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Pesquisa mostra dificuldade de estudante para apresentar soluções aos problemas propostos na redação do Enem

Problema pode ser causado por deficiência no ensino brasileiro; para professor de português, alunos não são estimulados em sala de aula a aplicar o conhecimento teórico na prática

Por Carolina Vellei Atualizado em 16 Maio 2017, 13h56 - Publicado em 25 mar 2013, 17h04

Quem já fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ou está se preparando para a ele, sabe que o grande diferencial da prova de redação é a necessidade de propor soluções a problemas da sociedade. Apesar de essa competência valer 20% da nota final da prova, ela ainda é pouco trabalhada entre os estudantes. É o que mostra um levantamento feito pelo site “Dados do Enem”, que analisou as provas de 2011, com o tema “Viver em rede no século XXI: os limites entre o público e o privado”. Na pesquisa, constatou-se que candidatos de todos os estados brasileiros tiveram desempenho baixo neste quesito, quando comparado com as outras competências.

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O site responsável pelo estudo cruzou dados do exame, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), para montar um panorama geral do desempenho dos estudantes por escolas. Para dar a nota final da redação, o Ministério da Educação (MEC) usa cinco competências (veja todas no quadro abaixo), que podem valer até 200 pontos – a soma total dá os 1000 pontos que valem a redação.

Competência número 1 Competência número 2 Competência número 3 Competência número 4 Competência número 5
Demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias
áreas de conhecimento, para desenvolver o tema dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.
Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos,
opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.
Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários
para a construção da argumentação.
Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado,
respeitando os direitos humanos.

Diferença entre notas

Ao analisar a média nacional, o Mato Grosso aparece com o pior desempenho na competência número 5. Dos 200 pontos possíveis, a média foi de apenas 77,76. No outro extremo, os estudantes com melhor desempenho foram os do Rio de Janeiro, com uma média de 89,93 pontos. Para ter uma ideia de como esse desempenho é baixo, todas as outras competências obtiveram avaliações superiores a 100 pontos.

  Competência número 1 Competência número 2 Competência número 3 Competência número 4 Competência número 5
Média Nacional  125,34  119,03  109,71  111,09  82,30
Melhor Estado (Rio de Janeiro)
 132,64  125,07  116,77  118,2  89,93
Pior Estado (Mato Grosso)
 121,37  114,71  105,73  106,5  77,76

O problema aparece não só nas instituições de ensino público, mas também nas privadas. Os estudantes da rede particular, apesar do melhor desempenho na média geral, também tiveram dificuldade em criar soluções para a problemática da redação. Roraima se destaca com as piores notas quando observado apenas as escolas particulares. Neste estado, a quinta competência fica quase 30 pontos abaixo das outras, com média de 89,14.

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Conhecimento na prática

O papel da competência número 5 do Enem é estimular os candidatos a pensarem em iniciativas de intervenção na sociedade. Para o professor e supervisor da área de português do cursinho Anglo, Francisco Platão Savioli, propor uma solução para um problema é a exigência mais complexa da prova. “Se já é difícil para o governo arrumar uma solução, imagina para os alunos?”, questiona.

Savioli, no entanto, faz uma crítica ao método de ensino brasileiro, que não estimula a participação dos estudantes na sociedade. Segundo o professor, esse é o grande motivo para as notas baixas. O educador afirma ainda que é importante que o Enem abra esse espaço para o aluno opinar sobre questões polêmicas. “Ela é uma competência com uma boa intenção. O objetivo é estimular que o ensino não seja apenas o conhecimento pelo conhecimento, mas sim que a escola dê aplicabilidade ao que o estudante aprende na sala de aula”.

“Se uma redação desse tipo fosse dada para todos os educadores, para todos envolvidos com a educação, eles também teriam resultados parecidos. A educação no Brasil vai mal”, completa Savioli.

Decifrando os dados

E se a educação do Brasil vai mal, são termômetros como o site “Dados do Enem” que podem ajudar a identificar caminhos para melhorar o ensino. A iniciativa do projeto surgiu do brasileiro Felipe Cocco, que desenvolveu de forma independente uma ferramenta capaz de ler os dados divulgados pelo Inep e de torná-los acessíveis à população. O site disponibiliza para as escolas os desempenhos nos exames de 2011 e 2010. As informações do ano passado ainda não foram liberadas pelo governo.

Antes do projeto de Cocco, apenas empresas de consultoria conseguiam analisar os dados e vendê-los a instituições que estivessem dispostas a pagar por eles. Da forma como são dispostos no site do Inep, em tabelas repletas de números avulsos, os resultados não representam uma grande ajuda às escolas.

Felipe Cocco, que sempre gostou de programação e tem facilidade para o estudo de estatística por causa de profissão – é formado em Economia pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos -, fez uma “curadoria” dos resultados, ou seja, organizou as informações e as disponibilizou em gráficos e em comparativos. “Ao mesmo tempo em que o Enem está ficando cada vez mais importante, é importante também entender como ele funciona para ajudar na formação dos estudantes”, afirma Cocco.

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