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Variantes linguísticas: o que são e como aparecem nos vestibulares

Além das variantes, o preconceito linguístico também é figurinha carimbada em provas como o Enem

Por Karolina Monte 20 abr 2022, 15h40

A história prova que o dinamismo é uma das características centrais da língua, e com a portuguesa não seria diferente. Basta olhar a evolução da palavra “vossa mercê”: ela modificou-se tanto ao longo dos séculos que tornou-se simplesmente “você”, perdendo o caráter formal e caindo no gosto popular.

Quando se fala em um país tão vasto em território e em diversidade como o Brasil, essa fluidez da língua ganha ainda mais contornos. É possível conhecer uma imensidão de novas palavras e jeitos de falar viajando de um estado para o outro ou simplesmente interagindo com pessoas de diferentes círculos sociais. É isso que são as variantes linguísticas: as muitas formas de se expressar dentro de um mesmo idioma.

As variantes são fortemente influenciadas pela cultura, contexto, local, época e experiências individuais ou coletivas. Elas dialogam com os ambientes em que se manifestam e são uma expressão comunicativa e cognitiva de quem as fala, possuindo regras e características próprias.

Por terem esse caráter dinâmico tão forte, convencionou-se criar um padrão para cada uma das línguas, um formato que, ao menos em tese, todos os seus falantes fossem capazes de compreender. É assim que surge uma variante fabricada, conhecida norma padrão, culta ou normativa – sim, aquela que os estudantes precisam seguir na hora de elaborar uma redação para o Enem. 

Em entrevista ao GUIA DO ESTUDANTE, Reginaldo Leite, professor de Gramática do Curso Pré-Vestibular Oficina do Estudante, conta que “embora haja uma variante mais prestigiada pela sociedade, a culta, é fundamental que se diga que todas são igualmente eficazes uma vez que cumprem sua função: estabelecer a comunicação entre os falantes do mesmo idioma”.

Tipos de variantes linguísticas

Existem quatro tipos de variantes linguísticas: as variações diatópicas (geográficas), variações diacrônicas (históricas), variações diastráticas (grupos sociais), variações diafásicas (formal x informal).

Variações diatópicas (geográficas)

São as variações relacionadas ao espaço geográfico em que estão inseridas. Como o Brasil é um país de dimensão continental, esse tipo de variação linguística é extremamente comum, e tange muito as diferenças de falas entre as regiões. As variações diatópicas podem ser tanto vocabular (o significado que as palavras trazem) quanto sintática.

A mandioca é um grande exemplo de variação vocabular, já que existem muitas palavras que a nomeiam. Dependendo da região do país, a mandioca torna-se macaxeira ou aipim. 

Já um exemplo de variação sintática é a troca de palavras dentro de uma oração, como “é não” em vez de “não é” ou “quero não” em vez de “não quero”.

Variações diacrônicas (históricas)

As variações históricas, ou diacrônicas, são aquelas que ocorrem de acordo com a época dos falantes. Com elas é possível diferenciar o português arcaico do português moderno, por exemplo. São comumente encontradas na literatura e na música. É o caso do “vossa mercê” e do “você”, apresentado no começo deste texto. 

Variações diastráticas (grupos sociais)

Variantes diastráticas são aquelas determinadas pelos diferentes grupos sociais formados pelos falantes da língua. São grupos que possuem diferentes conhecimentos, costumes e vivências e, por isso, nada mais natural que desenvolvessem também um modo próprio de comunicar-se. Muitas vezes, somente quem faz parte daquele grupo social é capaz de compreender a variante falada por ele em sua totalidade. 

As variações diastráticas também partem do desejo de pertencimento social e identidade dos seres humanos.

Variações diafásicas (formal x informal)

São variantes que nascem a partir do contexto social mas principalmente da situação em que o falante se encontra. Quando você está em um encontro com os amigos, faz uso da variação informal da língua. Mas, caso precisasse se dirigir a um juíz, por exemplo, faria uso da variação formal.

Preconceito linguístico

O preconceito linguístico, segundo definição do linguista e professor Marcos Bagno, é o juízo de valor negativo, e muitas vezes desrespeitoso, a qualquer variação linguística existente. “O preconceito linguístico está ligado, em boa medida, à confusão que foi criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa.”, conta Bagno em seu livro Preconceito Linguístico: o que é e como se fazuma das maiores referências sobre o tema.

Esse preconceito da língua está intrinsecamente conectado ao preconceito étnico, cultural, social, de classe e regional sofrido pelas populações com menor acesso à educação formal. Em resumo, a instituição da variação culta do português como “oficial” da língua, mesclada ao juízo de valor das variações linguísticas com origem nas classes mais pobres da sociedade, faz surgir o preconceito linguístico.

