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Como foi o governo de Juscelino Kubitschek?

Durante cinco anos, o presidente Juscelino Kubitschek fez o país acreditar que estava entrando no Primeiro Mundo

Juscelino Kubitschek (1956-61)

Juscelino Kubitschek (1956-61) (Wikimedia/Wikimedia Commons)

Imagine um país que fosse campeão mundial em otimismo. Que fizesse bonito não só no futebol, mas no tênis, boxe e atletismo. Pense num povo que pudesse se orgulhar de produzir uma música sofisticada que conquistasse as paradas de sucesso em todo o mundo na voz de grandes ídolos internacionais, incluindo o maior deles, Frank Sinatra. Imagine uma nação que recebesse, de uma só vez, a Palma de Ouro no festival de cinema de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro. Pense numa economia em que as indústrias se multiplicassem a olhos vistos, os dólares não parassem de chegar e a produção de petróleo aumentasse 15 vezes em cinco anos. Por fim, imagine ainda que essa terra ostentasse como capital a cidade mais moderna do planeta.

Esse país, acredite, existiu. E o mais incrível: era o Brasil. Na segunda metade da década de 50, parecia que havíamos “chegado lá”, que tínhamos deixado para trás o estigma de ser uma nação rural, doente, analfabeta e condenada ao subdesenvolvimento e que estávamos prestes a conquistar uma cadeira no seleto clube dos países do Primeiro Mundo. Embalado por essa crença, o país vivia um momento de entusiasmo. Nas palavras de Nelson Rodrigues, um escritor emblemático da época, o brasileiro se libertava do “complexo de vira-latas”.

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De onde vinha tanto otimismo? Para historiadores, jornalistas, ou para quem apenas viveu aqueles anos dourados, a fonte de tanto brilho era a figura sorridente e jovial do presidente Juscelino Kubitschek. Mas, num típico dilema do “ovo ou a galinha”, será que Juscelino gerou o clima de otimismo ou foi gerado por ele? Para a historiadora Marly da Silva Motta, do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), as duas coisas.

Desde o suicídio de Getúlio, o mais popular presidente brasileiro, em agosto de 1954, o país vivia uma crise política. A comoção que se seguiu à morte do “velhinho” não arrefeceu as ambições de seus opositores, mas os impediu de chegar ao poder pelas urnas. Em 1955, o povo escolheu Juscelino Kubitschek, que encabeçava uma coligação entre o PTB de Getúlio e o Partido Social Democrata (PSD). Eleito em outubro, ele só assumiu em janeiro de 1955, após ameaças de golpe e um intrincado jogo político de bastidores. “A vitória da democracia foi a primeira boa notícia dos anos JK”, diz Marly. Um a zero para o ovo.

Mineiro de Diamantina, ex-telegrafista, dono de uma carreira política meteórica (elegeu-se deputado federal em 1934, foi nomeado prefeito de Belo Horizonte em 1940, eleito deputado constituinte em 1946 e governador de Minas em 1950), o médico Juscelino Kubitschek de Oliveira chegou à presidência prometendo fazer o Brasil saltar, em um único mandato, meio século à frente na história: o slogan de campanha “50 anos em 5” tornou-se lema de governo. Para cumprir a promessa, ele apostava tudo no chamado Plano de Metas, um listão de 30 prioridades nas áreas de energia, industrialização, transportes, alimentação e educação.

Plano de Metas

Se na política Juscelino era um seguidor do getulismo, defendendo a industrialização e a modernização, no campo econômico ele divergia do mentor, principalmente no que se referia ao influxo de capitais estrangeiros. “O que me interessa é a fábrica que o fulano tem, não o país onde ele mora”, dizia. O abandono do discurso nacionalista de Getúlio fez com que seu governo atraísse os conservadores da União Democrática Nacional (UDN), conseguindo apoio quase unânime para seus projetos nos primeiros anos de mandato.

