Nessa distopia brasileira, Amazônia é pano de fundo para apagamento da velhice
Entre rios, caracóis luminosos e exílio compulsório, o longa cria uma fábula sobre liberdade, maturidade e o direito de existir
Em “O Último Azul” (2025), mais recente filme do diretor recifense Gabriel Mascaro, somos levados a um Brasil construído nos limites da ficção científica e da fábula mágica — e, ao mesmo tempo, profundamente familiar. Tereza, interpretada com maestria por Denise Weinberg, é operária de um frigorífico em uma cidade industrial na Amazônia, e completa 77 anos quando recebe uma ordem de exílio do governo federal. De acordo com as leis deste Brasil distópico, pessoas da sua idade devem deixar suas funções e lares para serem transferidas para “colônias habitacionais” remotas. A lógica é fria: liberar os mais jovens da responsabilidade com os mais velhos em nome do crescimento econômico e da produtividade.
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Como se tal cenário já não fosse suficiente para sustentar distopias hollywoodianas inteiras — de “Admirável Mundo Novo” a “Jogos Vorazes” —, o longa nos pega na mão e nos lembra que essa é uma história brasileira. Com tudo que isso carrega. O foco do filme não é a distopia em si, ou como o governo brasileiro adotou tal regime, ou ainda de que forma funcionam essas colônias. “O Último Azul” quer realizar o último desejo de Tereza, sua aventura derradeira antes de embarcar para as misteriosas colônias. A senhora quer voar. Literalmente.
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Para isso, precisa encontrar um piloto de avião que aceite sua proposta – munida de uma insistência que só a experiência nos garante, e alguns trocados acumulados ao longo da vida. Por conta da obrigatoriedade de ser “despachada” para as colônias, ela não conseguiria comprar uma passagem e viajar em um voo comercial, o caminho mais óbvio. É a bordo, então, de canoas e embarcações pelos rios da Amazônia, que ela inicia sua jornada.
Entre paisagens de floresta, casas ribeirinhas e outdoors tecnológicos (que martelam o discurso oficial sobre cuidado com os idosos), Tereza logo conhece Cadu (Rodrigo Santoro), um marinheiro solitário e enigmático que aceita lhe dar carona até uma cidade vizinha em que, provavelmente, vai encontrar um piloto clandestino dono de uma pequena aeronave. Na viagem vagarosa, o homem lhe revela a existência do caracol “Baba Azul”, uma criatura cuja secreção permite vislumbrar o futuro.
Tereza, com a sabedoria de uma avó, sabe que não se deve aceitar coisas de estranhos. Mas ela não está ali como uma avó idealizada, ou uma figura benevolente sem vontade própria (como, com frequência, os mais velhos são representados). A protagonista tem impulso, energia, sede de vida – e até de errar. E, por isso, cedo ou tarde acaba cedendo aos poderes do caracol.
O que ela enxerga com o Baba Azul é história. Assim como o resto de sua busca, que vai se sucedendo até o destino final, tal qual as fases de um videogame, com novos desafios e parceiros de jornada a cada etapa vencida.
Envelhecimento, poder e resistência
Uma das grandes qualidades de “O Último Azul” é o seu questionamento sobre a velhice e o lugar que a sociedade reserva para os mais velhos. O exílio compulsório proposto pelo Estado evidencia uma lógica utilitarista: quem deixa de produzir é mandado embora. O discurso em si é contraditório, visto que a própria Tereza ainda atuava no mercado de trabalho quando foi convocada. Mas o diretor resiste a uma visão simplista da opressão, nos oferecendo, no lugar, uma narrativa onde a maturidade é potência.
É ela que permite a ousadia para sonhar novamente. Tereza não necessariamente nega o seu envio à colônia, mas precisa se sentir viva uma última vez antes disso.
A crítica especializada chamou a atenção para essa espécie de fábula sobre recomeços tardios que a narrativa propõe: em vez de olhar só para o fim, o filme insiste no presente, no que ainda pode ser vivido, mesmo quando o sistema insiste em decretar o contrário.
A própria escolha da Amazônia como palco dessa história potencializa essa reflexão: longe das cidades assépticas e futurísticas que associamos ao gênero distópico, os rios nos convidam a uma reconexão com algo ancestral, vivo e fluido. As paisagens alagadas, os riachos sinuosos, e as árvores embebidas na água dão um tom poético, quase onírico à jornada de Tereza. É como se o rio, o céu e a floresta fossem mais do que cenário — são materializações da própria energia vital da protagonista.
Falando na protagonista, é inegável o brilho que Denise Weinberg empresta à Tereza. Impossível não cair aos pés do carisma da atriz. As camadas que ela dá à velhice da senhora equilibram doçura e obstinação de tal maneira que dá vontade de se cuidar mais para poder envelhecer como ela. Sua personagem foge da caricatura do idoso e sustenta o filme também entre o drama e a sátira política.
Para os estudantes, o lançamento de “O Último Azul” em agosto desse ano veio como um presente. Na redação do Enem, cujo tema provocou sobre as “perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, o longa era match perfeito no quesito repertório sociocultural.
Ainda pensando nos mais jovens, a obra pode servir como um lembrete: velhice não é sinônimo de irrelevância. A jornada de Tereza nos desafia a repensar o envelhecer não como um caminho até um destino inescapável, mas sim como um convite a viver o presente de forma consciente.
De olho na tela
– Envelhecimento e etarismo: como a sociedade produtivista lida com quem já não se encaixa no ideal de eficiência, levando em consideração questões como previdência, trabalho de cuidado e longevidade;
– Biopolítica e controle dos corpos: o Estado decidindo onde cada grupo deve viver, o que pode ou não fazer, em nome de um suposto bem comum;
– Amazônia e desigualdade: a região aparece não como cenário exótico, mas como espaço onde políticas econômicas, precarização do trabalho e disputas de poder se entrelaçam.
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