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Racismo? Entenda o aviso presente em alguns filmes na Disney+

Plataforma busca lidar com a contextualização de clássicos

Por Luccas Diaz Atualizado em 23 nov 2020, 10h08 - Publicado em 20 nov 2020, 15h00

A nova plataforma de streaming para as produções da Disney tem dado o que falar. Além de ser o novo lar exclusivo dos filmes, séries, animações, documentários e programas do selo Disney, Marvel, Star Wars e National Geographic, a plataforma tem chamado a atenção por um ponto específico em seu conteúdo. Filmes clássicos como Peter Pan (1953), Aristogatas (1970) e A Dama e o Vagabundo (1955) ganharam uma mensagem de aviso antes do início.

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Certos aspectos desses filmes, que marcaram gerações e compõem o imaginário de crianças e adultos até hoje, podem ter passado sem chamar a atenção dos espectadores da época, mas são condenados hoje pelo seu teor racista ou preconceituoso. A mensagem reproduzida antes dos filmes tem 12 segundos de duração, não pode ser pulada e diz o seguinte:

“Este programa inclui representações negativas e/ou maus tratos de pessoas ou culturas. Estes estereótipos eram incorretos na época e continuam sendo incorretos hoje em dia. Em vez de remover esses conteúdos, queremos reconhecer o impacto nocivo que eles tiveram, aprender com a situação, e despertar conversas para promover um futuro mais inclusivo juntos”.

No website Stories Matter (“Histórias importam”, em português), criado junto ao lançamento do Disney+ nos Estados Unidos, o estúdio esclarece suas novas abordagens. “Não podemos mudar o passado, mas podemos reconhecê-lo, aprender com ele e seguir em frente, juntos, para poder criar um amanhã que sonhamos hoje”, diz um dos textos espalhados pelo site, em tradução livre. “Para isso, reunimos um grupo de especialistas de fora de nossa empresa para nos aconselhar enquanto avaliamos nosso conteúdo para garantir que ele represente com precisão o nosso público global.”

O site também explica especificamente o porquê de certos filmes estarem recebendo esse aviso. Segundo o estúdio, em Peter Pan (1953), povos indígenas são representados de “uma forma estereotipada que não reflete nem a diversidade dos povos indígenas nem suas tradições culturais autênticas”. No longa, estes são chamados pelo termo ofensivo “peles vermelhas” e personagens como Peter Pan e os meninos perdidos zombam e se apropriam de imagens e costumes da cultura indígena.

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A escolha do serviço de streaming de adicionar um alerta de traços racistas e preconceituosos em seus títulos é apenas um sintoma de um debate que tem ganhado força nesta década: a ressignificação dos clássicos. Como lidar com conteúdos considerados obras-primas para seu tempo, mas que hoje têm aspectos vistos como ultrapassados?

Não é de agora que certos produtos culturais importantes têm sido revisitados e entendidos como problemáticos.

A professora Vanessa Bortulucce, mestra em História da Arte e da Cultura e doutora em História Social, ambos pela Unicamp, comenta o problema:  “É lógico que muitos dos filmes tinham determinadas visões de mundo que hoje são condenadas. E corretamente condenadas. Mas é importante assisti-los e dar uma chance para compreender essas visões. Isso não significa concordar com elas, mas é relevante para enriquecer o debate e interpretar o presente.” No Brasil, isso aconteceu recentemente com a obra de Monteiro Lobato, especialmente porque Tia Nastácia é um estereótipo do negro no começo do século 20, uma empregada doméstica sempre à disposição na casa de Dona Benta.

Ao discutir o que deve ser feito com os clássicos com traços ofensivos, Bortulucce também ressalta o perigo de “cancelar” esses conteúdos históricos. “Fechar os olhos para esse material é fragmentar e empobrecer o debate”. Para ela, “os filmes devem ser assistidos, sim. Mas a partir do contexto, é importante refletir sobre eles. E esse aviso da Disney reflete um cuidado com os entusiastas do estúdio, sejam crianças, adolescentes ou adultos.”

A criação de novos filmes com abordagens menos preconceituosas e mais inclusivas tem sido uma das prioridades dos estúdios de cinema atuais. Frozen, Valente e os remakes de Dumbo e Mulan são apenas alguns exemplos dos conteúdos novos que têm o intuito de quebrar estereótipos antes reforçados pelo cinema. No entanto, os remakes não substituem as versões clássicas, apenas as complementam com uma visão mais atual das questões.

“Talvez os remakes sirvam como uma reparação histórica. Até porque todo passado é sempre pensado no presente”, diz Bortulucce. “Mas podemos encarar os clássicos que não representam mais os valores da sociedade atual como fonte histórica. O cinema, assim como as outras fontes, é um componente fundamental para que a gente possa reconstruir o conjunto de ideias, culturas e a moral de uma época.”

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