Juscelino gostava de cultivar a lenda de que o Plano de Metas tinha sido elaborado por ele próprio na banheira da casa de um dos cunhados, Júlio Campos. Na verdade, o documento foi preparado pelos técnicos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, o BNDE, atual BNDES. Gente ligada à UDN, como o engenheiro Lucas Lopes e o economista Roberto Campos. A receita era, em resumo, a seguinte: o país deveria deixar de ser um exportador de matéria-prima para o mundo civilizado e desenvolver, aqui dentro, um poderoso parque industrial.

O plano tinha um aliado externo. Nos anos do pós-guerra, a economia mundial crescia como nunca, principalmente a norte-americana. Além disso, em meio à Guerra Fria, o governo americano via nos investimentos no Brasil, maior e mais populoso país latino-americano, uma forma de deter a “ameaça comunista”. De olho nos dólares, Juscelino voou para os Estados Unidos antes mesmo da posse e lá foi recebido pelo presidente Eisenhower. Depois foi à Alemanha, Inglaterra, França e Itália.

Na época em que o país era apresentado à escada rolante e inventava a bossa nova, as empresas estrangeiras recebiam incentivos maciços para se instalar no Brasil. Indústrias automobilísticas como as alemãs Volkswagen e DKW chegaram e ajudaram a mudar de vez o cenário das ruas locais. Uma trouxe o popularíssimo “Fusca”, que virou instituição nacional, a outra lançou um dos símbolos da época: o simpático e barulhento “Decavê”, apelido inspirado na sigla da montadora, Dampf Kraft Wagen, impronunciável para os brasileiros.

Entre 1955 e 1961, 2 bilhões de dólares entraram no país. Com o tempo, o impacto desses investimentos se transformou em razões concretas para o otimismo ostensivo que tomou conta do Brasil. Fusquinhas, jipes e Kombis, fabricados em série pela primeira vez no país, fizeram a classe média trocar o bonde pelo carro próprio e, grande novidade, construir casas com garagens no jardim. Da porta para dentro, um arsenal eletrônico mudava para sempre a rotina dos lares: liquidificadores, vitrolas, geladeiras, enceradeiras, espremedores de frutas e, principalmente, televisores.

Em nome da lei: Os bastidores da ação militar que deu posse a JK

“Esse homem não pode tomar posse”, escreveu Carlos Lacerda no editorial do jornal Tribuna da Imprensa de 9 de novembro de 1955. O alvo era Juscelino, que, nas eleições presidenciais do mês anteror, havia tido uma vitória apertada sobre o principal adversário, Juarez Távora: 36% dos votos contra 30%. Membro da conservadora União Democrática Nacional (UDN), Lacerda dizia que Juscelino não obtivera a maioria absoluta dos votos (50% dos eleitores mais um), o que tiraria a legitimidade de seu mandato. Puro jogo de cena, já que a Constituição garantia a vitória do mais votado. Lacerda acusava-o ainda de ter recebido apoio do clandestino Partido Comunista, colocando mais tensão em um país que já estava em sobressalto desde agosto do ano anterior.

Acusado pelo mesmo Lacerda de ter jogado o país num “mar de lama”, o então presidente Getúlio Vargas havia se suicidado. O cargo passara às mãos do vice, Café Filho, que, em meio ao clima de golpe que se seguiu à eleição de Juscelino, foi internado em 3 de novembro de 1955 (alegou fortes dores no peito). Em seu lugar, assumiu o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz, aliado de Lacerda. Tudo parecia pronto para um golpe. A primeira medida de Luz foi tentar demitir o ministro da Guerra, o general Henrique Teixeira Lott (que, ao contrário de muitos militares, defendia a posse de JK).

Após chamá-lo em seu gabinete, na tarde de 10 de novembro, Carlos Luz o fez esperar por duas horas. Quando finalmente o recebeu, por volta das 20h, foi para lhe informar que não iria punir o coronel Jurandir Bizarria Mamede (autor de inflamado discurso contra Juscelino, feito dez dias antes, em desrespeito à ordem dada por Lott para que seus comandados evitassem se pronunciar sobre o assunto). A irritação do ministro foi imensa. Por uma questão de autoridade moral, via-se obrigado a entregar o cargo no ato. Era exatamente o que Luz desejava – naquela mesma hora, o Diário Oficial já estava sendo impresso, com uma nota sobre a exoneração de Lott. Mas o general também havia blefado. Após sair da audiência, passou a noite disparando telefonemas aos quartéis, convocando oficiais e soldados leais a ele.

