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Presidente do Inep explica por que redações com receita de miojo e hino de time não receberam nota zero no Enem

Polêmica faz instituto mudar critério de correção, que deverá incluir 'deboche' e 'descompromisso' na lista de motivos de anulação da prova

Por Ana Prado, com colaboração de Carolina Vellei Atualizado em 16 Maio 2017, 13h56 - Publicado em 21 mar 2013, 21h26


Redação com receita de ‘miojo’ teve nota 560. Foto: Reprodução/O Globo

No começo desta semana, vieram à tona dois casos de alunos que “boicotaram” suas próprias redações no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2012 e, ainda assim, não tiveram suas provas zeradas. Fernando César Maioto Júnior, de São José do Rio Preto (SP), colocou trechos do hino do Palmeiras em sua redação sobre imigração no século 21 e tirou nota 500 (a pontuação vai de 0 a 1.000). No outro caso, Carlos Guilherme Custódio Ferreira, de Campo Belo (MG), inseriu uma receita de “miojo” no meio de seu texto, “para não ficar muito cansativo” e teve nota 560. O objetivo dos estudantes, segundo eles próprios disseram em entrevistas, era provar que os corretores não liam as redações com a devida atenção e davam notas aleatórias.


Redação com trechos do hino do Palmeiras teve nota 500. Foto: Reprodução/O Globo

Para parte da opinião pública, Fernando e Carlos Guilherme provaram a tese. O erro proposital cometido na redação deveria ter dado aos estudantes uma nota zero na prova. Então, por que isso não aconteceu? Segundo o edital do Enem, deve ser atribuída nota zero à redação que “não atender a proposta solicitada ou que possua outra estrutura textual que não seja a do tipo dissertativo-argumentativo, o que configurará ‘Fuga ao tema/não atendimento ao tipo textual’”. Outro motivo para a nota zero seria um texto “com impropérios, desenhos e outras formas propositais de anulação, que será considerada ‘Anulada’”.


Texto do edital do Enem, publicado no Diário Oficial da União

Em entrevista ao GUIA DO ESTUDANTE, o presidente do Inep (órgão responsável pelo Enem), Luiz Cláudio Costa, afirma que as redações não se enquadram em nenhum dos casos descritos no edital e que, portanto, a penalidade prevista não se aplica. . “Os estudantes escreveram bons parágrafos sobre o tema, depois entraram com trechos indevidos, mas voltaram ao assunto, propondo inclusive uma intervenção social”, explicou. “Eles foram valorizados pelos parágrafos pertinentes – que somaram mais de sete linhas, mínimo exigido pelo edital – e foram fortemente penalizados pela inserção indevida”, completa.

De acordo com Costa, outro motivo para as redações não terem tirado zero é que os corretores também levam em conta o nervosismo do aluno no momento do exame. Ou seja, por estarem nervosos, poderiam cometer alguns erros e, provavelmente, foi assim que consideraram o caso ,não julgando as inserções como uma forma proposital de anulação. “Isso é algo difícil de identificar. Além disso, o corretor não tem a obrigação de conhecer hinos de times”, diz.

Professores questionam critérios usados

“O corretor provavelmente recebeu a instrução de que o aluno que fizesse referência ao tema em sua redação, mesmo com desvios, não deveria ter a prova zerada”, explica a professora de Redação do cursinho Oficina do Estudante, Ednir Barbosa.

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Ela concorda que o primeiro e último parágrafos das duas redações estão bem escritos e obedecem as exigências e que isso deve ser levado em conta para a correção, mas acredita que houve desrespeito dos estudantes. “Como corretora de um vestibular, eu teria de ter outros critérios, mas como professora de português daria nota zero. O estudante brincou com o texto, mostrou que não estava levando a sério”.

