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A correspondência de Fradique Mendes – Análise da obra

Veja resumo e comentário de um professor sobre a obra

Através da figura de Fradique Mendes, um notável intelectual, Eça de Queirós dá voz às insatisfações da nação portuguesa em meio a crise que assolava o país no final do século XIX.

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Estrutura do romance
O livro possui duas partes distintas. A primeira é uma narrativa em primeira pessoa onde o narrador apresenta a personagem Fradique Mendes. Em certo momento, o narrador em primeira pessoa dá lugar a outro narrador, dessa vez onisciente, que dará detalhes sobre a vida de Fradique. Terminada a narração sobre o passado de Fradique Mendes, volta o narrador em primeira pessoa.

O uso de personagens de apoio, tanto ficcionais quanto verídicos, a alternância entre narradores, discurso direto e indireto, e outras ferramentas literárias, servem para dar veracidade ao texto de modo a fazer o leitor acreditar que Fradique é uma personagem real.

A segunda parte do romance é formada por cartas que Fradique Mendes havia endereçado a diversos intelectuais e amigos da época, tanto pessoas reais quanto ficcionais. O jogo entre real e irreal que marca a primeira parte do livro também se faz presente nessa segunda parte.

A busca por uma identidade nacional
“A correspondência de Fradique Mendes” é uma obra escrita nos últimos anos do século XIX, momento de grande turbulência em Portugal. O país havia perdido diversos territórios ultramarinos, bancos faliram, a moeda nacional foi depreciada e o aumento da dívida pública faziam crescer a insatisfação do povo contra a monarquia. Uma classe de pequenos e médios burgueses, que se sentia prejudicada pela monarquia, pressionava por uma revolta contra as instituições monárquicas e à Igreja. Enquanto isso, os outros países da Europa viviam uma era de revolução cultural, científica e industrial.

Assim, o livro de Queirós surge como um contraponto ao momento histórico e os problemas enfrentados por Portugal. O narrador busca firmar os valores culturais e morais de seu país, para firmar um espaço de igualdade de Portugal em relação aos demais países europeus. Nas cartas, a personagem Fradique exalta os valores firmados na tradição e na cultura portuguesa. Porém, as contradições entre realidade histórica e ficção presentes na obra acabam por acentuar as diferenças entre Portugal e o restante da Europa.

Na carta escrita ao Sr. Mollinet, por exemplo, Fradique fala sobre Pacheco, uma personagem fictícia representante da classe dos políticos e burocratas. Pacheco possui um discurso típico das ideias iluministas do século XIX e o povo tem a ilusão de estar diante de um verdadeiro líder, cujos interesses estão voltados para a nação. Porém, Pacheco apenas dizia algum cliché de vez em quando e, no geral, apenas sorria para tentar esconder sua falta de conhecimento. Através da personagem de Pacheco, que não dá voz às aspirações do povo, Eça de Queirós mostra a incapacidade de representação do povo pelo governo.

Além da falta de representatividade política, a obra também mostra o atraso científico e tecnológico de Portugal. Ao chegar de Paris em Lisboa, Fradique se mostra chocado por não ter um meio de transporte que o leve até seu hotel.

Através da personagem Fradique Mendes, o descontentamento com a decadência de Portugal no final do século XIX ganha voz. Fradique teria sido um grande homem, detentor de ideias originais, preocupado com valores morais e sociais de seu povo, um verdadeiro nacionalista. Desiludido com a situação de Portugal, resolve sair pelo mundo para tentar entender a si mesmo e a sua nação. É nesse contato com o estrangeiro que Fradique volta para o Portugal das grandes navegações, o Portugal de um passado glorioso, a fim de resgatar as raízes de sua nação.

Sendo tido como um homem exemplar e admirado por todos, através do discurso de Fradique têm-se o retrato do que pensavam os intelectuais da época sobre a crise em Portugal. Dessa forma, Eça de Queirós consegue dar voz ao ceticismo e pessimismo com relação ao futuro do país através da figura de Fradique Mendes.

Comentário do professor
Comentários do professor Deco Duarte do Colégio Gregor Mendel
Considerado por alguns como uma obra “estranha” em relação às demais presentes no vestibular da UFBA, “A correspondência de Fradique Mendes” foge, de fato, ao discurso de denúncia social presente nas outras indicações. Dividido em duas partes, o livro se propõe a contar, na primeira delas, a vida de Carlos Fradique Mendes, um dândi português do final do século XIX, que, como a própria palavra “dândi” traduz, gastava o mais de seu tempo a viajar e a se ilustrar, gozando dos recursos herdados de sua família. Fradique nos é apresentado pelo olhar de um narrador admirador, que não economiza louvores ao viajante português. Ao longo de alguns encontros e de variadas opiniões de amigos em comum, o narrador, que em nenhum momento se identifica, tenta reconstruir a imagem daquele que considera “o maior português daqueles tempos”. A biografia vai assim do nascimento de Fradique até a sua morte, não faltando explicações do narrador sobre os fatos narrados bem como sobre as razões de se escrever a biografia.

Na segunda parte da obra – as “Cartas” -, o narrador selecionou aquilo que considerava a mais fina flor do pensamento fradiqueano. São 17 missivas que darão ao leitor, segundo ele, uma noção do modo de pensar de Fradique. Não há um enredo a seguir nas cartas, tampouco uma estrutura semelhante. Algumas são verdadeiros contos, como as que narram a chegada de Fradique a Lisboa ou a sua espera por Ramalho Ortigão em um café de Paris. Em outras, aparece a ironia do personagem a descrever certos tipos lisboetas, como o Pacheco, o Pinho ou o padre Salgueiro. Há ainda – e estas merecem uma especial atenção – as cartas de amor endereçadas a Clara, nas quais o leitor pode ver a gênese e o fim de uma relação amorosa. Vale dizer que, apenas nestas cinco cartas, há certa continuidade temática. Se na primeira parte da obra predominava certa visão romântica, pela idealização exagerada de Fradique por parte do narrador; na segunda, predomina uma visão mais realista de mundo, seja pela crítica social, seja pela ironia corrosiva – uma das marcas mais famosas da obra de Eça -, seja pelos temas recorrentes, dentre eles a impossibilidade do amor, o adultério, o anticlericalismo, dentre outros.