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“Antologia poética” – Análise da obra de Carlos Drummond de Andrade

Entenda os principais aspectos da obra

Por Redação Atualizado em 27 ago 2019, 13h33 - Publicado em 28 set 2012, 17h31

Dividido em nove partes, que correspondem a diferentes universos temáticos definidos pelo próprio autor, o livro oferece uma visão geral da criação de Carlos Drummond de Andrade desde sua estreia até o início da década de 1960.

O ser e o mundo
Organizada pelo próprio Carlos Drummond de Andrade e publicada em 1962, a Antologia Poética reúne textos que originalmente saíram em diversos livros. A obra foi dividida pelo autor em nove partes, cada uma correspondente a um universo temático específico. São as seguintes: um eu todo retorcido; uma província: esta; a família que me dei; cantar de amigos; na praça de convites; amar-amaro; poesia contemplada; uma, duas argolinhas; tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo.
A seleção que Drummond empreendeu revela alto grau de consciência do escritor sobre seu fazer poético. Os temas que escolheu são basicamente os mesmos que a crítica, no futuro, sintetizaria como os fundamentais em sua vasta obra.

Há uma tensão na poesia de Drummond, principalmente a partir do livro “Sentimento do Mundo” (1940), que faz o poeta questionar sua atividade com extrema severidade. Tal tensão tem como eixo temático uma oposição entre o ser do poeta e o mundo exterior. Quando o eu-lírico se volta para si, sente que seria melhor dirigir-se ao mundo; quando se volta para o mundo, sente que seria menos pretensioso limitar-se à esfera do ser.

No “Poema de Sete Faces”, o polo do ser tem prioridade, como mostram os seguintes versos:

Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Num poema posterior, “Mundo Grande”, o eu-lírico parece responder àquela sentença:

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Essa tensão de impulsos contraditórios será a origem de todos os desdobramentos temáticos indicados pelo poeta.

1) Um eu todo retorcido
Na primeira parte do livro estão poemas que tratam da questão do indivíduo. O eu-lírico fragmentado se apresenta como um deslocado no mundo, na figura do gauche (palavra francesa que significa, literalmente, esquerdo).

A imagem retoma a tradição francesa do poeta inadaptado, que tem como referência central Charles Baudelaire. Isso ocorre, por exemplo, no próprio “Poema de Sete Faces”:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

2) Uma província: esta
Nessa seção, há poemas sobre a terra natal do autor. Permeados de atmosfera nostálgica, não se deixam levar pelo saudosismo, mas, antes, questionam o espaço natal, colocando sempre em evidência que o espaço é também uma criação subjetiva.

Trata-se, portanto, de um prolongamento da questão do eu em relação ao mundo. Em “Confidência do Itabirano” diz:

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação

3) A família que me dei
Os poemas expressam uma profunda reflexão do poeta sobre o atributo da memória. A família é criação do eu. A memória cria nostalgia e saudade, a partir do presente, articulando fragmentos esparsos de um passado sem nenhum sentido pressuposto. O questionamento a respeito da memória deve destruir a sua ilusão para recompô-la em seguida, no plano da criação poética. Um exemplo é “Infância”:

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

4) Cantar de amigos
Esse bloco de poemas trata da temática da amizade, mas de uma amizade estabelecida no plano poético, como se os amigos fossem ligados ao eu-lírico, esse “Carlos” mitológico, que não deve ser confundido com o próprio poeta e que saúda Manuel Bandeira, nos belos
versos de “Ode no Cinqüentenário do Poeta Brasileiro”:

Debruço-me em teus poemas
e neles percebo as ilhas
em que nem tu nem nós habitamos
(ou jamais habitaremos)
e nessas ilhas me banho
num sol que não é dos trópicos,
numa água que não é das fontes
mas que ambos refletem a imagem
de um mundo amoroso e patético.

5) Na praça de convites
Poesia que se aproxima do lúdico. Procura-se, nos herméticos caminhos da linguagem, um sentido para a atividade poética no mundo contemporâneo.

Resta à poesia o jogo desinteressado com a linguagem, como uma prática da arte mais técnica, uma espécie de poesia para poetas. Veja-se “Política Literária”:

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O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.

6) Amar-amaro
Aparece aqui a tensão entre o mundo exterior e o ser do poeta. É um momento de angústia e medo, que lembra bastante a perspectiva da II Guerra Mundial (1939-1945). Em “Sentimento do Mundo”, o poeta diz:

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

O eu-lírico mostra sua pequenez enquanto matéria, mas acredita numa forma de transformação social, que se mantém apenas como perspectiva embrionária. Essa “esperança” não é apenas na transformação do mundo exterior, mas de todas as relações humanas. Quase sempre, porém, tal perspectiva é sufocada por forças gigantescas que partem a unidade dos seres e os tornam incomunicáveis e incompreensíveis uns aos outros e a si mesmos. Em “O Elefante”:

Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais

7) Poesia contemplada
Poemas de cunho metalinguístico, ou seja, em que o poeta constrói uma reflexão sobre o próprio fazer poético. O senso estético do autor alcança grande dimensão de consciência, e a tensão entre o eu e o mundo se atenua, já que o eu-lírico suspende a existência de ambos para situar-se no território da linguagem (“penetra surdamente no reino das palavras”).

