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Como gostar de ler “Memórias Póstumas de Brás Cubas”

Tradutora do clássico de Machado de Assis para o inglês conta como se apaixonou pela subversão do delirante e odioso autor defunto

Por Flora Thompson-DeVaux

 

Quando lancei minha tradução de Memórias Póstumas de Brás Cubas para o inglês em junho deste ano, muita gente comemorou o sucesso do romance mundo afora. Mas, passeando pelas redes sociais, também vi alguns usuários comemorando por outro motivo: que agora os gringos iam ter um gosto daquilo que eles tinham sofrido no ensino médio. 

Esse é um sentimento que, francamente, não consigo entender. Ok, fui ler Machado só na faculdade, mas foi amor à primeira vista. Eu sou norte-americana e fui estudar português por um acaso, só para aprender outra língua, mas fui me fascinando pelo Brasil e resolvi conhecer melhor a literatura. Foi assim que topei com Brás Cubas. 

Eu já sabia que Memórias Póstumas era um dos Grandes Romances da Literatura Brasileira™, então acho que estava esperando algo meio empostado, com um tom grandioso, quinhentos personagens e uns três casamentos. Quando comecei a ler, fiquei de cara: o livro era delirante (literalmente, tem um delírio aí no capítulo sete), o enredo pulava de lá pra cá, o narrador insultava os leitores capítulo sim, capítulo não, e o personagem principal (spoiler) não faz nada da vida dele. Nunca tinha lido nada assim, muito menos algo escrito em 1880. Como alguém poderia achar isso chato?

Já ouvi de algumas pessoas que Machado de Assis escreve “difícil”, que teria que traduzir a linguagem dele para uma linguagem mais moderna para que os leitores de hoje em dia entendam. Não poderia discordar mais. Quando você vê o jeito que os colegas do Machado estavam escrevendo à época, a prosa dele parece tão leve como um tuíte. E você não precisa entender cada palavra, não, dá para pegar o sentido pelo contexto. (Falo por experiência própria: li Memórias Póstumas pela primeira vez no terceiro período de português, então tinha um monte de palavras que não entendia.)

Se tem uma coisa com a qual me identifico na rejeição ao Machado é a sensação de que ele é o grande pai da literatura no Brasil, um autor que vira uma obrigatoriedade – e é óbvio que ninguém gosta de ter um livro enfiado goela abaixo. Mas nem sempre foi assim. Em 1939, um secretário de educação se recusou a dar o nome do Machado para uma escola, justificando que os livros dele eram tão sombrios que “só os homens já formados podem [lê-los] sem perigo”. E em 2020 mesmo, o governo de Rondônia incluiu Memórias Póstumas de Brás Cubas numa lista de livros banidos.

Por mais que eu ache essas proibições sumamente bestas, tem algo na obra do Machado que pode ser visto como legitimamente perigosa. Convivi intensamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas durante quase cinco anos no processo de tradução, e posso falar: não é só porque o personagem principal é um cadáver, mas o livro é bem dark. Mais uma coisa importante para lembrar, e que talvez alguns leitores percam de vista, é que o narrador morto e odioso é um perfeito representante da elite da época do Machado – e tem muita coisa nele que vale para as elites de hoje. Dá para entender por que certos governantes talvez não quisessem que os jovens tivessem contato com um retrato grotesco do privilégio brasileiro. 

Não vou me alongar mais, mas fica aqui meu convite para quem está lendo ou vai ter que ler Memórias Póstumas de Brás Cubas na escola, ou para alguma prova: faz de conta que não é obrigação. Faz de conta que você tá lendo escondido esse livro subversivo. Quem sabe desce mais suave. 

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*Flora Thomson-DeVeaux é tradutora e escritora, mora no Rio de Janeiro e trabalha na Rádio Novelo. Estudou Spanish and Portuguese Languages and Cultures na graduação na Universidade de Princeton (EUA), e recentemente obteve o doutorado em Portuguese and Brazilian Studies na Universidade Brown, também nos Estados Unidos.