logo-ge

O que aprendi escolhendo meu segundo curso

Nossa primeira decisão não precisa ser a última - muito pelo contrário

Escolhendo segundo curso

Uns dias atrás, uma amiga perguntou se o nosso trabalho aqui no Guia é o que faz a gente ficar com vontade de voltar para a faculdade. A pergunta dela faz total sentido: aqui na redação, eu sou a segunda a prestar outra vez o vestibular nos últimos dois anos (a primeira foi a minha editora – o relato dela sobre essa experiência você lê aqui). Pode ser que essa amiga tenha razão, mas, no meu caso, acho que a decisão teve bem mais a ver com uma sensação de incompletude – me formei e senti que precisava de mais.

Eu entrei em Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP) em 2012 e me formei em junho deste ano. Passar nesse curso foi um sonho desde pequena, então, quando terminei a escola, em 2010, já me matriculei em um cursinho na minha cidade e comecei a jornada que muitos de vocês estão vivendo agora. Sim, eu sofri, varei madrugadas, estudei mais do que achava que seria possível, e depois de um ano difícil, consegui. Só não achei que um dia iria, voluntariamente, enfrentar uma dessa de novo.

A verdade é que, quando entramos na universidade, um novo mundo se descortina, muito diferente do que conhecíamos na escola. Passei um bom tempo perdida no curso, me questionando se eu havia feito a escolha certa ou se deveria ter ido fazer Letras (minha segunda opção). Essa resposta eu nunca saberei, mas sei que essas crises são normais – chuto que uns 95% dos meus colegas passaram pela mesma coisa. Então, há mais ou menos um ano decidi que, assim que me formasse, tentaria a USP de novo. E foi o que fiz, dessa vez para o curso de Ciências Sociais, que se tornou meu xodó na escolha de optativas (as aulas que você pode fazer fora do seu curso de origem dentro da universidade).

Entre esse processo de entrar no primeiro curso e decidir que faria outro depois, aprendi muitas coisas sobre esse momento. Tive oportunidade de entender melhor a mim mesma e o que eu realmente gostava de fazer, e vi que muitos dos meus medos aos 17 anos não tinham lá muito fundamento. Divido essa experiência com cinco dicas que, hoje, considero fundamentais.

Não baseie sua escolha só nas matérias em que tem mais facilidade

A primeira coisa que temos que entender é que faculdade é muito diferente de escola. Na escola, nossas habilidades e preferências acabam se manifestando nas disciplinas de que mais gostamos: você pode ser bom em português e história e ruim em matemática e física, por exemplo. Ou pode ser bom em artes, em educação física, em química, e outras possibilidades. Mas, na faculdade, a coisa muda bastante.

Tomemos um exemplo: ser bom em biologia não significa que você vai gostar do curso de Medicina, porque inúmeras outras aptidões e habilidades são necessárias – como saber (e gostar de) lidar com pessoas e ter grande capacidade de dedicação. Leve em consideração que ser bom na matéria que mais parece combinar com o curso é apenas uma parte de um todo bem maior, e esse restante pode ou não ser legal para você. E isso nos leva ao próximo item.

Conheça o curso e de que formas você pode trabalhar com ele

No Guia, sempre repetimos: “Conheça o curso! Entenda o dia a dia de quem trabalha com essa profissão!”. Não é à toa, pessoal: essa é uma das dicas mais importantes de tudo que você está lendo aqui. Como eu disse antes, escolher um curso deve ir além das suas disciplinas favoritas, passando, obrigatoriamente, por entender o que o profissional faz no dia a dia e como é o curso: pode ser que você ame o curso mas não goste da rotina profissional, ou pode ser que adore a rotina mas não curta muito a graduação. Tudo isso pesa na hora de decidir.

Também é bacana ver quais são as outras possibilidades de trabalho que não as mais óbvias. Quer um exemplo? Lá atrás, eu pensava em fazer Letras, mas acabei desistindo porque não queria ser professora. Hoje, sei que a pessoa formada nessa área pode fazer várias outras coisas além de dar aula: seguir carreira acadêmica, ser revisor, editor de livros ou publicações jornalísticas. Pode, inclusive, ser jornalista, já que não há exigência de diploma. Portanto, o famoso “pensar fora da caixa” ajuda muito nessa hora.

