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“Cidade de Deus” – Análise da obra de Paulo Lins

Entenda os principais aspectos da obra

Por Redação Atualizado em 12 abr 2018, 17h06 - Publicado em 23 ago 2012, 01h20

– Leia o resumo de “Cidade de Deus”

A “neofavela” de Cidade de Deus

“Cidade de Deus”, primeiro romance de Paulo Lins, é fruto de um intenso trabalho antropológico realizado pelo autor no período que vai de 1986 a 1993 na própria favela que dá título à obra. Tendo morado na Cidade de Deus, Paulo Lins conhece o cotidiano, as histórias, a violência e toda a vida do local, transferindo tudo isso de forma não só literária, mas também documental, para a sua obra. Dessa forma, a história narrada em Cidade de Deus é baseada em fatos reais. Para tentar diferenciar este local caótico das antigas favelas, que eram redutos do samba e da boa malandragem carioca, e redefinir o local onde cresceu, Paulo Lins utiliza o termo “neofavela”.

O livro é dividido em três partes e traça um painel das transformações sociais pelas quais passou a Cidade de Deus, desde sua criação e os pequenos assaltos que aconteciam durante os anos de 1960, ao caos e violência extrema causados pelo tráfico de drogas nos anos 90. Assim, com exceção de alguns flashbacks, a narrativa segue uma linha cronológica linear e os fatos são narrados conforme vão acontecendo.

Porém, por mais que a narrativa seja linear, ela segue um ritmo frenético e possui uma grande variedade de estilos. Essa variação no estilo da narrativa também é causada pela grande liberdade com que o narrador, que é onisciente e em terceira pessoa, conta a história. Constantemente há cortes na narrativa que servem para apresentar ou descrever uma personagem, contar algum fato, ou ainda para descrever o local. De fato, a descrição pormenorizada do local, das personagens e também da brutalidade com que os crimes são feitos é uma das características principais da obra. Por conta disso, a obra se aproxima dos romances real-naturalistas na medida em que há uma animalização das personagens (imposição do poder através da “lei do mais forte”, a crueldade, o apetite sexual desgovernado, etc) e também um exagero nas descrições de pormenores das brutalidades narrados. Outra característica que aproxima Cidade de Deus dos romances naturalistas é o fato da própria favela – o ambiente – ter grande destaque dentro da obra, sendo o destino das personagens carregado de um certo tom fatalista por elas não conseguirem escapar da realidade que o local impõe.

Na primeira parte do romance, acompanha-se a ocupação do local e as histórias das pessoas que se mudaram para lá e formaram a Cidade de Deus. Vê-se o surgimento das quadrilhas e seus pequenos assaltos, movidos mais pela vontade de obter dinheiro e levar uma vida mais confortável do que pela sede de poder. Dessa forma, ainda tem lugar de destaque na narrativa o amor e o casamento, uma forma simples e quase idealizada do “viver feliz”. Por sua vez, a atuação da polícia no combate ao crime é, apesar de violenta, efetiva.

Já na segunda parte, tem-se a ascensão do tráfico de drogas e o início da luta pelo poder e comando da Cidade de Deus. Essa fase da favela é marcada pela ambígua ação dos criminosos: se por um lado os comandantes respeitam a comunidade e dão proteção a seus moradores, por outro eles são extremamente violentos e cruéis com seus inimigos. Em paralelo, há o surgimento da classe dos “cocotas”, jovens de classe média alta que vão ao morro em busca de drogas e diversão. A descrição dos diversos grupos que compõem a comunidade da Cidade de Deus também tem lugar na narrativa, com destaque para a vida dos homossexuais através da personagem Soninha (ou Ari) e seu romance com Guimarães. Além disso, a corrupção do sistema carcerário e dos policiais começa a ser um traço marcante na história.

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Por fim, na terceira parte, que é centrada em Zé Pequeno, o mais temido comandante do tráfico na Cidade de Deus, acompanha-se a busca desenfreada pelo poder na favela e o verdadeiro estado de guerra que surge no local. As intermináveis mortes, a rápida sucessão com que o comando do tráfico se dá, a corrupção da polícia e suas chacinas, tudo isso é narrado com grande crueza e realismo. Em contraparte, surge a figura do homem que quer fazer justiça com as próprias mãos (o Mané Galinha), mas que por fim acaba morrendo sem conseguir mudar o destino da favela.

Em contraste à violência exacerbada do local, Paulo Lins faz questão de trazer a tona o lado cultural da Cidade de Deus. A comunidade da favela é predominante negra, vindo a ter bastante influência no cotidiano dessas pessoas os cultos religiosos afro-brasileiros, como o Candomblé e a Umbanda. O culto à São Jorge, um dos santos mais fortes do sincretismo dessas religiões com o catolicismo, é o que dá força a muitas das personagens. Além do aspecto espiritual e devocional, têm-se as festas de samba, o carnaval, os clubes e bailes. A natureza exuberante vista do alto do morro também aparece como contraponto à dura realidade da vida local. Também ganha destaque a culinária, que é fruto de uma série de tradições regionais de todo o país.

A diversidade cultural presente em Cidade de Deus também vem à tona no livro através da rica linguagem empregada pelo autor, fruto de um intenso trabalho de pesquisa linguística realizada por Paulo Lins. A forma com que a comunidade se comunica e todas as suas variantes e características são preservadas (e muitas vezes até ressaltadas) na narrativa.

Comentário do professor
Comentário do professor Ronnie Roberto Campos, do Colégio Adventista de Londrina:
Embora seja o romance de estreia do escritor, “Cidade de Deus” surpreende tanto o leitor casual quanto a crítica especializada, principalmente pela habilidade em conduzir uma narrativa tão complexa, na qual a violência acaba sendo a personagem principal. Sem prescrever juízos ou defender posicionamentos filosóficos, o texto faz um retrato do desenvolvimento da violência em uma comunidade da periferia do Rio de Janeiro. Não é a história de uma ou outra personagem, é a história de uma comunidade.

Pensando no vestibular, o paralelo com “O cortiço”, de Aluísio de Azevedo, é inevitável. Embora haja quase um século entre uma obra e outra, há vários aspectos que poderiam, à primeira vista, aproximar as duas: o grande número de personagens vivendo conflitos diferenciados, a descrição rica em detalhes, a denúncia de uma sociedade corrompida pela discriminação, violência, tráfico de drogas, prostituição e abuso de poder, tudo isso aliado a um cenário miserável e degradante. No entanto, Paulo Lins vai além desse estilo, aliás, vai além de qualquer rótulo. O estilo empregado em “Cidade de Deus” é inovador tanto na construção dos períodos, quanto no uso da linguagem. A perfeita adequação na escolha das variantes linguísticas utilizadas no discurso direto e na fala do narrador fornece vasto campo para a elaboração de questões, não só na disciplina específica de Literatura como em Língua Portuguesa.

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