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“O segredo do Bonzo” – Resumo e Análise do conto de Machado de Assis

Entenda o enredo e os principais aspectos da obra

Por Redação Atualizado em 12 abr 2018, 15h46 - Publicado em 17 set 2012, 00h26

– Leia o resumo de Papéis Avulsos

Resumo:
Este conto narrado em primeira pessoa é um relato de supostas experiências vividas por Fernão Mendes Pinto (explorador e aventureiro português do século XVI) quando esteve no reino de Bungo. No início do conto o narrador anuncia que falará sobre uma doutrina que possui diversos benefícios para a alma e por isso deve ser divulgada.

No ano de 1552, ao caminhar com seu amigo Diogo Meireles pelas ruas de Fuchéu no reino de Bungo, Fernão se depara com uma multidão perplexa reunida em torno de um homem chamado Patimau. Este homem estava defendendo que os grilos teriam surgido do ar e das folhas de coqueiro sob a luz da lua nova. Ele termina seu pensamento dizendo que somente alguém com seu estudo e conhecimento poderia realizar esse descobrimento. Em seguida, o povo ovaciona Patimau e sai carregando-o pela cidade e lhe servindo de regalias.

Fernão Mendes e Diogo Meireles continuam caminhando e pouco depois deparam-se com outra cena muito parecida com a anterior: um outro homem defendia outra teoria absurda para uma multidão que o saudava. Os dois resolvem continuar a caminhar até que se encontram com Titané, um amigo de Diogo. Ele os recebeu entusiasmado e explicando sobre a doutrina que estava sendo seguida por alguns homens da cidade que ouviram os ensinamentos de um certo bonzo.

Guiados por Titané, os dois foram no dia seguinte encontrar o tal bonzo, conhecido por Pomada. Ele conta aos dois que desde jovem sempre buscou ampliar seu conhecimento lendo diversos livros e desenvolvendo ideias. Porém, seu esforço nunca era reconhecido, mas o produto final sim. Se de nada valeriam os anos de esforço e estudo sem a existência de outras pessoas para o honrarem, sem uma plateia é como se os saberes não existissem. Assim, ele pensou em uma maneira de conseguir sucesso sem ter que passar por tanto trabalho, já que somente os resultados importavam.

Assim, algo somente existirá se existirem um sujeito que conhece esse objeto. Da mesma forma, se algo não existir na realidade, mas existir na opinião das pessoas, esse algo passa a ter uma “existência real”. Dessa forma, mesmo as teorias absurdas de homens como Patimau poderiam conquistar uma multidão e eles poderiam usufruir dos prazeres que o reconhecimento do povo traz.

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Os três deixam, então, a casa do bonzo com o título de “pomadistas” e passam a aplicar a doutrina. Titané, que era alpercateiro (fabricante de alpercatas, um tipo de sandália de couro), divulgou pela cidade que suas alpercatas eram famosas no exterior e que isso elevava a honra da cidade. Ele passa a ser reverenciado pela opinião pública e passa a receber encomendas frequentes. Por sua vez, Fernão Mendes fica famoso como sendo um músico brilhante somente pela prepotência de seus gestos e da maneira como organizava os concertos pela cidade.

Por fim, Diogo Meireles, que era médico, também decide aplicar a doutrina ensinada pelo bonzo. Os cidadãos de Fuchéu estão sofrendo de uma doença que deixa o nariz do enfermo inchado e horrendo, obrigando-o a amputar o nariz. Porém, nenhum doente queria amputar o nariz. Assim, Diogo anuncia sua teoria que consistia na substituição do nariz amputado por um “nariz metafísico”. Da mesma forma que a metafísica, o novo nariz não seria visível ou poderia ser tocado, mas só seria entendido pelo conhecimento do paciente. A partir desse dia, inúmeros enfermos buscam Diogo para fazerem a “substituição” do nariz.

Análise:
Machado de Assis utiliza como base para este conto o relato de um embate teológico entre um padre que recebia regalias do rei e uns monges budistas que o invejavam contado por Fernão Mendes. Machado deixa de lado o embate teológico, e percebe que o que está por trás dessas história não é a questão religiosa, mas sim os favores recebidos do rei.

Utilizando da fama de mentiroso que o aventureiro português tinha, Machado cria um conto de aspectos fantásticos onde a propaganda pessoal e a aparência contam muito mais do que a essência das pessoas. Além disso, através de uma rica linguagem que contrapõe verdade e mentira, o autor coloca esta em pé de igualdade com aquela quando o que não existe (por exemplo, o “nariz metafísico” e as teorias da origem dos grilos) torna-se real através do discurso de alguém.

É interessante notar a ambiguidade da palavra “bonzo” utilizada no conto: no português normativo, “bonzo” significa “monge budista”; mas no português coloquial, significa “sonso”, “dissimulado”. Essa ambiguidade também é refletida no nome do monge: Pomada. Além de ter o sentido de algo que se passa em cima da pele, no português coloquial “pomada” também tinha o sentido de “enganador”, “charlatão”.

Principais personagens:
Fernão Mendes Pinto: aventureiro e explorador português do século XVI, é uma personagem real utilizada por Machado de Assis em seu conto.
Diogo Meireles: amigo de Fernão, é médico.
Pomada: bonzo que desenvolve uma teoria para que as pessoas obtenham sucesso e reconhecimento sem precisarem se esforçar.
Titané: amigo de Diogo.

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