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Ex-corretora do Enem aponta os 5 erros mais comuns na redação

Se você pensava que apresentar um repertório sociocultural era um "bônus" e não uma exigência, saiba que este é um dos erros mais comuns

Por Luccas Diaz 7 jul 2022, 15h13

Para muitos estudantes que prestam o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) a hora de fazer a redação é a mais temida. Não bastasse o elemento surpresa – já que os candidatos só descobrem o tema da redação na hora da prova – o texto dissertativo-argumentativo do exame estipula ainda uma série de regras que, se infringidas, vão acumulando perda de pontos.

Para entender quais são erros mais cometidos entre os estudantes — e, principalmente, como evitá-los — o GUIA DO ESTUDANTE conversou com a professora Raquel Frontelmo. Ela é ex-corretora de redação do Enem e hoje dá aulas em seu próprio curso, em Vila Velha (ES). A professora listou quais erros que ela mais encontrou nos textos enquanto corretora do exame. E já adianta: receita de miojo não passa mais nos dias de hoje! “Os critérios de redação são muito bem pensados, o sistema de correção do Enem foi se aprimorando ao longo do tempo”, destaca.

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1 – Não compreender o tema ou não saber interpretar os textos motivadores

Redação do Enem - Regras - Dicas
Redação/Reprodução

Um dos tópicos relacionados ao Enem mais comentado ao longo do ano é o tema da redação. Muito estudante perde o sono com medo de, quando o momento finalmente chegar, ele abrirá o caderno da prova e encontrará um tema do qual nunca ouviu falar. Essa preocupação excessiva com o tema que será cobrado no dia da prova pode desviar o foco do estudante do que mais importa: saber interpretar e desenvolver uma reflexão sobre aquele assunto.

“Vamos supor que alguém chegue e me conte qual vai ser o tema da redação deste ano, e eu divulgo para todos os estudantes do Brasil. Se o aluno não souber a estrutura cobrada no texto, se ele não compreender a linha de raciocínio proposta, não vai adiantar nada saber qual é o tema”, diz.

A professora aponta que a fuga ou uma interpretação incoerente do tema é um dos erros mais frequentes dos candidatos. Segundo ela, muito além de gastar horas tentando adivinhar qual será o tema do ano, é mais benéfico concentrar os esforços em, além de treinar as habilidades textuais, desenvolver uma boa capacidade de interpretação.

Compreender o que a frase-tema está propondo e qual caminho os textos motivadores estão indicando é fundamental para uma garantir uma boa nota. A falta ou o exercício incompleto dessas duas competências pode gerar o fenômeno de tangenciamento, que é quando o candidato apenas aborda parcialmente o tema proposto. Foi o que aconteceu com muitos candidatos em 2019, por exemplo, quando o tema proposto pelo Enem era “A democratização do acesso ao cinema no Brasil”. Embora fosse relevante falar da importância da cultura e do cinema, muitos estudantes se concentraram apenas nestes tópicos e se esqueceram de abordar o principal deles, que era o acesso a este bem cultural.

“É preciso lembrar que você vai estar escrevendo para um órgão do governo sobre um problema de ordem social. Tem que pensar que nada ali está sendo colocado à toa, tem que enxergar os textos motivadores como um trampolim para as ideias. É preciso desenvolver uma sagacidade para entender o tema e analisar os textos motivadores”, afirma.

2 – Não saber a estrutura textual exigida

Folha de Redação do Enem 2021
Fernanda Quaresma/GE/Reprodução

A redação do Enem deve ser um texto dissertativo-argumentativo. Isto é, o estudante deve discorrer sobre determinada problemática a partir de um ponto de vista, elaborando uma tese e argumentos que o defendam.  É um texto que deve convencer o leitor de que a tese apresentada é correta e plausível.

Usualmente, o recomendado pelos professores é seguir com com quatro parágrafos, com a ordem: introdução, primeiro desenvolvimento de argumento, segundo desenvolvimento de argumento e conclusão. A linguagem deve seguir a norma padrão culta da Língua Portuguesa.

Para Raquel Frontelmo, muitos candidatos vão fazer a prova sem conhecer os elementos que compõem a estrutura exigida pela banca, o que pode levar um texto bom a receber uma nota baixa.

“Se Machado de Assis fosse vivo e prestasse o Enem hoje, talvez ele não tirasse 1000 na redação”, brinca. “Ele até poderia escrever aqueles textos maravilhosos que ele escrevia, mas se ele não fizesse seguindo a estrutura que o Enem cobra, ou seja, texto dissertativo-argumentativo, com delimitação de tese, apresentação de repertório sociocultural e proposta de intervenção, ele não conseguiria a nota máxima”.

Isto acontece porque o corretor avalia o candidato sempre a partir das competências cobradas. Desta forma, mesmo que um texto esteja impecável em aspectos de gramática, originalidade, coesão e coerência, ele não terá uma boa nota se não seguir o formato dissertativo-argumentativo e as competências exigidas.

3 – Não conhecer as competências avaliativas da banca

Estudante fazendo prova do enem
FG TRADE/Getty Images

Não saber quais são as competências avaliativas da banca corretora também pode se tornar uma dificuldade para o estudante que busca uma boa nota no exame. Explicamos melhor. No Enem, são cobradas cinco competências e, durante a correção do textos, os corretores vão pontuando, em até 200 pontos, qual é a nota do candidato em cada uma. São elas:

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  • Competência 1: demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa;
  • Competência 2: compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa;
  • Competência 3: selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista;
  • Competência 4: demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação;
  • Competência 5: elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.

