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África do Sul enfrenta protestos violentos pró-Zuma

O país vive uma onda de manifestações que já mataram 72 pessoas  

Por Danilo Thomaz 15 jul 2021, 20h31

Personagem menos conhecido fora da África do Sul, o ex-presidente Jacob Zuma foi preso na semana passada. A prisão é decorrente da recusa de Zuma em responder perguntas sobre o seu mandato em uma comissão anticorrupção. 

A detenção do ex-presidente levou o país, que enfrenta grave crise econômica e sanitária em decorrência da pandemia de Covid-19, a uma onda de protestos. Até o dia 12, ao menos 72 pessoas haviam sido mortas . Os protestos já duram uma semana, com barricadas, intimidações e ataques a estabelecimentos. As manifestações mais intensas ocorrem na Grande Johanesburgo – capital econômica do país, localizada em sua região central – e em KwaZulu-Natal, na costa oriental do país. A província criada em 1994 é a região de Zuma.  

++ VEJA – África do Sul em transe por causa de ex-presidente populista e corrupto

Quem é Jacob Zuma

Ex-presidente da África do Sul, Jacob Zuma, no Sports for Peace Gala. Joanesburgo, 2010.
Ex-presidente da África do Sul, Jacob Zuma, no Sports for Peace Gala. Joanesburgo, 2010. Wikimedia Commons/Divulgação

Jacob Gedleyihlekisa Zuma, 79, é um político influente na política da África do Sul e uma das principais figuras do Congresso Nacional Africano, partido criado em 1940 para defender os direitos dos povos originários ante a opressão da minoria branca. Desde 1994, a agremiação de esquerda é a principal legenda da África do Sul e governa o país há 27 anos. Mandela foi sua principal liderança. Zuma também foi uma figura destacada da luta contra o apartheid, que esteve preso por 10 anos entre as décadas de 1960 e 1970. Rodou o país por anos para não voltar à cadeia. Tornou-se presidente pelo partido em 2009. Naquele ano o CNA obteve mais de 65% dos votos. A África do Sul é uma república parlamentarista. Suas principais lideranças são o presidente – escolhido pelo partido – e o vice-presidente (deputy president).  

Antes,  Zuma havia sido eleito vice-presidente em 1999 e manteve-se no cargo até 2005, quando foi afastado por denúncias de corrupção. À época, esperava-se que sucedesse o então presidente, Thabo Meki, outra liderança da luta contra o apartheid, e que esteve preso junto de Mandela. 

 Mesmo fora do cargo e enfrentando uma série de denúncias, Zuma seguiu como figura influente dentro do partido e com forte apoio social. Após a renúncia de Meki, por falta de apoio da CNA, assumiu interinamente Kgalema Petrus Mothantle. Zuma foi eleito em 2009. 

Seu governo foi de baixo crescimento econômico, pressão inflacionária e, a partir de 2015, queda da renda per capita. Ainda assim, o presidente, por meio de políticas, conseguiu manter a taxa de desemprego estável durante boa parte de seus nove anos no poder, mas em patamares altos, em torno de 25%. 

 As sequentes denúncias de corrupção combinadas com os fatores socioeconômicos – e também à rejeição por parte da população pela adoção de hábitos da tribo Zulu, seu povo – tornaram sua situação política insustentável e o levaram a renunciar, pressionado pelo partido, em 2018. 

 Fora do poder, sua situação começou a se agravar e se combinou com a explosão do desemprego – hoje em 32,6% –, a recessão econômica (7%, em 2020) e a pandemia de Covid-19. O país, com uma população de 58 milhões de pessoas, já tem mais de 2 milhões de casos de Covid-19 e enfrenta uma nova onda da pandemia. Além disso, nem 10% da população foi imunizada ainda, segundo dados oficiais. O país é o líder de casos no continente africano.  

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Zuma é o primeiro ex-presidente sulafricano a ir para a cadeia. Opositores à sua prisão alegam perseguição. A defesa do ex-presidente, assim, soma-se à crise econômica e sanitária – que não tem hora para acabar. A África do Sul, deste modo, junta-se a uma série de outros países emergentes que, no início do século 21, ascendiam como novos atores globais e, agora, vivem um cenário de completa incerteza.  

 

Histórico

A queda do apartheid
Com o aumento da violência e repressão utilizadas contara os combatentes, organizações internacionais passaram a observar mais de perto o que acontecia na África do Sul. Em 1973, a ONU declarou o apartheid um crime contra a humanidade e, em 1986, os EUA impuseram um embargo contra o país. Enquanto isso, a luta interna se fortalecia. Na década de 1980, a situação se tornou insustentável. O então presidente Frederik de Klerk começou, no início década de 1990, a derrubar as leis segregacionistas. Wikimedia Commons/Divulgação

A África do Sul é um país marcado historicamente pela política do apartheid – que relegava as populações originárias a uma subcategoria cidadã, por meio de forte autoritarismo respaldado pelo Reino Unido até a década de 1980. Autoritarismo este que deixou no cárcere aquele que seria o símbolo da luta pelo fim do apartheid – Nelson Mandela, morto em 2013. 

 A queda do regime do apartheid, num continente que viveu lutas sangrentas ao longo do século 20 para superar o colonialismo, aconteceu apenas em 1994, após décadas de luta das populações originárias e de pressão externa, como os embargos ao país, que começaram a deteriorar sua situação econômica. 

 Com o fim do apartheid, Mandela ascende como o primeiro presidente negro de um país de povos negros e promove a reunificação do país, por meio da Comissão da Verdade e Reconciliação, que pretendia passar a história do apartheid a limpo. Formado politicamente na esquerda clássica, uma vez presidente foi criticado por essa mesma esquerda por instituir um regime econômico neoliberal. Todavia este era o modelo econômico hegemônico em praticamente todos os países do mundo durante a década de 1990. Ao adotá-lo, Mandela permitiu a ascensão de parte das populações negras – embora a desigualdade social e racial seja ainda marcante no país.  

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