Nas primeiras horas da manhã seguinte, 25 mil homens armados e dezenas de tanques tomavam conta das ruas do Rio de Janeiro, ainda a capital federal, exigindo (e conseguindo) a renúncia de Luz. A situação foi batizada de “contragolpe”: uma ação militar derrubando um governo para manter a legalidade.

Crescimento

As metas de Juscelino conquistaram todo mundo: Congresso, imprensa e povo estavam convencidos de que, se quiséssemos desenvolver o Brasil, precisávamos de indústrias de ponta. Se estávamos fabricando milhares de automóveis, precisávamos construir rodovias. Uma vez abertas as estradas, levaríamos o desenvolvimento até os lugares mais distantes do território nacional. Assim, todas as ações seriam postas em prática de forma harmoniosa, como elos de uma corrente. E não é que a coisa funcionou? Quando os resultados começaram a aparecer, o país passou a viver a fase que os livros de história costumam chamar de “euforia” ou “surto desenvolvimentista”.

Só nos dois primeiros anos do governo JK, o número de estradas pavimentadas cresceu 300%. A quantidade de indústrias triplicou e passou a empregar dez vezes mais gente. Para abastecer de energia as novas indústrias, o governo construiu hidrelétricas gigantescas como Furnas e Três Marias, ambas em Minas Gerais. E a economia passou a colecionar recordes. Entre 1957 e 1961, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu a uma taxa anual de 7%, três vezes mais que o restante da América Latina. O Produto Nacional Bruto, o PNB – que difere do PIB porque inclui a renda enviada do país ao exterior –, cresceu 7,9%, contra 5,2% do qüinqüênio anterior. A frota brasileira cresceu 360% em dez anos.

“Foi um momento raro, quando o Brasil viveu uma combinação de dois fatores que não costumam ocorrer por aqui: crescimento econômico e democracia”, diz Marly Motta. Para a historiadora, isso não deve ser menosprezado. Pelo contrário, o binômio liberdade e prosperidade talvez seja justamente o tal passaporte para o Primeiro Mundo.

Quando éramos reis: Na época de JK,o Brasil produzia seus próprios ídolos

Tom Jobim: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.” Embalados pela revolução musical que ganharia o mundo, a bossa nova, os versos de Tom foram a trilha sonora dos anos JK.”Garota de Ipanema” tornou-se a música mais gravada em todo o planeta. Frank Sinatra, então o cantor mais popular do mundo, arriscou um sofrível português para gravá-la. Com Vinicius de Moraes, Tom assinou a trilha sonora de Orfeu Negro, produção franco-brasileira que em 1959 conquistou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Oscar Niemeyer: Quando foi convidado para desenhar os prédios e monumentos de Brasília, ele recebeu de JK a seguinte exigência: “Tem que ser a capital mais bonita do mundo”. Comunista de carteirinha, Niemeyer levou o recado bem a sério. O mais premiado dos arquitetos brasileiros construiu uma cidade que ele dizia ter “a transparência do cristal e a lógica de uma equação”.

Carlos Lacerda: Comunista na juventude, ficou célebre quando virou a casaca e se tornou um dos maiores ícones do conservadorismo brasileiro. Considerado um “demolidor de presidentes”, era um conspirador nato. Tinha o agourento apelido de “Corvo”.

Martha Rocha: Dizem que foi por causa de 2 polegadas a mais nos quadris que o Brasil deixou de fazer a Miss Universo 1954. A bela Martha, de cabelos dourados e olhos azuis, provocou furor no concurso, mas o júri tinha lá sua favorita e deu a ela o segundo lugar. Em 1958, outra brasileira, Adalgisa Colombo, repetiu a proeza e ficou em segundo lugar no concurso.

