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Quais as diferenças entre a pandemia de covid-19 e da gripe suína de 2009?

As crises mundiais causadas pelo H1N1 e pelo novo coronavírus têm algo em comum, mas muitas diferenças. Confira

Por Juliana Morales 30 mar 2020, 19h06

Buscando parâmetros para entender a doença que assola o mundo atualmente, a covid-19, muitos olham para o passado em busca de respostas. Principalmente, a gripe A, última pandemia enfrentada antes do coronavírus, tem sido alvo de comparações. Popularmente conhecida como gripe suína, a doença teve início em meados do mês de março de 2009, no México, e depois se espalhou pelo mundo inteiro.

  • Tratava-se de uma patologia causada por um vírus identificado como uma nova cepa do já conhecido Influenza A subtipo H1N1, que passou por uma mutação em animais (porcos) e começou a infectar humanos. Depois de contabilizar 36 mil casos em 75 países, em junho de 2009, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia. 

    Comparando a pandemia de gripe suína com a atual, causada pelo vírus Sars-CoV-2, encontramos tanto semelhanças como diferenças  em relação à transmissão, ao combate e aos tratamentos. É importante entender as variantes em jogo e os diferentes cenários entre elas, para não serem feitas comparações infundadas. Conversamos com especialistas para esclarecer os pontos comparativos.

    Transmissão

    Assim como o novo coronavírus, a gripe A também era uma doença respiratória transmitida por meio da tosse e de espirros, no contato direto com uma pessoa infectada ou ao entrar em contato com secreções respiratórias que carregavam o vírus. Mas, segunda pesquisas, aquele vírus era menos transmissível do que o que enfrentamos hoje. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que uma pessoa com H1N1 era capaz de infectar de 1,2 a 1,6 pessoa. Um estudo divulgado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) aponta que essa taxa é de 2,79 para o novo coronavírus.

  • Além disso, o infectologista Alexandre Piva Sobrinho, professor do curso de Medicina da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), alerta que em todo o mundo o covid-19 apresenta taxa de mortalidade diferente. Segundo o médico, até o momento, no Brasil ela gira em torno de 3,2%. Mas esse número pode se modificar com o aumento no número de casos.

    “Se compararmos com a pandemia do H1N1 de 2009, o coronavírus está sendo mais letal. Já se compararmos com o H1N1 de 1918 (gripe espanhola), ele levou a óbito de 50 a 100 milhões de pessoas no mundo, principalmente na Europa”, afirma Piva.

    A otorrinolaringologista Maura Neves, da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia, destacou outra diferença, nos grupo de risco nas duas pandemias. Até o momento as características de gravidade do covid-19 são mais pronunciadas na população acima de 60 anos com doenças associadas (doenças cardiovasculares e metabólicas).

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    A médica conta que o H1N1 acometeu com maior risco, além dos idosos, os jovens, crianças inclusive, e gestantes: “A população mais jovem e as gestantes não apresentaram quadros graves na atual pandemia. Já os imunocomprometidos são a população acometida por ambos os vírus”.

    Combate

    O presidente Jair Bolsonaro criticou as medidas adotadas para combater o coronavírus ao redor do mundo e fez uma comparação com a pandemia de H1N1. “Tivemos uma crise semelhante no passado. A reação não foi nem sequer perto dessa do que está acontecendo hoje em dia”, disse em entrevista à CNN Brasil.

    Muitos especialistas apontaram erro na fala do presidente por não considerar os diferentes fatores entre as duas pandemias, como a taxa de transmissão já citada acima, por exemplo. Segundo a OMS e entidades de saúde, o isolamento social é importante como forma de evitar o colapso do sistema de saúde, resultando em hospitais lotados e com falta de suplementos médicos e respiradores.

  • Vale lembrar que, em 2009, a circulação de pessoas também foi restringida e escolas foram fechadas, mas em uma intensidade bem menor do que a quarentena que cumprimos hoje. “Naquela época, também houve o isolamento de indivíduos em risco, mas há 11 anos não existia a conexão ultrarrápida que temos hoje. E as mídias sociais contribuíram, bem ou mal, para a disseminação de informações, inclusive a respeito da prevenção da doença”, diz Alessandra Bongiovani Lima Rocha, enfermeira-mestre em saúde do adulto e especialista em terapia intensiva.

    Tanto Alessandra como Maura apontam uma discrepância preocupante do coronavírus: ainda não há uma droga que seja comprovadamente capaz de combatê-lo. “A principal diferença e a que nos assusta mais é que em 2009 tínhamos uma perspectiva de vacina em curto prazo, o que não temos agora. Uma vacina para o Sars-Cov-2 tem prazo médio de 18 meses para ser desenvolvida”, afirma Neves.

    Passado, presente e futuro

    Apesar de todas as comparações históricas, a verdade é que nenhuma pandemia é 100% igual às anteriores. Mas muitos aprendizados podem ser adquiridos com as experiências, como observa o infectologista Alexandre Piva. “Foi a pandemia de H1N1 que nos forneceu as medidas de prevenção e todas as estratégias de redução de risco”. 

    Alessandra Bongiovani destaca o aumento no número de profissionais de saúde contratados para atender o crescimento da demanda. “Nunca houve um recrutamento tão grande de enfermeiros, médicos e demais membros da equipe de saúde como estamos vendo agora”. Ela completa falando do legado que ficará: “Teremos um número gigantesco de profissionais de saúde, no mundo inteiro, capazes de atuar em outros eventos dessa magnitude, devido à experiência que estão adquirindo”. 

    Acima de comparações ou previsões para o futuro, vale sempre reforçar que devemos seguir agora as recomendações das autoridades em saúde pública: lavar as mãos com regularidade, ficar isolado em casa, evitar o contato com outras pessoas. 

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