O professor André Valente, do cursinho da Poli, concorda. “De fato, é estranho eles não terem anulado a redação, já que você coloca algo totalmente estranho ao texto, apenas para ocupar espaço. Falamos para os alunos sempre: o problema não é colocar uma receita de miojo, o problema é não fazer sentido no contexto. Pode colocar trechos de música, filmes, porque isso faz parte da constituição de um repertório cultural, das coisas que o aluno vive. Mas precisa ser colocado entre aspas, mostrando que é uma citação e deve ter um sentido para aquilo estar lá”, afirma. “O MEC deve apurar quem foi o corretor e saber por que razão isso passou. Não tenho dúvidas, eu teria anulado”, completa.

A polêmica toda levou o presidente do Inep a propor mudanças na avaliação das redações e incluir “deboches ou descompromisso”, como a receita ou o hino, na lista de motivos de anulação da prova. “Eu estou propondo isso pela seriedade do exame e em respeito aos estudantes que o fazem”, afirmou Luiz Cláudio Costa.

Erros de português

Costa também respondeu as críticas feitas depois de o jornal O Globo revelar que alguns textos que receberam nota máxima no Enem traziam erros crassos de português, como “rasoável”, “enchergar” e “trousse”. “As críticas que têm sido feitas são um equívoco. As redações que receberam nota máxima são boas e o estudante mostrou que tem domínio da norma culta. O edital do Enem não exige que a redação não tenha nenhum desvio para receber nota máxima”, afirma. De fato, o texto diz que pode tirar nota máxima o candidato que “Demonstra excelente domínio da norma padrão, não apresentando ou apresentando escassos desvios gramaticais e de convenções da escrita.”

“E é preciso lembrar que estamos lidando com pessoas de 16, 17 anos que estão em uma situação de extrema ansiedade; é normal cometer erros. Eles só não podem ser recorrentes”, completa, assegurando ainda que o Enem não abrirá mão da exigência da norma culta do português em suas próximas edições.

A professora Ednir discorda. “Acredito que a nota 1.000 não se justificaria para um texto muito bem escrito, mas com erros básicos. Ele poderia receber nota alta, mas não máxima”, diz. Já para o professor André, a questão é delicada. “Há erros e erros. É muito comum trocar uma letra ou cometer um erro de concordância ou regência. O importante é que o erro não tira o sentido do texto”, afirma.

E o professor vai além: “é preciso tomar cuidado porque se tem feito muito espetáculo sobre isso. Tenho a sensação, às vezes, de que há um interesse por parte de certas pessoas em manchar a imagem do Enem”, conclui.

Provas demais para poucos corretores?

Na edição de 2012 do Enem, foram corrigidas 4.113.558 redações. Cada uma foi examinada por dois corretores, sem que um conhecesse a nota atribuída pelo outro. Caso a diferença na nota final tivesse sido superior a 200 pontos, o texto passaria por um terceiro. Para fazer esse trabalho, foram contratados 5.692 corretores que avaliaram, cada um, mais de 1.500 textos por pouco mais de 30 dias e recebiam R$ 2,35 para cada redação corrigida. Além deles, havia 234 supervisores de avaliação, 468 auxiliares e dez subcoordenadores pedagógicos. Segundo o MEC, todos os corretores tinham graduação em Letras e passaram por dois meses de treinamento presencial e a distância, no qual foram abordadas as especificidades de cada competência.

Para a professora Ednir, os corretores provavelmente ficaram sobrecarregados e isso pode ter afetado a qualidade da correção. Mas Luiz Cláudio Costa discorda: “Aumentei em 40% o número de corretores em relação ao ano passado e, após realizarmos testes, consideramos o número razoável. Qualquer vestibular do país usa esse método – em escala muito menor, é claro. Cada corretor faz o seu próprio tempo: eles recebem 50 redações por dia, e é preciso levar em conta que muitas delas são fáceis de corrigir [as que tivessem menos de sete linhas ou tivessem cópias dos textos de apoio, por exemplo, já seriam desclassificadas]. Só depois de terminar as 50 e de ter a correção aprovada por seus supervisores é que a pessoa recebia mais um lote para corrigir”, explica.

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