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Refugiados climáticos: como o aquecimento global pode mover populações

Alterações nos padrões do clima vão fazer com que populações inteiras precisem buscar outros locais para produzir alimentos e ter acesso a água

Por Jennifer Ann Thomas Atualizado em 18 nov 2021, 13h32 - Publicado em 18 nov 2021, 13h23

Enquanto muitas pessoas optam por viver em países diferentes por escolhas individuais, outras precisam se deslocar para sobreviver. O conceito de refugiado foi definido em 1951, com a Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados. Desde então, considera-se refugiada aquela pessoa que cruzou uma fronteira internacional devido ao medo bem fundamentado de ser perseguida por razões ligadas à raça, religião, nacionalidade, participação em determinado grupo social ou opinião política. Com a intensificação da mudança do clima, um novo termo, que não é reconhecido oficialmente, começou a ganhar espaço: os refugiados climáticos ou migrantes climáticos.

São parte desse grupo os indivíduos que foram obrigados a se deslocar em decorrência de desastres ambientais, tornados mais frequentes ou intensos pelo aquecimento global. Ainda não há consenso sobre reconhecer essas pessoas como refugiadas, pelo impacto político e econômico que isso pode causar e também porque as movimentações são mais comuns dentro dos países de origem, sem atravessar fronteiras. As mudanças nos padrões climáticos vão fazer com que algumas regiões sejam mais afetadas do que outras. No Brasil, o Nordeste deve sofrer um processo de desertificação. Neste cenário, milhões de pessoas serão obrigadas a se deslocar para outras regiões. Ignorar estes efeitos das mudanças do clima colocará em risco a população e a própria estrutura do país, pois as pessoas vão procurar refúgio em outros locais. 

Mudança do clima

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, o número de pessoas refugiadas como resultado da mudança climática gira em torno dos 21,5 milhões por ano desde 2010. Além da ocorrência de desastres súbitos, como deslizamentos, furacões, ciclones e enchentes, o aquecimento global também dificulta muito o acesso à água potável, prejudica as plantações e ameaça o gado, tornando a alimentação muito complexa. Outro possível efeito do aquecimento do planeta é o aumento do nível do mar. Ao longo dos últimos 30 anos, a quantidade de indivíduos vivendo em áreas costais com alto risco de serem submersas cresceu em cem milhões.

Ainda que todo o planeta esteja sujeito aos impactos da mudança climática, algumas áreas são mais vulneráveis do que outras. Com frequência, esses hotspots não contam com recursos suficientes para se adaptarem aos fenômenos hostis desencadeados por incêndios, tempestades ou outros eventos do tipo. Nessas regiões, povos inteiros podem se ver obrigados a se deslocarem da noite para o dia, saindo de seu lar em direção a uma área ou país do qual pouco conhecem. Assim, é comum que essas pessoas necessitem de ajuda internacional para conseguirem se restabelecer em suas novas casas.

Efeito global

Uma das regiões mais vulneráveis aos efeitos da mudança climática é o Sahel, faixa da África situada entre o deserto do Saara e as porções do sul do continente. Lá, o deslocamento em decorrência da mudança climática é muito intenso. Somado à extrema pobreza e violência que tomam conta da área, o aquecimento global já forçou o deslocamento de quase 3 milhões de pessoas. Índia, Filipinas, Bangladesh e China são outros exemplos de países bastante vulneráveis aos desastres provocados pelo clima.

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Segundo um relatório do Banco Mundial, até 2050 a América Latina pode contar com 17 milhões de indivíduos forçados a emigrar por causa da mudança climática. No mundo todo, o número pode chegar aos 216 milhões, 40% dos quais devem vir da África Subsaariana. 

Consequências para o Brasil

No Brasil, algumas regiões merecem especial atenção. O Nordeste costuma aparecer como ponto de atenção, uma vez que as temperaturas cada vez mais altas e o crescimento da desertificação podem causar migrações forçadas cada vez mais numerosas. Já a Amazônia pode ter de enfrentar estiagens poderosas e mais frequentes, enquanto o Sudeste apresenta riscos de incidência de tempestades intensas, facilitando a ocorrência de enchentes e deslizamentos. Juntas, essas áreas contam com mais de 150 milhões de habitantes, grande parte dos quais pode se encontrar em situação de vulnerabilidade em razão do clima.

O crescente perigo que a mudança climática representa, inclusive no sentido dos refugiados climáticos, fez com que governos e instituições privadas espalhados pelo mundo prestassem cada vez mais atenção ao tema. Algumas nações, desconfiadas desses migrantes desconhecidos, consideram o deslocamento desses grupos uma verdadeira questão de segurança nacional.

A contribuição do refugiado

De acordo com a organização Refugee Investment Network, os imigrantes nos Estados Unidos possuem um longo histórico de sucesso e cooperação. Segundo dados de 2018, 40% das quinhentas maiores empresas do país foram construídas por imigrantes ou por seus filhos. Além disso, um estudo de 2015 da New American Economy apontou que os 2,3 milhões de refugiados alocados nos EUA pagaram 20,9 bilhões de dólares em impostos.

Durante o Fórum Econômico Mundial de 2020, Filippo Grandi, comissário da Organização das Nações Unidas, afirmou que o mundo deve estar pronto para acolher os milhões de refugiados climáticos. “Precisamos estar preparados para uma grande onda de pessoas se movendo contra sua vontade. Eu não ousaria falar sobre números específicos, é muito especulativo, mas certamente estamos falando de milhões aqui”, disse.

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