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Questões Sociais: Papa Francisco Um líder progressista e ativo na diplomacia

A Igreja em busca de renovação

Em três anos à frente do Vaticano, o papa Francisco assume papel ativo na diplomacia e na defesa de ideias progressistas

Desde que assumiu o cargo mais importante da Igreja Católica, em março de 2013, como papa Francisco, o argentino Jorge Mario Bergoglio vem se notabilizando por ser um líder aberto ao diálogo. Em fevereiro de 2016, o pontífice deu mais uma mostra de sua disposição em promover reconciliações ao se reunir com o líder da Igreja Ortodoxa Russa, o patriarca Cirilo.
O encontro, realizado em Havana, capital de Cuba, é histórico: foi a primeira vez que os líderes das Igrejas do Ocidente e do Oriente se encontram desde o cisma de 1054. Durante a Idade Média, a Igreja Católica tinha uma sede em Roma, no Ocidente e outra em Constantinopla, no Oriente. Com o passar dos anos, algumas práticas religiosas da Igreja de Constantinopla foram desagradando a cúpula católica em Roma. Os desentendimentos se acentuaram até o rompimento definitivo em 1054, quando o papa em Roma e o patriarca de Constantinopla se excomungaram mutuamente.
A propensão à diplomacia e ao estreitamento de laços com outras religiões são algumas das principais características do pontificado de Francisco. Aos poucos, ele também começa a dar novos contornos à Igreja Católica ao posicionar-se de maneira mais progressista sobre temas polêmicos, como o aborto, o divórcio, o celibato dos padres e a homossexualidade. Isso o diferencia fortemente de seus antecessores e o torna alvo de críticas da ala mais conservadora da Igreja. Além disso, ao dar exemplos de simplicidade e clamar por justiça social, Francisco vem se aproximando mais dos fiéis.

Crise na Santa Sé

Francisco assumiu a liderança da Igreja após a renúncia do alemão Bento XVI (2005-2013), em meio a uma das mais graves crises enfrentadas pela instituição. Embora tenha justificado sua retirada devido à saúde fragilizada, Bento XVI deixou transparecer que sua decisão também foi influenciada por fatores como disputa de poder e divisões na Igreja.
Paralelamente, a Santa Sé enfrentava denúncias de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro no Banco do Vaticano. Para piorar, aumentaram os processos judiciais contra padres e bispos acusados de pedofilia – com acusações de que o Vaticano tentava acobertar esses casos. Toda a crise contribuiu para a saída precipitada de Bento XVI.
A opção da cúpula do Vaticano por Francisco sinaliza uma mudança de rumos da Igreja Católica. Ele assume após dois mandatos de papas mais conservadores – além de Bento XVI, o polonês João Paulo II (1978-2005) também defendia a doutrina católica de maneira rígida. Além de ser o primeiro papa não europeu em mais de 1.200 anos, Bergoglio também é o primeiro papa jesuíta na Igreja Católica e o primeiro a adotar o nome de Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, que fez opção pelos pobres e pregava a humildade.

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DIPLOMACIA PAPAL O papa Francisco se reconcilia com o líder da Igreja Ortodoxa Russa, o patriarca Cirilo, em Havana, em fevereiro de 2016

Perfil reformista

Ao se tornar papa, Francisco anunciou reformas importantes contra a impunidade nos casos de corrupção e de abuso sexual cometidos por religiosos, introduzindo penas mais duras para esses casos. Formou uma comissão especial para tratar das acusações de abuso sexual cometidas por sacerdotes e autorizou o julgamento por abuso de poder dos bispos que acobertam os padres acusados de pedofilia. Em relação à corrupção, criou um grupo para analisar o Banco do Vaticano e autorizou que auditores internacionais entrassem na Santa Sé.
Na contramão de seus antecessores, já deixou claro que o papel da Igreja é buscar o diálogo – inclusive com os ateus. Criou o Encontro Mundial dos Movimentos Populares e incentivou suas lutas sociais. Além disso, vem promovendo uma descentralização da Igreja, com a nomeação de cardeais provenientes não só da Europa, mas de outros continentes, sobretudo das Américas do Sul e Central. A intenção também é dar mais autonomia aos bispos.

