamadas de seus articulistas, todos convocados a abordar algum aspecto do resultado. Uma chamada de reportagem, na lateral direita, situava o papel do vice-presidente: “Temer já prepara governo. Em clima de festa, Temer fez planos de governo no Jaburu”, explicava a caricatura.
O Estado de São Paulo
Com um selo de Edição Especial, o jornal optou por radicalizar graficamente a edição, com uma foto dominando toda a capa, que se abria para a última página do caderno formando um pôster gigante. Toda a apresentação acompanhava a manchete, que exprimia neutralidade: “Impeachment avança”. Ao pé da página, quatro pequenas chamadas procuraram sintetizar o que ocorreu e os desdobramentos:
• “367 deputados votaram a favor e 146, contra.”
• “Dilma promete “lutar até o fim”, mas Planalto vê situação dramática” – colocando o lado governamental.
• “Oposição tenta antecipar decisão do Senado, prevista para dia 11.”
• “Milhares vão às ruas em 23 estados do país” – novamente em tom neutro, já que houve manifestações contra a presidente e de apoio a ela.
A foto escolhida pelo jornal é de grande riqueza visual, registra o clima de euforia e quase tumulto que tomou conta da Câmara nos momentos que se seguiram ao final da votação. Atrás do deputado e então presidente da casa, Eduardo Cunha, veem-se membros da bancada evangélica, e o pastor Silas Malafaia de olhos fechados e mão espalmada, orando ou abençoando a plateia. Há braços erguidos em todas as direções sob uma chuva de papel picado, a bandeira do país no centro da imagem e cartazes encomendados pela oposição. Em primeiro plano, um deputado faz selfie, enquanto dezenas de outros estão filmando ou fotografando o plenário da sessão.
Folha de São Paulo
Com um “chapéu” que trouxe o resultado da votação, inclusive as sete abstenções e duas ausências, o jornal apenas manchetou a palavra impeachment. Um sinal de exclamação fez o entendimento ultrapassar os limites do início do processo parlamentar e sugeriu sua conclusão, definindo uma cobertura dúbia. O “olho” explicativo abaixo adota um tom neutro, ao explicitar a autorização para o processo e colocar o lado do governo Dilma. Na sequência, novamente um tom de duplo sentido, pois “Temer fala em grande responsabilidade” sugere como inevitável o afastamento e a posse do vice-presidente.
O jornal também destacou foto do momento em que o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) dá o voto definidor do resultado, mas agregou uma foto exclusiva, em que vemos o vice-presidente Michel Temer com um sorriso largo. O leitor que apenas vê a imagem pode interpretá-la como alegria de Temer, articulador do processo no Congresso, pelo resultado. A legenda diz que ele “e aliados acompanham a votação no Palácio Jaburu” e o vice-presidente poderia estar rindo das declarações dos parlamentares oposicionistas no momento em que votavam.
Um extenso texto à direita detalha o que ocorreu dentro e fora da Câmara, e faz um resumo da conjuntura que levou ao fato e do currículo de Temer. Como O Globo, a Folha de S.Paulo também procurou dar densidade à cobertura, com chamadas de sete articulistas, para o editorial “O país tem pressa” e para as infelizes declarações dos parlamentares ao votar.