Drummond atinge, nesse momento, uma dimensão parecida com a do poeta francês Stéphane Mallarmé, numa postura de arte pela arte, ou seja, a arte existe por si e é justificativa de si mesma. O poeta não deve, portanto, buscar a expressão de qualquer sentimento, sensação ou objeto exterior. O tema de sua poesia está no nada que se esconde por trás das coisas, esse nada que as cria e que é a própria linguagem. O poeta parece compreender que tudo o que está no poema só existe como linguagem. Em “Procura da Poesia”, diz:

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

8) Uma, duas argolinhas
Poemas sobre o conhecimento amoroso, nos quais a própria natureza do amor é contestada: ele será visto mais como criação subjetiva do que como fenômeno exterior, um dado natural. O angustioso ato de amar, no entanto, não se contenta em saber disso e tem quase sempre um desfecho triste, um travo amargo.

O amor, tema que foi tão largamente utilizado pela poesia e por isso poderia parecer desgastado, ganha nova significação, numa estrutura poética que leva em conta o próprio ato criativo implícito na experiência subjetiva do amar. O poeta não expressa o amor, mas cria uma narrativa sobre esse sentimento, como em “O Amor Bate na Aorta”:

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

9) Tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo
O mundo aparece como uma “máquina” sem sentido prático a priori. O eu busca uma compreensão impossível, que está para além das coisas. O ideal de uma arte pura tropeça nos impedimentos do mundo, na simbologia dos objetos: a “pedra no meio do caminho”, o “resíduo”. Após a destruição do mundo, busca-se o que resta, essas marcas que permanecem, que perduram na existência e resistem, de maneira precária, à ação do tempo. “Tristeza no Céu”:

No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.

Comentário do professor
Carlos Drummond de Andrade é, por assim dizer, o poeta da razão, o poeta tenso, cuja sensibilidade é reveladora de uma aguda percepção da realidade circundante. Ele observa o mundo ao seu redor e dele retira impressões angustiantes e pungentes. Pretende encontrar uma explicação para o fenômeno árduo de existir, de estar no mundo.

Estamos diante de um poeta cujo estro é predominantemente amargo e trespassado pela angústia diante de um mundo negativo, árido e deformado, no qual o homem (individual) confronta-se com a sociedade (coletivo) preconceituosa e constrangedora. O choque entre o indivíduo e a sociedade resulta, geralmente, no que se costuma chamar de “poesia do impasse”, a poesia daquilo que não tem solução aparente, a não ser a necessidade imediata de sobreviver, de suportar a dor e a opressão do mundo caótico, desordenado.

Em 1962, ao completar 60 anos, Drummond publicou uma coletânea de poemas sob o título de “Antologia poética”. Na nota informativa dessa edição histórica, o próprio poeta afirma que o critério utilizado para a escolha dos poemas obedeceu a certas características, preocupações e tendências que condicionam a obra como um todo. Segundo o autor, os poemas foram distribuídos em nove seções ou linhas temáticas: 1) O indivíduo; 2) A terra natal; 3) A família; 4) Amigos; 5) O choque social; 6) O conhecimento amoroso; 7) A própria poesia; 8) Exercícios lúdicos; 9) Uma visão, ou tentativa de, da existência.

Se cotejados com atenção, os nove temas constituem, na verdade, partes de um todo simétrico, além de estarem coerentemente interligados. Vejamos: o 1) indivíduo nasce num 2) contexto cultural qualquer (sua terra natal), inserido num 3) ambiente familiar. No decorrer dos anos, faz 4) amigos, interage com a 5) realidade circundante, política e socialmente. Em seguida, conhece o 6) amor, que lhe inspira para a descoberta da 7) poesia, chegando a 8) brincar com as palavras e com sua estrutura estética. Depois de estabelecido como um homem pleno, 9) constrói suas impressões e reflexões sobre a vida, sobre a existência.

Além dessas linhas temáticas e do conhecido antilirismo seco que caracteriza a produção literária de Drummond, é importante que se perceba seu vínculo ao chamado primeiro modernismo, isto é, o modernismo da Geração de 1922. Como se sabe, o poeta mineiro herdou as conquistas propostas na Semana de Arte Moderna e, por meio de uma personalidade literária singular, soube traduzir o verso livre, a brevidade textual e uma crítica social penetrante, estabelecendo-se, desde o início de sua carreira, como uma voz decisiva nas letras brasileiras. Suas obras “Alguma poesia” (1930), “Sentimento do mundo” (1940), “José” (1942), “A rosa do povo” (1945), “Claro enigma” (1951) a “Lição de coisas” (1962), são alguns dos títulos de uma carreira que fez da arte poética uma ferramenta de investigação dos conflitos, das angústias e das inquietudes humanas.
Marcílio Bittencourt Gomes Jr. – Professor da Oficina do Estudante – Campinas

Sobre Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902. Por insistência da família, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Junto com outros escritores mineiros, fundou “A Revista”, importante revista modernista mineira. Após ingressar no serviço público, mudou-se em 1934 para o Rio de Janeiro, onde viveu até morrer em 17 de agosto de 1987.

A partir dos anos de 1950, passou a dedicar-se cada vez mais à produção literária. Apesar de sua maior obra ser poética, publicou também contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Portador de uma ironia ímpar e um amargor característico, Drummond produziu uma obra que problematiza questões sociais, existencialistas, amorosas e da própria poesia. Suas poesias de cunho social fortemente marcada por uma influência de esquerda são consideradas sua obra-prima.

Entre suas principais obras poéticas estão os livros “Alguma Poesia” (1930), “Sentimento do Mundo” (1940), “A Rosa do Povo” (1945), “Claro Enigma” (1951), “Poemas” (1959), “Lição de Coisas” (1962), “Boitempo” (1968), “Corpo” (1984), além do póstumo “Farewell” (1996).

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