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Ferramenteiros pré-históricos podem ter contribuído de forma decisiva para evolução da linguagem

Por Redação Atualizado em 16 Maio 2017, 13h47 - Publicado em 4 fev 2015, 19h41

A habilidade de usar a linguagem para se comunicar é uma das características mais importantes que diferenciam os seres humanos de outros animais. Apesar de os cientistas apontarem essa distinção, ainda é incerto o momento em que essa condição evoluiu nos humanos. Agora, um grupo de pesquisadores que estuda o desenvolvimento de ferramentas antigas sugere que a evolução da linguagem pode estar diretamente ligada à fabricação desses artefatos. De acordo com o novo estudo, nossos ancestrais possivelmente desenvolveram uma forma primitiva de linguagem para ensinar outros membros de suas tribos a arte de fazer ferramentas com pedras, uma aptidão crucial para a sobrevivência naquela época.

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Como é impossível rastrear a habilidade linguística apenas pela análise de registros arqueológicos, cientistas costumam estudar a evolução da linguagem por meio de habilidades que são “indicadores próximos”, como arte rupestre e a capacidade de fazer ferramentas sofisticadas. No entanto, um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia decidiu tomar um caminho diferente. Em vez de considerar a fabricação de ferramentas apenas como uma forma de se aproximar da habilidade linguística, eles decidiram explorar como a linguagem pode ajudar humanos modernos a aprenderem a fazer ferramentas usando as mesmas técnicas que seus ancestrais usaram.

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Meio doido, né? Eles decidiram fazer um experimento que tinha como objetivo final fabricar pedras com pontas afiadas iguais a que foram usadas há cerca de 2,5 milhões e 1,8 milhão de anos. A técnica consiste em bater uma pedra como se fosse um martelo contra uma outra pedra para quebrá-la em pedaços e criar bordas afiadas que poderiam ser usadas para cortar, picar e raspar, qualidades importantes para lidar contra predadores e preparar alimentos.

(Imagem: Thinkstock)

(Imagem: Thinkstock)

No experimento, os cientistas dividiram os voluntários – estudantes da Universidade de St. Andrews, no Reino Unido – em cinco grupos com o objetivo de simular as condições da época para a fabricação de ferramentas. Cada grupo estava submetido a condições diferentes: o primeiro recebeu apenas os instrumentos e alguns exemplos da pedra com pontas afiadas e nenhuma orientação. O segundo grupo tinha um voluntário que já sabia fabricar a ferramenta e os outros integrantes deveriam aprender apenas com a observação, sem comunicação. No terceiro, os voluntários mostravam aos outros o que eles estavam fazendo, mas sem falar, nem gesticular. O quarto grupo foi autorizado a apontar e a gesticular, enquanto no quinto grupo, um “professor” – aquele que já dominava a técnica – foi autorizado a passar o conhecimento aos outros falando o que ele quisesse para os voluntários. Depois de várias rodadas do experimento, os estudantes chegaram a produzir mais de 6 mil pedras lascadas.

De acordo com os resultados do estudo, publicado no Nature Communications, como era previsto, o primeiro grupo não teve tanto sucesso. Um dado surpreendente foi que a performance melhorou muito pouco entre os que simplesmente assistiram os companheiros fabricando as ferramentas. Apenas os grupos que puderam gesticular e falar conseguiram resultados melhores do que a previsão feita pelos cientistas antes do estudo. Estatisticamente, fazer gestos dobrou a chance de que o estudante produzisse uma pedra lascada viável em apenas uma tentativa, enquanto o uso da fala quadruplicou essa possibilidade.

Com base nesses resultados, os pesquisadores concluíram que os primeiros humanos podem ter desenvolvido os princípios de uma linguagem falada – conhecida como proto-linguagem – para conseguir passar os ensinamentos aos outros a fim de sobreviver. No entanto, eles são cuidadosos ao não tomar conclusões precipitadas com base no estudo. A pesquisa, por exemplo, não levou em consideração que os voluntários cresceram em um ambiente com linguagem, o que poderia ter feito eles aprenderem mais efetivamente com gestos e fala do que sem isso, algo que pode ter sido diferente para nossos ancestrais.

*Com informações do DiscoveryNews

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