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“Vestido de Noiva” – resumo da obra de Nelson Rodrigues

Entenda o enredo da obra

Por Redação Atualizado em 12 abr 2018, 15h29 - Publicado em 28 set 2012, 21h38

Encenada pela primeira vez em 1943, a peça de Nelson Rodrigues mostra ações simultâneas em três planos – da realidade, da alucinação e da memória e deu início ao processo de modernização do teatro brasileiro.

– Leia a análise de Vestido de Noiva

Primeiro Ato
A peça inicia-se com sons bastante conhecidos pelos habitantes de qualquer metrópole:
“Buzina de um automóvel. Rumor de derrapagem violenta. Som de vidraças partidas. Silêncio. Assistência. Silêncio”.

Cria-se, dessa forma, na imaginação do espectador, a cena de um atropelamento. Acende-se o plano da alucinação, e Alaíde chama por Madame Clessi. Encontra-se com vários personagens desconhecidos, ele que, aos poucos, lhe informam que Clessi fora assassinada. Alaíde desespera-se.

Acende-se o plano da realidade, com várias pessoas falando pelo telefone ao mesmo tempo. São repórteres que noticiam o atropelamento. No plano da alucinação, Alaíde está num bordel e recebe um homem que tem o rosto de seu marido. Suas atitudes são extremadas: acaricia o homem e o esbofeteia. Alaíde repara que todos os homens que aparecem têm o rosto de seu marido e encontra Madame Clessi, que a ajuda a lembrar-se da infância.

O plano da memória registra o diálogo entre os pais de Alaíde a respeito de Madame Clessi, antiga habitante da casa.

No plano da realidade, o diálogo lacônico entre os médicos revela que Alaíde está sobre uma mesa de operação. Alternam-se os diálogos entre Alaíde e Clessi no plano da alucinação e cenas do passado no plano da memória. Alaíde diz a Clessi ter matado seu marido.

Aparece também a Mulher de Véu, cuja identidade Alaíde parece não querer revelar. Madame Clessi pede a Alaíde que recorde o dia em que se casou. Alaíde lembra-se de que sua futura sogra elogiou o vestido de noiva pouco antes de ela entrar na igreja. Relembra também que havia mais alguém com elas, mas não consegue identificar essa pessoa.

Segundo Ato
Diálogo entre Alaíde e Clessi ao microfone. No plano da memória, Alaíde e a Mulher de Véu discutem violentamente. A segunda parece disposta a estragar o casamento de Alaíde. Aos poucos, descobre-se o motivo: o noivo fora namorado da Mulher de Véu, e Alaíde roubara-o dela. Clessi interroga Alaíde sobre a identidade da Mulher de Véu.

Plano da realidade: os médicos tentam os últimos recursos para salvar a vida de Alaíde. Sua memória está em franca desagregação; acendem-se as luzes das escadas laterais, das quais descem dois homens empunhando círios e se ajoelham diante de uma cruz, no plano da alucinação. Duas cenas são apresentadas de maneira entrecortada. Numa delas, a Mulher de Véu revela a Alaíde seu desejo de vingança; na outra, Clessi conversa com um jovem namorado, e este sugere que os dois se matem de amor. A mulher não parece levar a sério a conversa do garoto.

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No plano da alucinação, uma mulher se senta junto aos dois homens. Estão diante de um ataúde, dialogam num cínico tom de flerte. A conversa entre Alaíde e a Mulher de Véu se torna cada vez mais tensa. Alaíde revela a Clessi que a cena na qual os dois homens estão ajoelhados ante um ataúde é a do enterro da própria Madame Clessi. A identidade da Mulher de Véu é descoberta: trata-se de Lúcia, irmã de Alaíde.

Plano da realidade: Pedro pergunta aos médicos sobre a condição de sua esposa. Os médicos informam que o estado da paciente é grave, mas o homem não demonstra nenhum abalo emocional.

Terceiro Ato
Alaíde descobre que não matou o marido. Novo diálogo entre Clessi e o jovem namorado, em que ele lhe pede para morrerem juntos. Alaíde e Lúcia discutem no plano da alucinação, e aparecem outros personagens no meio da discussão, entre os quais Pedro e Dona Lígia. Clessi e o namorado conversam, ela entrega-lhe algum dinheiro. A mãe do jovem aparece e inicia uma discussão com Clessi, na qual pede que a mulher deixe de ver seu filho. Alaíde lamenta-se por confundir essas pessoas com personagens da ópera La Traviata e do filme …E o Vento Levou. A discussão termina com Clessi expulsando a mãe do rapaz de casa.