Garrincha: Em 1958, o Brasil enfim provou que tinha o melhor futebol do mundo. Com o endiabrado Garrincha e o jovem Pelé, levou a Copa da Suécia. Em 1956, Adhemar Ferreira da Silva já havia ganhado seu segundo ouro olímpico no salto triplo. Em 1961, Éder Jofre seria campeão mundial de boxe e Maria Esther Bueno bicampeã no torneio de tênis de Wimbledon.

Adolpho Bloch: Magnata, foi dono de um dos maiores sucessos editoriais do país. A família Bloch chegara aqui em 1922, fugindo da perseguição aos judeus na Europa. Em 1951, Adolpho fundou a revista Manchete e começou a fazer história na imprensa brasileira. Gabava-se de ter sido o criador do slogan “50 anos em 5”, com o qual mandara imprimir 20 mil cartazes que doou à campanha de JK, de quem se tornaria amigo íntimo.

Jorge Guinle: Com seus cabelos com gumex, encasacado em seu elegantérrimo summer e fumando cigarrilhas, Jorginho encarnou no país a figura do playboy, símbolo de uma época cheia de glamour, em que o Rio entrou no circuito do jet-set internacional e o Brasil namorava com Hollywood. No caso de Jorginho Guinle, literalmente. Herdeiro da família que construiu o sofisticado Copacabana Palace, em seu caderninho de autoproclamadas conquistas constavam nada menos que os nome das deusas Marilyn Monroe, Rita Hayworth, Kim Novak, Hedy Lamarr e Jayne Mansfield.

 

O jornalista Claudio Bojunga, autor de JK: o Artista do Impossível, acredita ainda num terceiro fator nessa equação. “Além de rimar crescimento econômico com liberdade, Juscelino tinha um compromisso com o sonho e com a imaginação”, disse o biógrafo de JK. “É verdade. Ele tinha borogodó”, diz o escritor e jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, autor de Feliz 1958, o Ano que não Devia Terminar. “Borogodó”, gíria dos anos 50, segundo o Dicionário Houaiss, é um substantivo masculino que significa “atrativo pessoal irresistível”. Para Bojunga, ele era um político hábil e sedutor, que sabia compor alianças como poucos. “Talvez ninguém melhor do que o mulherengo JK para encarnar a definição dada pelo cronista Rubem Braga para o exercício da política: ‘É a arte de namorar homem’.”

O carisma de Juscelino se tornou, já naquela época, uma lenda. O presidente era um astro, o nosso John Kennedy: jornalistas, escritores, poetas, artistas, câmaras de cinema, todos o adoravam. Na imprensa, ele virou um mito, quase um semideus. Mas um semideus pé-de-boi, que trabalhava cerca de 20 horas por dia e se deixava fotografar na cama, com o telefone à mão, acordando ministros no meio da madrugada. Na Veja da época, isto é, na mais vendida e influente revista do país, a Manchete, o presidente aparecia semanalmente dirigindo o Brasil como um imenso canteiro de obras.

O coroamento simbólico, quase mítico, de toda aquela ideologia do trabalho e prosperidade foi a construção de Brasília. Juscelino se pôs a erguer no meio do nada, nos desertos do Planalto Central, uma nova capital. Foi o ápice do otimismo, que tomou conta dos brasileiros, até dos mais brilhantes e famosos: “Juscelino é o poeta da obra pública”, elogiou o escritor mineiro Guimarães Rosa. “A nova cidade crescia num ritmo alegre de trabalho e confiança”, emendou o poeta Vinicius de Moraes, na contracapa do disco Sinfonia da Alvorada, que gravou em parceria com Tom Jobim, em 1960, para homenagear a nova sede política do país. “Juscelino substituiu o vício da dor pela pedagogia do prazer”, disse o cineasta Cacá Diegues, um dos jovens talentos de então, ao lado de Tom Jobim, Oscar Niemeyer, Pelé, Garrincha, Gláuber Rocha e João Gilberto. “Tudo parecia dar certo para o Brasil: ganhamos a Copa do Mundo, surgiu o cinema novo e a bossa nova, enfim, tudo era novo, tudo era festa”, diz a historiadora Marly Motta. Em Brasília, foram 42 meses de obras e euforia. Mas, se o carisma e a imagem de JK eram imbatíveis, sua política econômica não era.

