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O que significa a Nasa ter encontrado água na Lua?

A descoberta anunciada nesta segunda pela agência espacial americana pode dar esperança ao cultivo de vida no solo lunar

Por Luccas Diaz Atualizado em 8 mar 2021, 19h48 - Publicado em 26 out 2020, 19h06

Após o aviso de que faria um anúncio “muito emocionante” sobre a Lua nesta segunda-feira (26), a Nasa publicou um artigo na revista científica Nature Astronomy que traz à público a descoberta de presença de moléculas de água na superfície iluminada da Lua. A publicação da agência espacial norte-americana detalha as moléculas encontradas dispersas em grãos minerais de uma cratera lunar chamada Clavius e explica que ainda não se sabe em qual estado estão essas moléculas, mas que as análises iniciais indicam que estejam em formato de vapor preso ao solo.

A descoberta

“Para a lua”. (Tenor/Reprodução)

A descoberta foi feita através do Stratospheric Observatory for Infrared Astronomy (Sofia), uma aeronave Boeing 747SP acoplada a um telescópio, e estudada pela pesquisadora estadunidense Casey Honniball. É a primeira vez que se encontram moléculas de água na parte do solo lunar que é iluminado pelo Sol e a agência está apontando o fato como a “primeira prova química de existência de água na Lua”.

“Antes das observações do Sofia, sabíamos que havia algum tipo de hidratação. Mas não sabíamos quanto, se é que havia, eram moléculas de água – como bebemos todos os dias – ou algo mais parecido com limpador de ralos.” disse a pesquisadora Casey Honniball.

Até então, só havia registros de existência de água na Lua em estado sólido, em pequenos depósitos de gelo nos polos lunares, onde a temperatura fica entre os -180º C . A descoberta de moléculas de H2O em um estado além do sólido pode revolucionar tanto os estudos sobre a possibilidade de cultivar vida na Lua (e uma futura colônia humana), quanto facilitar a viagem de astronautas ao solo lunar. De acordo com os dados divulgados pela Nasa, a água presente na cratera Clavius está espalhada entre 100 e 400 partes por milhão, ou o equivalente a uma concentração de 0,32 litro por metro cúbico. Ainda assim, o número é 100 vezes inferior à quantidade de água encontrada no Deserto do Saara.

Temos água! Mas e agora?

(Tenor/Reprodução)

Toda descoberta envolvendo a presença de água em outros planetas é comemorada pela comunidade científica por um simples motivo: a vida como se conhece depende totalmente da água. O professor Gabriel Antonini, que dá aula de Biologia no Curso Anglo, explica que só a partir da água é possível iniciar uma conversa sobre a existência de vida. “A água tem algumas propriedades físico-químicas que, a partir da interação de suas moléculas, cria uma condição que favorece a vida”, diz. A água é responsável pelo transporte de nutrientes no organismo, é capaz de regular a temperatura dos seres vivos e participa de todas as reações químicas.  “Uma das condições de existência básica da vida é o metabolismo, que são reações químicas realizadas nas células que produzem, entre outras ações, energia e duplicação de DNA.”

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As moléculas encontradas na cratera, porém, não interagem entre si, impedindo a formação de água propriamente dita, fundamental para a possibilidade de vida: “Se elas não interagem entre si, quer dizer que elas não estão formando um meio aquoso”. O professor afirma, entretanto, que “se as moléculas se aproximarem, elas passam a interagir e podem exercer as propriedades físico-químicas necessárias para a vida”.

A vida como se conhece

A forma de vida como se conhece hoje precisa, necessariamente, de água em estado líquido para ser cultivada. Se há uma forma de vida que não precise, ainda não é conhecida pela ciência. “Temos água em outros planetas, a questão é que precisamos de água líquida para a vida existir. Gelo e vapor não criam o meio aquoso que é necessário para as reações físico-químicas das células”, explica o professor.

“Água!” (Tenor/Reprodução)

Para se ter uma ideia de como ela é fundamental, a molécula da água, por sua polaridade, faz com que seja possível a estrutura de membrana celular. E, sem membrana, não há célula. A água também é um dos fatores responsáveis pela existência de oxigênio, combustível de todos os seres aeróbios. O professor explica que a descoberta de água na Lua dá esperanças de possibilidade de vida por lá: “Se existir alguma tecnologia que consiga propor a interação entre as moléculas de água encontradas, talvez seja possível, de fato, criar um meio aquoso. E se conseguirmos quebrar as ligações entre o oxigênio e o hidrogênio, pode-se formar o oxigênio”.

O fato da Lua não ter atmosfera dificulta um pouco as coisas – sem atmosfera, não há efeito estufa. A ausência desse fenômeno faz com que, basicamente, não seja possível obter uma meteorologia propícia à vida. As temperaturas por lá variam drasticamente de 130º C de dia a -150º C à noite.

Já pode se mudar para a Lua?

Ainda é cedo para dizer o que a descoberta da presença de água terá impactos nos esforços da Nasa em levar o homem novamente ao solo lunar. A proposta é que uma mulher pise na Lua pela primeira vez em 2024. O programa inclusive leva o nome da irmã de Apollo, a primeira missão tripulada rumo à Lua em 1965, Artemis, que está em execução desde o ano passado. O transporte de água para o espaço é extremamente complexo e custoso; portanto, encontrar formas de água já no solo lunar pode facilitar as expedições.

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