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Igreja para todos

Uma forte marca da atuação do papa Francisco é a defesa de uma igreja mais tolerante, inclusiva e misericordiosa – pronta a perdoar e estender a mão a quem a procura. Essa filosofia pode ser vista nas várias opiniões dadas pelo papa sobre temas polêmicos:

 

  • Casamento e divórcio: como a Igreja considera o casamento indissolúvel e não reconhece o divórcio civil, as pessoas divorciadas que se casaram novamente não podem receber a comunhão. O papa Francisco propõe rediscutir a questão e acolher esses católicos.
  • Aborto: apesar de a Igreja Católica ser radicalmente contra o aborto, o papa Francisco recomendou aos padres que perdoem as mulheres que tenham abortado desde que se mostrem sinceramente arrependidas.
  • Celibato: afirmou que o celibato não é um dogma da Igreja Católica e que, por isso, pode ser discutido.
  • Contracepção: embora condene os métodos contraceptivos artificiais (como o uso de preservativos), declarou que “os católicos não devem se reproduzir como coelhos”, pois é preciso ter responsabilidade.
  • Homossexualidade: a Igreja condena a prática homossexual, e o papa já afirmou que a família é composta de um homem e uma mulher. No entanto, costuma afirmar que os homossexuais não podem ser discriminados. E é dele a mais conciliadora declaração de um pontífice sobre homossexualidade: “Se um gay procurar Deus, quem sou eu para julgar?”.

Atuação diplomática

Em suas viagens, Francisco tem dado preferência a destinos onde o catolicismo vem perdendo seguidores, como o México, que visitou em fevereiro de 2016. O pontífice também é recebido em países que passam por conflitos e crises. Em maio de 2014, ele foi a Belém, na região palestina da Cisjordânia, onde pediu o fim do conflito “inaceitável” entre Israel e Palestina e convidou o então presidente de Israel, Shimon Peres, e o da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, para irem ao Vaticano orar pela paz.
O improvável encontro foi realizado no mês seguinte. Entre os dois presidentes, o papa pediu que sejam derrubados os “muros da inimizade”. Duas semanas depois, o Vaticano reconheceu formalmente o Estado da Palestina, em decisão criticada pelo governo de Israel.
A atuação política do papa alcançou seu ponto mais alto quando atuou como mediador na retomada das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos (EUA), que estavam interrompidas desde 1961, no auge da Guerra Fria. Num ato histórico, em dezembro de 2014, os presidentes Barack Obama (EUA) e Raúl Castro (Cuba) fizeram o anúncio quase simultaneamente. Em seus discursos, ambos agradeceram o envolvimento crucial do papa nas negociações. Nos meses anteriores, o papa havia escrito a Obama e a Castro, convidando-os a resolver questões humanitárias. Além disso, pressionou também pela libertação de presos políticos dos dois países.

Críticas ao capitalismo

Essa postura ativa na esfera política também pode ser observada nos discursos de Francisco, cada vez mais pontuados por contundentes críticas ao capitalismo. Em julho de 2015, durante sua passagem por Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, ele disse que o capitalismo “impôs a lógica dos lucros a qualquer custo ”. E completou: “Atrás de tanta dor, morte e destruição está o fedor disso que Basílio de Cesareia chamava ‘o esterco do diabo’ [dinheiro]”. No mês seguinte, em discurso na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, criticou os organismos financeiros internacionais. “Eles devem zelar pelo desenvolvimento sustentável dos países e não à submissão asfixiante destes por sistemas de crédito que, longe de promover o progresso, submetem as populações a mecanismos de maior pobreza e dependência”, afirmou o pontífice.
Outro tema caro ao papa, também relacionado à exclusão social, é a preservação do meio ambiente. Exemplo disso foi a publicação da encíclica Laudato Si’ (Louvado Seja) em junho de 2015. Encíclicas são cartas escritas pelos papas e dirigidas aos bispos e aos fiéis de todo o mundo para informar a posição da igreja sobre determinados temas. Ela foi considerada histórica por tratar da questão ambiental pela primeira vez. O papa afirma que o “consumismo imoral” levou à contínua degradação do meio ambiente e que os países ricos têm uma “dívida ecológica” com os países pobres, pois exploram seus recursos com vistas ao lucro numa relação que considerou “estruturalmente perversa”.

Figura pop

Em plena consonância com o que prega, Francisco tem um estilo pessoal pautado pela simplicidade e informalidade, o que lhe confere grande popularidade. Ao ser escolhido como líder da Igreja Católica, apareceu na sacada do Vaticano com um crucifixo de aço e não de ouro, como era o costume. Também recusou a limusine blindada papal para comparecer ao seu primeiro compromisso oficial e optou por um veículo comum.
Sempre sorridente e simpático, não esconde que é fanático por futebol – seu time do coração é o argentino San Lorenzo. Usuário das novas tecnologias de comunicação, divulga ações por meio do YouTube e mantém conta no Twitter (@Pontifex) com mais de 8 milhões de seguidores. Para coroar seu lado pop, Francisco lançou um CD no final de 2015, com trechos de seus discursos em várias línguas. Segundo a Rádio Vaticano, a obra apresenta “uma inusitada mistura de pop-rock com canto gregoriano e rock progressivo apoteótico”. •

PARA IR ALÉM O filme Spotlight – Segredos Revelados (2015), de Tom McCarthy, mostra o trabalho de jornalistas de Boston que revelaram como a Igreja Católica acobertou casos de pedofilia envolvendo padres da região.