A derrocada

Morto em 2001, o ex-diplomata e economista Roberto Campos deixou, em 1998, um depoimento para o Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas. Segundo ele, quando as “Diretrizes do Plano de Desenvolvimento”, que eram a base do que se tornaria o Plano de Metas, foram apresentadas ao presidente Juscelino, havia três pontos básicos: um plano para o desenvolvimento da indústria nacional, um programa de estabilização monetária e um de reforma cambial, que não era mais do que a velha idéia da liberação da taxa de câmbio. “Juscelino ficou bastante entusiasmado pelo Plano de Metas, mas foi frio em relação ao plano de estabilização monetária e à reforma cambial”, afirmou Campos.

Apoiado por seu ministro da Fazenda, José Maria Alkmin, o presidente rejeitou um disciplinamento orçamentário durante quase dois anos. Nesse tempo, a parte externa era coberta pelos investimentos diretos de empresas estrangeiras, mas o levantamento de recursos internos dependia de dotações orçamentárias. À falta de planejamento e controle nessa área, some-se que as empresas de serviço público continuavam deficitárias pela relutância em aumentar tarifas. Isso fez com que boa parte dos financiamentos fosse inflacionária. Assim, como o governo gastava mais do que arrecadava, o déficit público, equivalente a 1% do PIB em 1954, quadruplicou: em 1957 passou para 4%. Em 1958, a dívida externa explodiu e a inflação disparou de 19% para 30% ao ano.

Em junho, Alkmin deixou o cargo, sendo substituído por Lucas Lopes. Em outubro, o novo ministro apresentou ao Congresso o Programa de Estabilização Monetária (PEM), que era, na verdade, uma tentativa de resgatar as propostas feitas a Juscelino antes da posse. “O presidente insistia, entretanto, que o programa não interferisse no Plano de Metas, coisa que Lopes e eu aceitávamos”, disse Campos. “Mas Juscelino queria também que não afetássemos os investimentos em Brasília, o que era algo bem mais difícil.” De um jeito ou de outro, já era tarde. A inflação abalara a credibilidade do governo federal, que, além de tudo, sentia a água nas canelas, com o Fundo Monetário Internacional exigindo termos muito mais duros para renegociar a dívida brasileira.

Contra o PEM uniu-se um grupo pouco ortodoxo e de amplo espectro de interesses: os empresários, que não queriam estabelecer limites à expansão de créditos; os fazendeiros de café, que eram contra a redução da sustentação dos preços do produto; os nacionalistas, que o consideravam uma submissão ao FMI. E a eles juntou-se o próprio presidente. No início de 1959, Juscelino rompeu com o Fundo. “O Brasil tornou-se adulto. Não somos mais os parentes pobres relegados à cozinha”, discursou, no Rio de Janeiro, em junho de 1959. O gesto do presidente rendeu-lhe uma última dose de popularidade. Mas, àquela altura, a bolha desenvolvimentista já não tinha como se sustentar.

Nas cidades, trabalhadores que tiveram seu salário diminuído pela inflação protestavam por aumento: só em 1959, 56 greves sacudiram o país. No campo, as agitações não eram menores: pequenos proprietários se viram sem financiamento, e o número de sem-terra aumentou a pressão por reforma agrária. A insatisfação geral alimentou a imprensa oposicionista, com a Tribuna da Imprensa do jornalista Carlos Lacerda à frente. O inimigo histórico de Getúlio e do getulismo acusava Juscelino de ter se locupletado à custa da avalanche de dinheiro estrangeiro que entrara no país. Diante da oposição cerrada, JK chegava ao fim de seu mandato. Em outubro de 1960, não conseguiu fazer de seu ministro da Guerra, o general Henrique Teixeira Lott, seu sucessor. O governador de São Paulo, Jânio Quadros, empunhando uma vassoura como símbolo de campanha e prometendo “varrer a bandalheira da corrupção”, liderou a oposição e obteve a vitória nas urnas.