Pense menos no fator dinheiro

Longe de mim ser hipócrita: é claro que dinheiro é importante, afinal todos temos contas, aluguel, planejamentos… (insira aqui alguma preocupação financeira). E entendo que seja sedutor pensar em escolher aquela profissão que reconhecidamente paga muito bem. Mas há um erro que pode ser cometido aqui: escolher algo SÓ pelo dinheiro. Ou estar em dúvida entre dois ou mais cursos e escolher o que tem mais chances de pagar bem só por esse motivo. Essa tem boas chances de ser uma decisão equivocada.

Primeiro, porque não há garantia de que você vai realmente ganhar muito dinheiro com essa carreira. Segundo, e mais importante, não é porque uma carreira não paga muito bem que você não possa acabar, sim, se dando bem. A questão é saber achar o seu lugar fazendo o que você gosta. Com muita paixão e gosto pelo que faz, o reconhecimento (financeiro, inclusive) vem bem mais fácil. Assim, preferir um curso a outro pelo dinheiro pode ser um tiro saído pela culatra. Vale mais a pena apostar naquele seu sonho!

Crises são normais, mas é preciso reconhecer a hora de partir para outra

Pergunte a qualquer um que já tenha passado pela faculdade. Dificilmente você encontrará alguém que tenha se sentido plenamente realizado em todo o tempo da graduação. As crises são frequentes, e acredite, absolutamente normais. Como eu disse lá atrás: por um bom tempo me senti perdida no meu curso e me questionei se havia feito a escolha certa. Hoje, acho que isso se deve a um choque de realidade que a vida traz em muitas experiências pelas quais passamos. Afinal, para uma boa parte dos adolescentes e jovens, entrar na faculdade e se virar por lá é uma das primeiras experiências adultas na vida, e passar por isso pode ser bem difícil até pegarmos o jeito da coisa.

Então, ter crises existenciais na faculdade é uma coisa bastante normal. Mas há crises e crises, e uma das sabedorias que só adquirimos com a experiência é reconhecer quando é hora de abandonar o barco. Ou seja: saber identificar se essa crise é passageira ou se é melhor sair do curso e fazer outro. Pode ser que você realmente não esteja satisfeito com a decisão que tomou, e lembre-se, não é vergonha alguma voltar atrás. O que não pode acontecer, em hipótese alguma, é levar adiante algo que te deixa infeliz. Essa parte das nossas vidas ocupa espaço demais para ser ignorada. (Aliás, pessoal, essa é uma observação que vale para tudo, ok?).

Nossa primeira decisão não precisa ser a última – pelo contrário

Como disse antes, as crises são comuns. No meu caso, senti que o curso não era bem o que eu imaginava que seria. Mas, depois de um tempo, encontrei uma área que gosto muito e as coisas foram dando certo. Ainda assim, sentia falta de algo mais, uma vontade de fazer outra coisa e me dedicar a algo que não fosse o trabalho que eu já tinha. Foi assim que eu percebi que não é porque eu escolhi o Jornalismo primeiro que a minha vida profissional precisa se concentrar inteiramente nele – e sim que eu tinha ainda bastante tempo pela frente para fazer várias outras coisas.

O bom é que o mercado de trabalho hoje é receptivo a isso. Afinal, somos todos pessoas multifacetadas, cheias de interesses e gostos que nem sempre coincidem. Por que seguir apenas um caminho? Por isso, a primeira escolha que fazemos não precisa ser a última, pelo contrário. Pode ser a primeira de várias outras que se transformarão em oportunidades ao longo da vida.

Assim, acho que vale dizer que dificilmente um único curso vai preencher todas as necessidades, gostos e paixões que você, como pessoa única, tem. Para isso, há várias soluções: tem gente que mantém hobbies. E tem gente que decide fazer mais de um curso, que foi o meu caso. Independentemente do que você escolher, saiba que o mais legal da vida é justamente explorar as muitas opções que ela nos dá. Cada uma dessas experiências nos traz uma série de aprendizados bacanas e, sem dúvida, muito crescimento pessoal. Só não vale se limitar, ok?  😉