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Doze anos após morte de estudante de Medicina calouros são recebidos com simpatia e brincadeiras

Apesar das mudanças alunos garantem que ainda sofrem preconceito pela tragédia

Por por MARIANA NADAI Atualizado em 16 Maio 2017, 13h53 - Publicado em 22 fev 2011, 19h29

“A recepção que tive na faculdade de Medicina superou as minhas expectativas. Não esperava que os estudantes fossem tão simpáticos e receptivos”, comemora a estudante Amanda Wictky Fabri, caloura do curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

– “Trote é exclusão”, critica professor

A surpresa de Amanda tem sentido. Na maioria das faculdades brasileiras os alunos recém ingressos são recebidos com tinta, máquinas de cortar cabelo e brincadeiras de mal gosto. Além disso, se tratando da Medicina da USP, há mais um agravante. Há 12 anos a faculdade foi marcada pela morte do estudante Edison Tsung-Chi Hsueh, encontrado morto na piscina da instituição, no dia seguinte do trote da faculdade.

Mas, de lá para cá muita coisa mudou. No ano seguinte da morte de Edison a direção da faculdade aboliu qualquer tipo de trote e os veteranos deixaram de lado as pinturas no rosto e os cortes de cabelo, para serem guias dos novos estudantes, mostrando as instalações da faculdade. “Muitos amigos meus diziam que eu ia sofrer trote e quando eu falava que não eles riam de mim. Mas, na matrícula não rolou nada. E até agora, na semana de recepção dos calouros, está tudo muito tranquilo”, diz Amanda.

– Primeiro trote registrado no Brasil terminou em morte

Para o estudante do terceiro ano de Medicina André Silva Saijo, após a morte do calouro, em 1999, a faculdade conseguiu criar uma tradição de tratar bem os novos estudantes. “Como fomos bem tratados na nossa recepção, também queremos tratar bem depois. Essa é a nossa realidade. Acreditamos que não adianta receber mal os novos alunos. Recebemos eles como iguais, porque no futuro todos nós seremos iguais”, diz o estudante.

– Como denunciar abuso nos trotes

Semana do calouros
A recepção aos estudantes não termina no dia da matrícula. Na primeira semana de aula dos calouros, que neste ano está sendo entre 21 e 25 de fevereiro, não há aula, apenas atividades de integração. “Existe uma programação intensa. Os calouros têm uma aula inaugural com o diretor da faculdade, conversam com veteranos, assistem palestras, doam sangue e participam de brincadeiras, como o futebol de sabão. Na minha opinião, essa semana realmente integra os estudantes”, comenta André.

– Como é o trote em outros países?

O mais próximo dos trotes convencionais acontece nessa semana. Existe um dia apropriado para os estudantes que querem se pintar e os veteranos programam um dia para que os calouros façam pedágio nos carros que circulam pela Avenida Dr. Arnaldo, nos arredores da faculdade. “No primeiro dia da semana dos calouros, os veteranos estavam com um potinho com tinta. Eles diziam que não podiam pintar a gente, mas que se quiséssemos poderíamos pegar a tinta e nos pintar. Quase todo mundo quis”, afirma Amanda Wictky Fabri.

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“Durante essa semana vamos fazer o pedágio. Tentamos arrecadar dinheiro para poder ajudar a comissão de recepção dos alunos, porque eles gastam bastante dinheiro com os eventos, eles pagam tudo para a gente, até os almoços”, diz a estudante.

Apesar das mudanças, o preconceito ainda existe
“Essa recepção virou uma tradição depois da morte do Edison. Acho que antes disso não tinha atividades a semana toda, só algumas coisas”, explica André Silva Saijo.

– Tinta, brincadeiras e ações solidárias tomam conta dos trotes universitários

Mas, apesar das mudanças dentro da faculdade, os estudantes sentem que as pessoas de fora ainda os olham com receio. “Quando vamos a jogos acadêmicos sempre tem alguma pessoa que zoa, que diz ‘medicina assassina’. Ou então, quando fazemos o pedágio alguém sempre comenta que não dará dinheiro para assassinos, que ‘se mataram uma vez, vão matar de novo’. Pensam que essa fatalidade sempre acontece, mas é falta de informação”, lamenta o estudante.

“Ainda não ouvi muitos comentários sobre a morte do Edison. Mas alguns amigos meus, quando souberam que passei na USP, falaram: ‘olha, só não chega perto da piscina’. Também ouvi alguns calouros fazendo piadas de mal gosto, do tipo: ‘podemos fazer qualquer coisa, menos entrar na piscina’, diz Amanda.

Para André, a faculdade se fechou após a morte do estudante, o que provocou desconfiança da sociedade. “As pessoas acham que alguma coisa foi encoberta, que não querem falar toda a verdade. Mas, dentro da faculdade não é assim. No meu ano citaram o episódio, fizeram disso um ensinamento. O diretor salientou que aconteceu uma tragédia e que isso é inadmissível. Ninguém finge que não aconteceu nada” afirma.

E o estudante ainda diz: “Acho importante as pessoas saberem como é o trote hoje dentro da Medicina da USP de São Paulo. Ninguém esconde o que aconteceu e, desde então, a faculdade tenta melhorar”.

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