O presidente que havia produzido uma onda de entusiasmo coletivo acabava o mandato amargando uma fragorosa derrota. Em sua extensa biografia de Juscelino, Claudio Bojunga afirma que ele apostava todas as fichas nas eleições seguintes, marcadas para 1965. “Juscelino acreditava que voltaria a Brasília nos braços do povo, pois imaginava que Jânio, que pregava a austeridade financeira, iria provocar o arrocho econômico e, assim, fazer o Brasil sentir saudades do que perdera”, diz Bojunga. Mas, como sabemos, não foi isso que ocorreu e “esse” 1965 nunca chegou.

Em março de 1964, após a inesperada renúncia de Jânio em 1961 e do conturbado governo do vice-presidente João Goulart, os militares tomaram o poder e cassaram os direitos políticos dos principais líderes políticos do país – incluindo Juscelino, que partiu para o exílio, de onde voltou apenas em 1967. Chegou a ser preso pela ditadura em 1968. Solto logo em seguida, permaneceu longe da política em silêncio forçado até morrer em 1976, num ainda polêmico acidente de automóvel.

Os militares carrancudos permaneceram 20 anos em Brasília e o governo do risonho e democrático Juscelino passou para o imaginário nacional como um paraíso perdido. “Se é verdade que o país viveu no fim dos anos 50 uma época exemplar, também é fato que muito do eldorado que se atribui hoje a Juscelino é uma idealização, uma construção do presente, fruto da necessidade que temos de ainda acreditar que o Brasil um dia quase deu certo”, afirma Marly Motta. Quase.

Os últimos momentos de Juscelino Kubitschek

No início da tarde de 22 de agosto de 1976, Juscelino estava em São Paulo. Um carro da revista Manchete, de seu amigo Adolpho Bloch, tinha sido encarregado de levá-lo ao aeroporto de Congonhas, onde o ex-presidente pegaria um vôo para Brasília. Mesmo com o bilhete aéreo no bolso, JK muda de planos. Sem avisar ninguém, orienta o motorista a deixá-lo no quilômetro 2 da Via Dutra. Lá o aguardava seu motorista particular, Geraldo Ribeiro. Juscelino entra no banco de trás e segue, por terra, para o Rio de Janeiro. No caminho, encontraria a morte.

1. Última parada

Testemunhas afirmaram ter visto o Opala amarelo metálico do ex-presidente sair de uma estrada vicinal e entrar na Dutra. JK vinha da pousada Villa-Forte, situada no município de Resende (no Rio de Janeiro), onde havia feito uma parada.

2. O encontro

Ao lado do carro de JK, um ônibus da Viação Cometa trafega a cerca de 115 km/h. Às 17h55, o Opala é tocado no pára-lama pela dobradiça da porta e por uma roda dianteira do ônibus. Em alta velocidade, o motorista Geraldo perde o controle da direção.

3. Fora de controle

Desgovernado, o Opala passa pela frente do ônibus, que começa a frear. Na altura do km 165, atravessa o canteiro central da rodovia e, já na outra pista, bate de frente com um caminhão Scania carregado com 30 toneladas de gesso.

4. Destruição

A carreta não pára. Com seu enorme peso, ela arrasta o Opala por cerca de 40 metros. O choque destrói completamente o automóvel em que viaja JK.

5. Inútil socorro

O Opala, estraçalhado, jaz às margens da Dutra. Os passageiros do ônibus, que havia estacionado na pista oposta, correm para socorrer as vítimas. JK e seu motorista Geraldo, entretanto, já estavam mortos.

Veja também

*Matéria publicada na revista Aventuras na História em 2013.