Plano da realidade: repórteres noticiam o acidente de Alaíde, descobrem se tratar de alguém importante, mulher do industrial Pedro Moreira. No plano da alucinação, Alaíde conta a Clessi suas recordações sobre a morte da mulher. Pedro surge e Clessi desaparece. Alaíde acusa Pedro de não a amar e diz saber que ele e Lúcia desejam sua morte. Surge Lúcia de luto fechado, os três juntam suas cabeças. Corte para o plano da realidade, no qual o diálogo entre os médicos revela a morte de Alaíde. No plano da alucinação, Alaíde e Clessi aparecem de costas para a platéia. Os repórteres noticiam a morte de Alaíde e dizem que a irmã chora muito.

No plano da realidade, Pedro é repelido por Lúcia, que diz ter jurado diante do cadáver da irmã não mais se aproximar dele. Diálogo entre Alaíde e Lúcia, no qual Alaíde ameaça a irmã. Lúcia acusa Pedro de ter incutido nela o desejo de que Alaíde morresse; falam de um “crime”, mas sempre entre aspas, o que confere ambigüidade ao termo.

Cenas sucessivas apresentam saltos cronológicos: discussão entre Lúcia e sua mãe; Lúcia volta de uma viagem, mais gorda e mais corada; Lúcia se prepara para o casamento com Pedro e faz a Laura a mesma pergunta que Alaíde fizera: “Estou muito feia, D. Laura?” – ao que Laura responde: “Linda! Um amor!”. Lúcia pede o buquê, e essa é sua última fala. Madame Clessi sobe uma escada. Surge também Alaíde, que caminha em direção a Lúcia como quem vai lhe entregar o buquê. A cena se apaga, exceto por uma luz que ilumina o túmulo de Alaíde.

Personagens
Alaíde: a protagonista. Casada com um homem importante (Pedro), é atropelada no começo da peça. A tensão dramática se constrói sob a expectativa de sua morte. Não se sabe se o atropelamento foi criminoso, acidental ou decorrente de tentativa de suicídio, e esse é um dos grandes êxitos da obra.
Lúcia (mulher de véu): irmã de Alaíde, surge inicialmente como a Mulher de Véu. Conforme a situação se descortina, descobre-se que Lúcia fora escondida sob um véu em conseqüência da culpa que Alaíde sentia em relação a ela. No passado, Pedro havia sido namorado de Lúcia, que acusava a irmã de tê-lo roubado dela.
Pedro: industrial bem-sucedido. Após o casamento com Alaíde, continua a desejar Lúcia, a ex-namorada, e com ela planeja matar sua mulher. Seu principal traço de caráter é o cinismo.
Madame Clessi: antiga prostituta de luxo assassinada por um jovem amante em 1905. A casa onde os pais de Alaíde e Lúcia foram morar tinha sido a habitação de Madame Clessi e o local onde ela exercia sua profissão. Sua figura é construída na imaginação de Alaíde, que, quando pequena, encontrara no sótão da casa o diário de Madame Clessi.
Dona Lígia: mãe de Alaíde e de Lúcia, mulher de costumes conservadores, representa o peso da tradição e dos bons costumes, que atuam sobre os personagens principais.
Gastão: marido de Dona Lígia, pai de Alaíde e de Lúcia. Sua principal aparição se dá no plano da memória, no qual está conversando com sua mulher sobre as atividades que eram exercidas na casa na época de Madame Clessi. “O negócio acabava numa orgia louca”, o curto diálogo, no qual Gastão profere essas palavras, marca profundamente a protagonista.

Sobre Nelson Rodrigues
Nelson Falcão Rodrigues nasceu no Recife, em 23 de agosto de 1912, e mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro. Aos 13 anos começou a trabalhar em jornal. Escreveu sua primeira peça, “A Mulher sem Pecado”, em 1941. Dois anos depois, a montagem de Vestido de Noiva revolucionou o teatro nacional e transformou-o num dos principais dramaturgos brasileiros.

Sua obra teatral é assim classificada pelo crítico Sábato Magaldi: peças psicológicas (nas quais se incluem as duas primeiras), peças mitológicas (“Anjo Negro” e “Álbum de Família”) e tragédias cariocas (“A Falecida” e “O Beijo no Asfalto”). Suas obras causaram polêmica ao abordar temas sexuais e morais, como o tabu do incesto e a infidelidade, de forma mórbida, obsessiva e moralista.

Sua vida pessoal foi marcada por tragédias, como o assassinato do irmão e o choque por saber que seu filho fora torturado pela ditadura militar, regime que Nelson apoiou. Escreveu também os romances “Meu Destino É Pecar” e “O Casamento”, além de livros de crônicas. Morreu no Rio de Janeiro, em 21 de dezembro de 1980.

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