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Livro “Andar a Pé: Uma Obrigação Profissional” é aula de jornalismo raiz

Textos reunidos do jornalista carioca Rogério Daflon tratam de urbanismo e direito à cidade

Por Fabrício Brasiliense Atualizado em 10 abr 2022, 10h41 - Publicado em 7 abr 2022, 15h12

Rogério Daflon era um andarilho por vocação e por profissão. Era um jornalista que tinha uma relação profunda com as grandes cidades, principalmente o Rio de Janeiro onde viveu toda a sua vida. Ele amava andar e foi andando, que, em 2019, na altura do Palácio Guanabara, em Laranjeiras, acabou sendo atropelado por uma motocicleta. Levado ao hospital, ficou internado por uma semana, mas não resistiu.

Daflon trabalhou em veículos como O Globo, Jornal do Brasil, Placar, Veja Rio, Agência Pública entre outros. Por muito tempo cobriu esportes, mas por vezes seu olhar enveredava para questões sociais que envolviam jogadores e dirigentes. Em Atenas, destacado para cobrir a Olimpíada de 2004, trouxe também um relato dos subúrbios onde viviam os trabalhadores. Quando o Rio passou por uma grande transformação urbanísitica para abrigar os jogos de 2016, Daflon denunciou as remoções de famílias e o apagamento que se tentou fazer da história dos negros escravizados na região do Porto Maravilha.

“No caso da minha profissão, andar a pé é quase uma obrigação profissional. O modo como você conhece a cidade é absurdamente diferente do que chegar direto ao local em carro de reportagem. Eu usava andar a pé com transporte público e pegava uma área de cobertura para a matéria muito maior. Ia chegando aos pouquinhos.”

Rogério se tornou o que em jornalismo se costuma chamar de setorista e, nos últimos anos, dedicou o seu olhar ao urbanismo e direito à cidade, chegando a fazer um mestrado sobre o assunto no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, na UFRJ. Em tempos em que o jornalismo é feito à base de Google e redes sociais (que são ótimos, não se trata aqui diminuí-los), Rogério ia na contramão. Ou melhor, seguia o fluxo das milhares de pessoas que diariamente encaram transporte público e léguas de caminhada rumo ao trabalho. Sempre que entrava em algum bar ou restaurante, puxava assunto com o garçom e gostava de saber o que ele tinha feito para chegar, quantas conduções pegava, o quanto andava. Se o entrevistado o convidasse para entrar em casa e tomar um café, Rogério não hesitava. Tinha um interesse genuíno por histórias.

Alguns dos melhores textos escritos por Rogério estão agora reunidos no livro Andar a Pé: uma Obrigação Profissional, organizado por Ana Beatriz Duarte, Alice Daflon e Maria Lucia Daflon. O livro está dividido em cinco eixos temáticos, que são: Moradia, Meio ambiente, Uso e ocupação do solo e espaço público, Obras e equipamentos públicos, Patrimônio arquitetônico e cultural.

Para quem pretende estudar jornalismo é uma obra essencial por se tratar de uma aula sobre apuração, ousadia, persistência, por vezes cara de pau e, sobretudo, sobre o olhar. Não raro, Rogério mirava o desimportante, o que passa batido e que nos acostumamos a encarar como sendo natural na paisagem ora fora do lugar ora fascinante das metrópoles.

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