O papa Francisco desempenhou papel decisivo na reaproximação entre Cuba e Estados Unidos

Catolicismo perde espaço para evangélicos na América Latina

A aproximação com os fiéis, uma grande característica do papado de Francisco, representa também a necessidade de reverter a perda proporcional de católicos. O fenômeno se acentuou nas últimas décadas, principalmente na América Latina. Segundo o instituto norte-americano Pew Research Center, entre 1970 e 2014 o percentual de católicos na região caiu de 92% da população para 69%. Parte dessa perda de adeptos pode ser creditada ao aumento na proporção de protestantes, que saltou de 4% para 19% no período. Muitos especialistas creditam a escolha de um papa argentino a uma tentativa da Santa Sé de frear o avanço das igrejas evangélicas na América Latina.
A situação na região é parecida com o que acontece no Brasil. O país ainda é o líder mundial em números absolutos de católicos, com 123 milhões de seguidores, de acordo com o Censo de 2010. No entanto, proporcionalmente em relação à população, os católicos brasileiros diminuíram de 96% para 65% no período. O crescimento dos evangélicos também é o principal motivo da diminuição de católicos no país, embora também tenham crescido o número de brasileiros que se declararam sem religião e os de religiões minoritárias, como o espiritismo.

SAIU NA IMPRENSA

Papa Francisco critica bispos com ‘corações fechados’ ao fim de Sínodo

Por Philip Pullella

O papa Francisco, ao encerrar uma controversa reunião de bispos sobre questões familiares, neste sábado, censurou líderes imutáveis da Igreja que “enterram a cabeça na areia” e se escondem atrás de doutrina rígida enquanto as famílias sofrem.
O papa falou no final de um encontro de três semanas, conhecido como sínodo, onde bispos concordaram em uma abertura restrita para divorciados que se casaram novamente fora da Igreja Católica, mas rejeitaram pedidos de adoção de uma linguagem mais acolhedora em relação aos homossexuais. (…)
Ele também denunciou “teorias da conspiração” e as “visões limitadas” de alguns participantes no encontro, e disse que a Igreja não pode transmitir a sua mensagem para as novas gerações “às vezes incrustadas em uma linguagem que é arcaica ou simplesmente incompreensível”. (…)

Reuters, 24/10/2015

RESUMO

Papa Francisco

NOVO LÍDER O argentino Jorge Mario Bergoglio assume a liderança do Vaticano em março de 2013. Ele é o primeiro papa não europeu em mais de 1.200 anos e também o primeiro a adotar o nome de Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, que fez opção pelos pobres e pregava a humildade. Desde que assumiu o papado, estabeleceu uma relação mais próxima e informal com os fiéis e vem dando exemplos de simplicidade – como a dispensa de automóveis de luxo.

MUDANÇA NA IGREJA A posse de Francisco marca uma alteração de rumo na Igreja Católica, após dois mandatos de papas com um perfil mais conservador: o polonês João Paulo II (1978-2005) e o alemão Bento XVI (2005-2013).

REFORMAS A busca do diálogo com outras religiões (e até com os ateus), um olhar mais voltado para os pobres e os países periféricos, a descentralização da Igreja e a quebra de hierarquias no catolicismo, assim como a severa apuração em relação às denúncias de corrupção e pedofilia por parte de sacerdotes, são algumas das ações implementadas pelo papa Francisco. Também ganharam destaque suas fortes críticas ao capitalismo e aos organismos financeiros internacionais e a defesa da questão ambiental na encíclica Laudato Si.

IDEIAS PROGRESSISTAS Apesar de reafirmar os dogmas do catolicismo, como a condenação do aborto e da homossexualidade, o papa Francisco demonstra estar aberto às diferenças e propõe uma Igreja mais inclusiva e tolerante que não nega o perdão a quem a procura.

ATUAÇÃO DIPLOMÁTICA Francisco também reivindica para si um papel mais político, com foco na resolução de conflitos mundiais. Exemplos disso são o fato de ter reunido os presidentes de Israel e da Autoridade Nacional Palestina (ANP) para uma oração no Vaticano, na tentativa de favorecer o processo de paz no Oriente Médio, e a mediação histórica na retomada das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos.

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Questões Sociais: Papa Francisco Um líder progressista e ativo na diplomacia
A Igreja em busca de renovação Em três anos à frente do Vaticano, o papa Francisco assume papel ativo na diplomacia e na defesa de ideias progressistas Desde que assumiu o cargo mais importante da Igreja Católica, em março de 2013, como papa Francisco, o argentino Jorge Mario Bergoglio vem se notabilizando por ser um […]

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