“Para o aluno tirar 200 pontos em uma competência, ele precisa cometer uma série de acertos. E mesma coisa o contrário. Não existe ‘errei uma vírgula, perdi 10 pontos’, os erros vão se somando e a nota vai sendo diminuída, de 40 em 40 pontos”. Mas nem tudo são flores: segundo a professora, existem, sim, erros muito graves que podem zerar uma competência.

Na competência 3, por exemplo, o aluno perde os 200 pontos se apresentar informações não relacionadas ao tema e não defender um ponto de vista. Veja abaixo a tabela de correção desta competência.

Tabela de correção da competência 3 da redação do Enem.
Inep/Reprodução

Uma ótima dica é ler o documento ‘Cartilha do Participante’. Neste texto, organizado e disponibilizado pelo próprio Inep, é explicado em detalhes e com exemplos o que é esperado do candidato na redação do Enem.

4 – Não delimitar a tese na introdução

Mão de uma mulher segurando uma caneta. Ela está escrevendo um texto.
Tookapic/Pixabay/Reprodução

Sendo o texto uma dissertação-argumentativa, é obrigatório que o candidato defenda uma tese sobre a problemática proposta pelo tema. Isto é, a opinião do autor sobre a questão abordada precisa estar no texto. O avaliador do Enem não quer que o candidato fique “em cima do muro” ou escreva um texto meramente expositivo. Ao escolher um ponto de vista, o candidato já precisa esclarecer qual é ele logo na introdução.

“É importante que o aluno, já no final do primeiro parágrafo, de introdução, deixe claro qual é a tese que ele irá defender”, explica a professora Raquel. “Precisa especificar para o corretor o que você vai argumentar durante os desenvolvimentos 1 e 2″.

Veja como exemplo o parágrafo de introdução da redação de Fernanda Quaresma, candidata que recebeu nota 1000 na redação do Enem 2021. O tema proposto no último ano foi “Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil”.

Em “Vidas secas”, obra literária do modernista Graciliano Ramos, Fabiano e sua família vivem uma situação degradante marcada pela miséria. Na trama, os filhos do protagonista não recebem nomes, sendo chamados apenas como o “mais velho” e o “mais novo”, recurso usado pelo autor para evidenciar a desumanização do indivíduo. Ao sair da ficção, sem desconsiderar o contexto histórico da obra, nota-se que a problemática apresentada ainda percorre a atualidade: a não garantia de cidadania pela invisibilidade da falta de registro civil. A partir desse contexto, não se pode hesitar – é imprescindível compreender os impactos gerados pela falta de identificação oficial da população.

A parte grifada representa a tese que a estudante vai defender durante os próximos dois parágrafos. Fernanda começa o texto citando os personagens que não possuem nomes no livro “Vidas Secas” e, em seguida, já deixa clara a sua opinião: a falta do registro civil pode acarretar na ausência da cidadania, e é preciso conhecer as consequências que este fenômeno traz aos brasileiros. Os trechos “não se pode hesitar” e “é imprescindível” reforçam a ideia de que este é o ponto de vista da candidata.

5 – Não apresentar repertório sociocultural

Quado
Obras de arte, livros, músicas, filmes e até mesmo a Constituição Federal são boas opções de repertório sociocultural. Wikimedia Commons/Divulgação

É comum alguns estudantes acharam que o papel do repertório sociocultural na redação do Enem é dar um upgrade no texto ou que ele é como um bônus que ajuda a garantir uma nota maior. A verdade, porém, é que trazer uma referência externa para a redação é uma das exigências para gabaritar a competência 2.

Segundo a cartilha, só recebe os 200 pontos o candidato que desenvolver o tema “por meio de argumentação consistente, a partir de um repertório sociocultural produtivo, e apresentar excelente domínio do texto dissertativoargumentativo”. Dessa forma, não é meramente opcional colocar um repertório cultural; é um fator obrigatório para garantir a nota máxima.

E como repertório sociocultural, ainda segundo a cartilha, deve-se entender “uma informação, um fato, uma citação ou uma experiência vivida que, de alguma forma, contribui como argumento para a discussão proposta”. A professora Raquel explica que o Enem entende o repertório sociocultural como um “entendimento de mundo por parte do aluno, uma capacidade de trazer uma referência externa para complementar as ideias”.

Não apresentar um repertório que atenda a essas competências completa a lista de erros mais comuns.

“Tem aquele aluno que pega qualquer citação, ou ainda decora só uma coringa, e saí enfiando em qualquer tema que vê, achando que só por colocar vai garantir a nota da competência”, diz a docente. “Não, o repertório sociocultural tem que conversar com o texto, tem que ter relação com o que você está escrevendo de maneira pertinente. Do contrário, o corretor vai perceber que você pegou aquilo só para encher linguiça.”

Quando questionada sobre qual tipo de repertório o candidato deve trazer para o texto, a professora garante que o leque é amplo, basta que seja coerente com o tema. “Independente do que for, a relevância do que for citado vai ser medido a partir da crítica que aquela referência tem em relação ao tema que está sendo cobrado”, explica.

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