Para Bagno, as mídias de massa, como rádio e televisão, possuem papel importante na propagação do preconceito linguístico, ao transmitirem outras formas de variação linguística que não a culta como menos agregadoras ou como sendo motivo de escárnio, caracterizando seus falantes de modo estereotipado. 

A prática do preconceito linguístico e o consequente rechaço de determinadas classes sociais podem ser combatidos quando se ensina a origem e dinâmica da linguagem. Trata-se do conceito de língua viva, que apregoa que a língua está em constante transformação pelas pessoas ao longo da história, sendo modelada e recriada de acordo com as necessidades, ideias e sentimentos. Compreender essa dinâmica é também aceitar a diversidade.

Para Marcos Bagno, “temos de fazer um grande esforço para não incorrer no erro milenar dos gramáticos tradicionalistas de estudar a língua como uma coisa morta, sem levar em consideração as pessoas vivas que a falam”.

Como as variantes linguísticas aparecem nos vestibulares

No Brasil, a diversidade linguística dialoga fortemente com a cultura do país, sendo parte da identidade nacional e regional. Por isso, os vestibulares abordam com frequência o assunto.

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Para Reginaldo Leite, professor do Oficina do Estudante, essa abordagem dentro dos vestibulares e Enem é fundamental e exige do estudante uma visão crítica e livre de preconceitos.

Selecionamos algumas questões relacionadas às variantes e aos preconceitos linguísticos que já apareceram nas provas.

(2012) FUVEST

Todas as variedades linguísticas são estruturadas e correspondem a sistemas e subsistemas adequados às necessidades de seus usuários. Mas o fato de estar a língua fortemente ligada à estrutura social e aos sistemas de valores da sociedade conduz a uma avaliação distinta das características das suas diversas modalidades regionais, sociais e estilísticas. A língua padrão, por exemplo, embora seja uma entre as muitas variedades de um idioma, é sempre a mais prestigiosa, porque atuam como modelo, como norma, como ideal linguístico de uma comunidade. Do valor normativo decorre a sua função coercitiva sobre as outras variedades, com o que se torna uma ponderável força contrária à variação.

Celso Cunha. Nova gramática do português contemporâneo.

De acordo com o texto, em relação às demais variedades do idioma, a língua padrão comporta-se de modo

  1. a) inovador.
  2. b) restritivo.
  3. c) transigente.
  4. d) neutro.
  5. e) aleatório.

(2004) FUVEST

Capitulação

Delivery

Até para telepizza

É um exagero.

Há quem negue?

Um povo com vergonha

Da própria língua.

Já está entregue.

         Luís Fernando Veríssimo

  1. a) O título dado pelo autor está adequado, tendo em vista o conteúdo do poema? Justifique sua resposta.   
  2. b) O exagero que o autor vê no emprego da palavra “delivery” se aplicaria também à “telepizza”? Justifique sua resposta.

(2010) ENEM

Quando vou a São Paulo, ando na rua ou vou ao mercado, apuro o ouvido; não espero só o sotaque geral dos nordestinos, onipresentes, mas para conferir a pronúncia de cada um; os paulistas pensam que todo nordestino fala igual; contudo as variações são mais numerosas que as notas de uma escala musical. Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí têm no falar de seus nativos muito mais variantes do que se imagina. E a gente se goza uns dos outros, imita o vizinho, e todo mundo ri, porque parece impossível que um praiano de beira-mar não chegue sequer perto de um sertanejo de Quixeramobim. O pessoal do Cariri, então, até se orgulha do falar deles. Têm uns tês doces, quase um the; já nós, ásperos sertanejos, fazemos um duro au ou eu de todos os terminais em al ou el – carnavau, Raqueu… Já os paraibanos trocam o l pelo r. José Américo só me chamava, afetuosamente, de Raquer.

Queiroz, R. O Estado de São Paulo. 09 maio 1998 (fragmento adaptado).

Raquel de Queiroz comenta, em seu texto, um tipo de variação linguística que se percebe no falar de pessoas de diferentes regiões. As características regionais exploradas no texto manifestam-se:

  1. na fonologia.
  2. no uso do léxico.
  3. no grau de formalidade.
  4. na organização sintática.
  5. na estruturação morfológica.

GABARITO:

  1. B

a – Sim, somos coagidos pelo modismo vigente, submetendo-nos aos estrangeirismos por valorizarmos o que é importado em detrimento àquilo que nos pertence, no caso, a língua portuguesa.

b –  Não, o enfoque principal do emissor se atém ao termo delivery, pois o mesmo está relacionado à língua inglesa (cuja significância está relacionada à entrega domiciliar), que, segundo a concepção do autor, representa um descrédito em relação ao nosso idioma.

     3. A

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