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“O último voo do flamingo” – Análise da obra de Mia Couto

Entenda os principais aspectos da obra

Por Redação Atualizado em 12 abr 2018, 15h53 - Publicado em 17 set 2012, 00h00

– Leia o resumo de O último voo do flamingo

Contexto histórico
No início do século XVI, Portugal iniciou a ocupação do território onde hoje é Moçambique, mas em 1885, com a Conferência de Berlim (que partilhou a África conforme os interesses das superpotências), Moçambique se tornou uma ocupação militar. No início do século XX, o país havia se tornado uma ocupação colonial portuguesa.

Em 1964 teve início a Guerra de Independência de Moçambique entre a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e as Forças Armadas de Portugal. Esta guerra durou dez anos e assolou o país, que conseguiu sua independência em 25 de junho de 1975. Porém, os novos estados independentes não tinham como manter a infraestrutura do país e houve uma grande crise econômica.

Durante todo o conflito, a FRELIMO, que tinha ligações políticas com países comunistas (URSS e outros), foi criando em Moçambique “zonas libertadas”, que eram administradas pelas forças de libertação. Com a conquista da independência, a FRELIMO tentou implantar no país uma série de melhorias na educação, agricultura, saúde e outras áreas. Porém, com a crise econômica, os planos não surtiram efeito e acabaram por agravar a crise.

Nesse cenário de instabilidade económica e sócio-política, dá-se início à Guerra Civil Moçambicana em 1976, entre o exército de Moçambique e o exército rebelde da RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana). Após 16 anos de guerra, em 4 de outubro de 1992, a FRELIMO e a RENAMO assinam um Acordo Geral de Paz, em Roma. O governo de Moçambique solicita, então, o apoio da ONU para o desarmamento das tropas restantes. A tropa das Nações Unidas em Moçambique, a ONUMOZ, apoiou esse trabalhado durante cerca de dois anos e, em 1994, ouve a formação de um exército unificado e a organização das primeiras eleições gerais multipartidárias.

Um país em pedaços
A ação de “O último voo do flamingo” se dá nos primeiros anos após a guerra de Independência e os anos de guerrilha. Nas palavras do próprio Mia Couto quando da obtenção do Prêmio Mário António em 2001, este romance fala sobre a “perversa fabricação de ausência – a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos”. Dessa forma, “O último voo do flamingo” nasce como fruto de uma nação profundamente agredida pelos anos de ocupação, pelas guerras e pela ganância dos poderosos, uma terra que não suporta mais essa situação.

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As explosões que ocorrem em Tizangara, terra fictícia onde se passa a narrativa, são tanto de estrangeiros quanto de moçambicanos. Os anos de conflito em Moçambique deixaram para trás tanto minas terrestres reaisquanto minas metafóricas, que seriam os conflitos sócio-políticos e outras mazelas da população local. Assim, poderíamos dizer que Moçambique se tornou uma “nação-mina”, pronta para explodir a qualquer momento.

No livro de Mia Couto, os soldados da ONU explodem sem deixar nenhum rastro, exceto seu boné azul e o pênis. Essas estranhas explosões que acontecem aos estrangeiros são explicações dadas pelo povo local, que busca em sua própria cultura uma forma de entender o que acontece a seu redor. Dessa forma, a explosão de um estrangeiro de forma sobrenatural seria como uma vingança da própria terra, fato que encontra eco nas palavras do feiticeiro Zeca Andorinho e do velho Sulplício.

Como as explicações para os estranhos acontecimentos só se dão através do mito local, o italiano Massimo Risi não consegue entender o que está se passando mesmo falando português. Para ele o problema não é a língua, mas entender aquele mundo. Assim, é buscando nas raízes e na memória local é que se consegue reconquistar e preservar a identidade africana. E, através disso, consegue-se “explodir” toda forma de domínio.

Esse domínio, porém, às vezes nem é só estrangeiro. Em “O último voo do flamingo” vemos o domínio totalitário dos próprios governantes locais, que se esqueceram para o que lutaram nos anos de guerra e passaram somente a pensar na própria ganância. Nessa obra, o ataque não se dá somente à presença opressora de povos estrangeiros, que da África parecem nada entender, mas também àqueles poderosos que, movidos pela ganância, se esquecem de sua própria terra.

O país arrasado pelos problemas sociais, económicos e políticos, dividido quanto a sua própria identidade, é simbolizado ao final do livro pela própria terra que explode. As duas personagens centrais, Massimo Risi e o tradutor, restam sozinhos nesse abismo que sobrou da terra onde antes existira todo um país a espera do que virá a acontecer. Ao final, o estrangeiro continua sem entender o país e a própria África, que continua um mistério. Só resta aos dois esperar que um outro voo do flamingo faça o sol voltar a brilhar depois de tanta escuridão.

Comentário do professor
Comentário do professor Deco Duarte, do Colégio Gregor Mendel:
“O último voo do flamingo”, do moçambicano Mia Couto – um dos autores lusófonos mais influentes da contemporaneidade -, desloca nosso olhar para o continente africano, em especial para a vila fictícia de Tizangara, no interior de Moçambique, local onde um acontecimento incomum chama a atenção da comunidade internacional: os soldados da ONU, enviados para vigiar o processo de paz após anos de guerra civil, começam a explodir sem uma razão aparente, restando deles apenas o órgão genital. Para investigar o fato, é enviado à região o italiano Massimo Risi, inspetor da ONU. Logo à sua chegada, Estevão Jonas – o administrador local -, em uma demonstração do progesso do lugarejo, oferece ao estrangeiro um tradutor, apesar da fluência dele na língua local. Será esse tradutor, que também é o narrador da história, um dos responsáveis pela mudança gradativa da visão de mundo do italiano. De um ceticismo inicial em relação aos valores locais, Massimo terá de se adequar a um modo novo de ver as coisas, despindo-se de seus valores eurocêntricos, os quais parecem de pouca valia naquele universo mágico. “O último voo do flamingo” é uma narrativa de formação, na qual ocorre um processo de africanização do europeu, numa espécie de colonização às avessas. Ao apaixonar-se pela estranha Temporina – mulher jovem com o rosto de velha -, o italiano será capaz de compreender as coisas da terra e despir-se da racionalidade ocidental.

Mia Couto é um autor muito atento às questões políticas de seu país, e o episódio serve de pretexto para o desfile de um sem número de temas que dizem respeito à constituição atual de Moçambique e que podem pegar o leitor brasileiro mais desinformado de surpresa. A obra trabalha com questões como o respeito às tradições locais, a ingerência estrangeira em assuntos internos de uma nação, a corrupção política, a riqueza da cultura oral, dentre outros. Assim, muitos dos personagens espelham esses temas em sua constituição: Estevão Jonas, o administrador local, encarna a corrupção e o desrespeito pelas tradições locais; Sulplício, o pai do tradutor, simboliza, por sua vez, a ancestralidade e o saber da experiência muitas vezes renegado em prol da novidade e da modernização. Vale ainda dizer que toda a narrativa se passa dentro de um clima que se assemelha àquilo que se convencionou chamar de “Realismo mágico” na literatura, apesar das negativas do autor em aceitar esse rótulo. Uma viagem profunda dentro de uma cultura que guarda muito de nossas raízes.

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