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“As vítimas algozes” – Análise da obra de Joaquim Manoel de Macedo

Entenda os principais aspectos da obra

Por Redação Atualizado em 12 abr 2018, 18h14 - Publicado em 23 ago 2012, 00h52

Em “As vítimas algozes”, obra publicada em 1869, Joaquim Manoel de Macedo faz uma defesa da abolição da escravatura utilizando, porém, argumentos bem diferentes aos dos direitos humanos e da igualdade social.

– Leia o resumo de “As vítimas algozes”

Um discurso abolicionista às avessas
Em “As vítimas algozes”, Joaquim Manoel de Macedo conta a partir do ponto de vista dos senhores donos de escravos três histórias distintas onde o escravo, vítima direta da escravidão, pode se tornar algoz (carrasco, atormentador) de seus senhores. Apesar de manter um discurso abolicionista, sendo que cada história termina com uma lição de moral, Manoel utiliza argumentos bem diferentes aos dos direitos humanos e da igualdade social.

Nas três narrativas presentes em “As vítimas algozes”, os senhores de escravos são sempre colocados como pessoas nobres, de boas intenções e generosos para com seus escravos. Em contrapartida, os escravos são sempre apresentados como seres terríveis, capazes de todas as maldades e com uma raiva e inveja de seus senhores que não pode ser abrandada. Colocando os senhores em uma posição de vítima, eles são inocentados de qualquer culpa.

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Assim, pode-se dizer que a obra é favorável à abolição dos escravos não por pensar na condição em que os escravos vivem, mas porque a perversidade dos escravos irá se voltar contra seus senhores. No livro existem algumas passagens em que o narrador afirma que não é porque o escravo é africano que eles são maus (vide Joana, a antiga ama-de-leite de Cândida na terceira narrativa), mas sim porque a condição de escravos faz isso com eles.

Dessa forma, sustenta-se na obra a ideia de que a escravidão é algo ruim porque torna os escravos seres cruéis, criminosos e assassinos. Através da representação dos escravos como seres da pior espécie, busca-se criar nos leitores (que são senhores de escravos) o medo de forma a conseguir apoio para o movimento abolicionista.

Pode-se dizer, portanto, que “As vítimas algozes” é um “romance de tese”, pois o objetivo central das histórias contidas nesta obra é fazer com que os senhores que possuíam escravos passassem a apoiar a abolição da escravatura no país. Porém, a obra não foi bem recebida pelo público e o apelo abolicionista contido no livro encontrou grande resistência dos conservadores.

Comentário do professor
Comentários do professor Deco Duarte do Colégio Gregor Mendel
“As vítimas-algozes: quadros da escravidão” traz, como o próprio nome já antecipa, “quadros”, situações e parábolas envolvendo escravos e seus senhores. Em três novelas — narrativa intermediária entre o conto e o romance —, o autor, um dos mais renomados do período romântico brasileiro, tenta expor as consequências advindas à família senhorial pelo contato com escravos. Macedo, valendo-se de seu prestígio literário no Brasil Império, faz uma obra destinada a convencer o público leitor da necessidade de se fazer a abolição, sob pena de haver uma contaminação dos valores da classe senhorial devido ao contato com a escravidão e suas mazelas. Uma obra abolicionista, é fato, mas que não se inclina ao lado humanista da questão, pois o que está em jogo não é a idoneidade física do negro, mas a preservação do status da classe dominante e de seus valores.

Nas três novelas que compõem a obra — “Simeão, o crioulo”; “Pai-Raiol, o feiticeiro”; e “Lucinda, a mucama” —, Macedo usa o terror como estratégia de persuasão. Invariavelmente nas três histórias, o escravo, que, de vítima, é transformado em algoz pelas mazelas da escravidão, atentará contra o senhor, seja através do crime contra a vida (como é o caso das duas primeiras novelas), ou contra a honra da família (como acontece na última delas). Interessante é que a tese de Macedo (a escravidão transforma o negro em um ser vingativo) atende aos princípios naturalistas do determininsmo, não havendo fuga para os escravos, como em um raciocínio matemático lógico do tipo: se é escravo, vingar-se-á do senhor em algum momento de sua trajetória de vida. Já a classe senhorial — o público de Macedo — é vista sob uma ótica romântica, não economizando o autor os elogios a seus integrantes. Um livro de caracterização híbrida, com pouca repercussão em seu tempo, mas que traz uma visão de mundo bastante interessante sobre a situação racial no Brasil do século XIX.

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