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Fuja do trote violento

A recepção na universidade é importante para os novos alunos, mas a violência pode e deve ser evitada e coibida. Veja como denunciar abusos


Em 2010, o trote na PUC-SP foi marcado por descontração entre veteranos e calouros (foto: Bruno Gabrieli)

Por Renata Reps

Quem está ligado nos noticiários já teve ter percebido que os trotes violentos nas universidades voltaram com força total. Como um modismo, a prática vira notícia em períodos cíclicos: quando parece que as recepções dos calouros tornaram-se calmas e civilizadas, surge um caso de festa que acabou na delegacia e, em seguida, vários outros vêm à tona.

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Nos últimos tempos, faculdades em São Paulo e nas cidades paulistas de Barretos, Mogi das Cruzes e Fernandópolis acabaram virando caso de polícia depois de trotes abusivos. O que era para ser um dia de felicidade acabou virando um problema na vida dos bichos (ou, se preferir, bixos, como os calouros são comumente chamados no estado).

ORIGEM DO TROTE
Maltratar jovens que passaram no vestibular parece coisa da Idade Média, né? Mas os primeiros relatos de trotes datam mesmo da Idade das Trevas, no século 15. Naquela época, antes do surgimento da imprensa, existiam pouquíssimos livros e todos eram manuscritos.

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Somente o clero tinha fácil acesso às universidades e, para qualquer outra pessoa ingressar, era preciso ter muito dinheiro. Quem entrava era, geralmente, analfabeto, com cabelos grandes e pouca noção de higiene – parecia um bicho do mato. Os veteranos se sentiam na obrigação de “civilizar” os novatos, cortando cabelos e fazendo “rituais de purificação”.

O primeiro registro de trote violento foi feito na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, em 1481. O caso está em um livro chamado Manuale Scholarium, de autor desconhecido. Os veteranos insultavam os novatos, obrigavam-nos a comer comida com fezes, beber urina, admitir vários pecados de origem sexual e servir de escravos aos mestres – que, muitas vezes, chegavam a exigir que eles os masturbassem. Quando não morriam, os agredidos juravam fazer o mesmo ritual com os próximos bichos e, só assim, podiam se tornar membros das comunidades universitárias.

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COMO SE PROTEGER
Hoje as pessoas não estão mais tão dispostas a se submeter a humilhações para serem aceitas na faculdade. Dados do Ministério Público Federal mostram que cursos concorridos como Medicina e Medicina Veterinária têm as taxas mais altas de trotes desumanizados, enquanto os da área de ciências humanas têm as maiores quantidades de trotes solidários.

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A regra para se proteger dos abusos é uma só: ninguém pode ser obrigado a participar de algo que não queira. Quando o aluno é agredido fisicamente ou se sente humilhado, ele pode recorrer a instâncias na própria universidade que servem para investigar os fatos e punir os responsáveis.

“Todo campus universitário tem canais formais e informais para o aluno requerer os seus direitos”, afirma o reitor da Unicastelo, Gilberto Selber, cujos alunos do campus de Fernandópolis foram indiciados pela justiça, no último dia 24, pela acusação de obrigar um calouro a ingerir álcool combustível.

Cada universidade adota uma medida específica para precaver e coibir a violência na recepção aos calouros. Apesar dos métodos diferentes, todos concordam em um aspecto: as instituições de ensino precisam ter formações humanísticas para precaver a existência desse tipo de trote. Normalmente, os mais agressivos são aqueles que sofreram agressões semelhantes no passado e repetem esse tipo de comportamento – fazendo o ritual se perpetuar.

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